Roberto Girola - Psicanalista e terapeuta familiar

Pagina Inicial

Pagina Inicial (11)

Artigos em destaque

Depois do furacão

por

O último processo eleitoral foi marcado por profundos conflitos ideológicos que tomaram conta das redes sociais, das discussões entre amigos e colegas, chegando até a perturbar o convívio de numerosas famílias. O cenário de destruição parece aquele que caracteriza a passagem de um furação. É difícil avaliar se o estrago psíquico que essas discussões provocaram poderá com o tempo ser superado de forma a reconstruir tecidos de convivência severamente esgarçados.

Para achar o caminho da reconstrução do tecido social, é importante saber “escutar” o outro e perceber por que as feridas abertas foram tão significativas e por que razão as divergências foram tão irreconciliáveis e defendidas com tanta ênfase. Aliás esse continua sendo o problema das diferentes tendências que disputam espaço no cenário político do país, tanto as que ganharam as eleições como as que perderam. Os discursos continuam refletindo um grave senso de irresponsabilidade, falta de percepção da realidade e tendências esquizoides.

Leia mais ...

Um olhar sobre o futuro

por

Uma aspecto que caracteriza o nosso momento histórico é a dificuldade de defini cenários para o futuro. A pergunta: “Onde você se vê daqui a cinco anos?”, que já foi habitual nas entrevistas de empego e que definia a determinação do candidato e sua capacidade de planejar sua vida, hoje se tornou capciosa.

Um sinal dessa dificuldade de definir cenários para o futuro aparece no plano da cultura tanto nas publicações impressas, quanto na indústria cinematográfica. Sucessos de venda como Sapiens ou Homo Deus (quem os escreveu é Yuval Harari professor de História da universidade de Jerusalém), ou aquele de caráter ainda mais apocalíptico Para completar Clausewitz (Achéver Clausewitz) de René Girard, preconiza um futuro incerto para a humanidade e a possibilidade de sua autoextinção.

Leia mais ...

Eu + Eu = -Eu

por

No contato com os meus pacientes percebo que as mudanças que o mundo nos apresenta trazem um grau elevado de angústia e perguntas que não se calam. O ser humano está se tornando mais egoísta? Estamos a caminho de uma nova era de barbárie? O que estamos vivendo é algo novo ou sempre foi assim? Afinal o que caracteriza o ser humano, como tal?

A visão que Freud apresenta em O mal-estar da civilização é aquela de um sujeito que vive às voltas com os instintos que brotam do seu inconsciente, tentando dominá-los pela pressão que ele sofre pelos processos civilizatórios, que lhe impõem suas leis e suas exigências, procurando barrar a força do seu desejo.

Leia mais ...

Psicólogo, psiquiatra, psicanalista: quem escolher?

por

Frequentemente quando alguém procura algum tipo de ajuda terapêutica fica em dúvida. Quem devo procurar? Aqui vão alguns esclarecimentos para orientar a escolha do profissional certo. A escolha do profissional vai depender daquilo que cada um busca, mas para isso é necessário entender o que cada profissional oferece e sua orientação.

O psiquiatra é um médico, cuja especialização visa o atendimento de pacientes que apresentam problemas psíquicos e que buscam uma abordagem medicamentosa (somente o psiquiatra pode receitar remédio, nem o psicólogo e nem o psicanalista são habilitados para isso). Muitos psiquiatras também são especializados em algum tipo de abordagem de caráter psicológico e oferecem acompanhamento terapêutico ou trabalham em parceria com profissionais com orientação psicanalítica, cognitivo/comportamental, etc.. Por ser médico o psiquiatra tem um registro no CRM (Conselho Regional de Medicina).

Leia mais ...

A bolha institucional: ditadura da perversão...

por

Quando Freud descreveu as síndromes ligadas à perversão, chegou à conclusão que elas poderiam ser classificadas em um lugar intermediário entre a neurose e a psicose. É o que podemos constatar diante do comportamento perverso da maioria dos nossos políticos, de alguns empresários e de membros da magistratura. Para qualquer pessoa de bom senso fica bastante claro o afastamento da realidade dos que supostamente deveriam estar representando os interesses da nação. A política, a gestão de negócios bilionários e, às vezes, o próprio exercício do direito se tornaram práticas narcísicas, voltadas a garantir os interesses e a sobrevivência de uma bolha institucional, que parece flutuar no nada, totalmente desconectada do país que supostamente deveria representar e da realidade que deveria nortear suas decisões.

Leia mais ...

Escuta e pensamento

por

Estou cada vez mais convencido que a capacidade de pensar está estritamente relacionada à capacidade de escutar. Essa escuta do Outro é o que de fato introduz em nós a possibilidade de “desconstruir” o nosso pensamento; a escuta provoca de certa forma um colapso do já pensado, do que foi capturado em códigos rígidos e tranquilizadores, criados a partir do nosso mundo internoO processo de pensar, por ser um processo criativo, começa com o caos. A escuta proporciona esse caos, quando ela for vivida como uma radical suspensão do nosso discurso interno. Trata-se de um processo difícil, que exige coragem e treino, pois nos joga na angústia, ou, como dizia o psicanalista inglês Bion, na “turbulência emocional”.

Esse desnudamento diante do outro que é a escuta, exige a humildade de estar no lugar daquele que “não sabe”, do “ignorans”, do indigente de pensamento. A prática clínica exige essa forma de escuta, cada paciente é ”novo”, cada sessão é ”a primeira”, cada encontro é o encontro com o desconhecido.

Leia mais ...

Crise, tristeza e possibilidade de criar

por

A tristeza foi banida na sociedade do espetáculo. O que dá “audiência”, tanto nas redes sociais como na mídia, é a tragédia, a raiva ou então a euforia. A tristeza é um sentimento morno (termo cuja fonética curiosamente remete ào verbo inglês mourn que indica um estado profundo de tristeza, geralmente ligado ao luto). A tristeza não se impõe, não dá audiência, gera incômodo, remete à fragilidade humana.

Em um interessante artigo publicado pelo jornal espanhol El País sob o título “Na política, mesmo os crentes precisam ser ateus”, a jornalista Eliana Brum, se referindo à manifestação do dia 13 de março, observa: “a angústia, no Brasil de hoje, se dá também pela vontade de acreditar que algo é verdadeiro num cotidiano marcado por falsificações”. O artigo é um convite a “suportar essa angústia”, evitando os perigos da fé cega (neste caso fé partidária), que, além de favorecer uma perigosa e estéril polarização do cenário político, tem a finalidade de aliviar a angústia, evitar a tristeza e inibir o senso crítico, ou seja, o pensamento.

Leia mais ...

Microcefalia psíquica

por

Já temos no Brasil milhares de casos de bebês nascidos com microcefalia. A possibilidade que a doença se espalhe e assuma proporções bem maiores infelizmente ainda existe. No entanto, o que sem dúvida já assumiu proporções bem mais sérias é outro tipo de microcefalia, que poderíamos chamar de microcefalia psíquica.

Em seu livro O sujeito na contemporaneidade, o psicanalista Joel Birman, um dos maiores e mais respeitados pensadores da psicanálise no Brasil, analisa com profundidade as características do mal-estar da contemporaneidade (que, aliás, é o título de outro livro dele), parafraseando o famoso texto de Freud, escrito em 1927, O mal-estar da civilização.

Leia mais ...

Vamos brincar de boneca...

por

Qual é a mulher que quando menina não ganhou uma linda boneca? Desde então houve um pressentimento oculto: o mundo esperava que ela um dia pudesse brincar de ser mãe. As mulheres que não podem ter filhos frequentemente se sentem mutiladas e são estimuladas a se submeter a tratamentos caros e difíceis para poder engravidar. No fundo essa é também, na maioria das vezes, a expectativa do parceiro.

Mas, e quando a linda bonequinha se transforma em um bebê real? “O rei” chegou e se apoderou  do corpo da mulher, que começa a sofrer transformações cada vez mais visíveis e nem sempre aceitas como algo esteticamente agradável. Isso sem contar as mudanças hormonais, o mal-estar, os enjoos, as inseguranças e o medo. Sim medo de não dar conta do parto, do bebê, do sofrimento...

Leia mais ...

Excesso de realidade

por

Talvez a sensação que melhor define o início desse novo ano seja “excesso de realidade”. A cascata de escândalos políticos envolvendo todas as instâncias e os maiores partidos que disputam o cenário político brasileiro foi quase levada pela enxurrada de lama e de minérios que destruíram a região do Rio Doce, num cenário apocalíptico que se estende por 800 Km e que já alcançou o oceano Atlântico, semeando morte e destruição. Mas isso não é tudo: para os que ainda ousam ter esperança e pôr um filho nesse mundo perturbado, o Zika vírus vem alertar que não é uma boa ideia, os nosso bebês antes mesmo de nascer já são ameaçados pela doença: poderão nascer com microcefalia, aleijados na sua capacidade cerebral.

Leia mais ...

Sob o jugo da depressão

por

Um amigo sofre de depressão. Ele costuma ir ao psiquiatra, mas não toma os remédios prescritos. Está afastado do trabalho e não tem ânimo para nada. Será que é mais cômodo para ele se proclamar depressivo, já que não quer tomar os remédios? (João Francisco Cunha – Taubaté, SP)                        

O que caracteriza a depressão é um estado de desistência, justamente porque o depressivo se sente aprisionado por correntes internas que o fazem sentir impotente diante da vida como um todo. Isto acarreta uma sensação de inutilidade e, por consequência, de paralisia perante os desafios que a vida apresenta, desde os mais significativos (trabalho, família, vida amorosa, etc.) até os mais rotineiros (tomar banho, tomar remédio, cuidar do corpo, comer, etc.).

Leia mais ...