Teoria da psicossomática em Winnicott

Curso Por que Winnicott?

(C) Andréia Graciano

“Minha tarefa é o estudo da natureza humana.”

(WINNICOTT, 1988, p.2Teoria da Psicossomática

Winnicott – assim como todos os pensadores e autores que contribuíram com o conhecimento -, viveu dentro do seu Zeitgeist (espírito do tempo) no conjunto do clima intelectual, sociológico e cultural de sua época.

No livro Natureza Humana escreveu: “Minha tarefa é o estudo da natureza humana.”. O autor se revelou consciente da vastidão do empreendimento, mas disse que apesar de saber disso, pretendia ainda assim ater-se a esse título, e fazer sobre a natureza humana uma exposição capaz de aglutinar as diversas experiências que havia aprendido com seus professores e suas vivências clínicas. Desta maneira, apresentou uma descrição pessoal — e, portanto, compreensivelmente limitada — de um tema que em si mesmo não conhece limites.  

Este é o contexto deste estudo de referência, que não existe como absoluto ou dogmático, mas que se apresenta como uma perspectiva de lugar para quem deseja ser um observador ou pesquisador de sua obra.

Talvez, a construção deste trabalho seja ingênua por desejar responder “Por que Winnicott?” com um brilho no olhar por este autor que seguiu o caminho do conhecimento das ditas ciências naturais e humanas com criatividade, espontaneidade e reflexões valiosas em suas conferências para pessoas que não eram analistas.

Bem-vindos e adiante!

A Teoria Psicossomática de Winnicott está baseada na existência inicial de um psique-soma instintivo-fisiológico, do qual se desenvolve mais tarde a mente, com suas complexas funções. A doença psicossomática, caracterizada por múltiplos splittings, encerraria, contudo, uma tentativa de retorno (aspecto positivo) à situação de integração inicial.

Teoria psicossomática

Personalização foi a palavra utilizada por D.W.W. para descrever a trama psicossomática ou a psique residindo no soma.

Em um trabalho intitulado A Teoria Da Relação Pai-Bebê (1960), escreveu:

“A base para este residir é a vinculação de uma experiência motora, sensorial e funcional com o estado de ser uma pessoa para o bebê. Como um desenvolvimento ulterior, surge o que poderia ser chamado de uma membrana limitadora, que, em certo grau, pode ser equiparada à superfície da pele, e assume uma posição entre o self e o não-self do bebê. Desta forma, o bebê passa a ter um dentro e um fora e um esquema corporal. Assim, o significado se apega à função do incorporar e de expelir; além do mais, gradualmente se toma significativo postular uma qualidade psíquica pessoal, ou interna, para o bebê.”

A partir das etapas iniciais do processo de desenvolvimento, Winnicott percebeu que a conquista da maturidade socioemocional dependeria da integração, da realização e da personalização.

A personalização seria o being a person (se tornar uma pessoa) com uma subjetividade dentro de um esquema corporal que o psicossoma deveria chegar, começando em uma psique imatura (embora fundamentada no funcionamento somático) que ainda não estaria “intimamente vinculada ao corpo”.[2]

A criança que vive firmemente estabelecida no corpo diz de uma psique e um soma que aprenderam a conviver. O neurologista diria que no Esquema Corporal[3], o tônus muscular da criança tem boa coordenação motora.[4]

Para a teoria winnicottiana, desde o processo do nascimento, os núcleos do ego estão em relacionamento com o núcleo do trato urinário, no núcleo da emissão de flatulências, no núcleo anal, no núcleo epidérmico, da saliva, da testa, da respiração, etc[5]. Nesta abordagem de Winnicott, a integração do ego depende da força de cada um destes núcleos somáticos na conquista da organização total da unidade psicossomática.

Segundo Carlos Doin[6], a psicossomática seria herdeira de uma longa evolução histórica, heurística e provisória, que deveria estar aberta a:

“(…) visões abrangentes, includentes sobre sistemas de continuum abertos a inovações, em que vigoram relações de oposição, composição dialética e complementaridade, a concepção funcional integradora que reconhece a teoria do caos, a possibilidade de mudanças aleatórias, a dinâmica interligada dos princípios de ordem, desordem e interação, auto-organização, conservadorismo e criatividade, regularidade e saltos qualitativos, propriedades emergentes, supervenientes nos sistemas complexos, como seria o surgimento do psiquismo na imensa rede conectiva dos circuitos neuronais do cérebro.” (Psicossomática Hoje, p. 511)

O pensamento de Carlos Doin me remete a uma nota de rodapé do texto Memórias do Nascimento, Trauma do Nascimento e Ansiedade (1949)[7] , em que Winnicott reconhece o valor de todas as teorias anteriores ou contemporâneas à ele. Aprecia a descoberta que teve de algo que já existia tão bem formulado antes dele, mas que não eram melhores para a sua compreensão do que aquilo que havia sido criado para si por ele mesmo.

No livro Explorações Psicanalíticas, em um Pós-Escrito: D.W.W. sobre D.W.W. de janeiro de 1967, diz:

“Não posso abranger tudo o que desejaria. Direi apenas que não sei se gostariam de debater alguma coisa disto ou se prefeririam ajudar-me, por carta, a corrigir-me e a reunir-me com as várias pessoas através do mundo que estão fazendo trabalhos que eu quer furtei, quer apenas ignorei. Não prometo segui-lo até o fim porque sei que vou continuar a ter idéias que pertencem ao lugar em que estiver no momento, e não posso deixar de fazê-lo.”

Evolução histórica e expoentes
  • Marcos dos Estudos em Psicossomática – 125 anos

1893 Freud – um caso de Histeria “Dora”, complacência somática e neurose de conversão

1918 Primeiro uso do termo “psicossomático” pelo psiquiatra alemão J. C. Heinroth

1923 Georg Groddeck – Publicação do “O livro d’Isso” – marco na Psicossomática Moderna

1928 Primeira vez que foi usado o termo ”somatopsiquico” por J. C. Heinroth

1930 Escola Psicossomática Americana de Chicago – Alexander e Dunbar

1935 Renne Spitz – Investigações sobre a psicologia psicanalítica infantil e a teoria do apego (1954)

1936 Conceitualização de stress pelo endocrinologista Hans Hugo Bruno Selye

1945 1o Artigo brasileiro do cardiologista José Barbosa Corrêa – “Medicina Psicossomática”

1949 A Mente e sua Relação com o Psicossoma – Donald Winnicott

1962 Escola de Psicossomática de Paris – Pierre Marty

1965 Associação Brasileira de Medicina Psicossomática – Rio de Janeiro

1970 Escola de Boston – conceito de alexitimia – Jonhn Nemiah e Peter Sifneos

1972 IPSO – Instituto de Psicossomatica de Paris

1973 Joyce McDougall – “Teatro do corpo” – alexitimia e sua precocidade na relação mãe-bebê

1980 Christophe Dejours – “De la psychopathologie à la psychodynamique du travail”

1980 Sociedade Brasileira de Psicologia Hospitalar

1981 Rosine Debray – Livro “Bebês e mãe em revolta”

1987 Sami- Ali – “Manual de Terapias Psicossomáticas”

1988 Fain Kreisler – Livro – “A criança e seu corpo”.

1989 Alexandre Franz Livro ” Medicina psicossomática”

1992 Júlio Mello Filho – “Psicossomática Hoje”

1993 Michel Fain – “Noção de Trauma”

1993 A Psicossomática do Adulto – Pierre Marty

1993 Núcleo de Psicossomática do Instituto Sedes Sapientae – Wilson e C. Vieira

1995 I Simpósio de Psicanálise e Psicossomática – SP

2000 Rubens M. Volich – “Psicossomática de Hipócrates à Psicanálise”

Corpo e alma

No texto A Mente e sua Relação com o Psicossoma (1949), Winnicott diz que a qualidade psíquica pessoal ou interna do indivíduo (SELF) era objeto de verificação do seu trabalho analítico-terapêutico e que os “elementos mentais irredutíveis” da subjetividade possuiriam seus correspondentes somáticos.

Para tanto, Winnicott faz uma formulação: “Não acredito que a mente exista realmente como uma entidade”, ou seja, o que corriqueiramente seria dito como uma “mente” influenciando o corpo e vice-versa significaria um “recurso taquigráfico conveniente” que serviria em uma conversação cotidiana de dizer sobre algo, mas que se investigado à fundo, possuiria um conceito muito diferente sobre o que estaria acontecendo.  

No início do texto, Winnicott ironiza dizendo que a antítese sobre o tema do enigma da relação corpo-mente, que tanto desconcertou os filósofos, se revelaria baseada numa ilusão.

Nos esclarece Carlos Dion[8] que as hipóteses explicativas filosóficas variavam, desde as que supunham duas entidades diferentes (o dualismo de Platão e de Descartes), até as que consideravam corpo e mente como uma entidade única (monismo dos filósofos neoplatônicos e de Spinoza), cujas características eram essencialmente iguais, apenas observadas e descritas de duas maneiras diferentes (monismo de atributos).[9

A mente

Para Winnicott, assim como a sexualidade deveria ser considerada conquistada a partir da fase do desenvolvimento de maturação emocional quando um indivíduo tivesse conquistado a condição de pessoa inteira para se relacionar a três corpos no Édipo, a mente, da mesma forma, deveria ser realizada em relação a um indivíduo total, que pôde incluir sua existência psicossomática, expondo a mente como uma especialização da parte psíquica do psicossoma (“sentir-pensar” com todo seu colorido semântico).

A mente, então, seria uma especialidade do funcionamento do psicossoma (útil e funcional em seu “traje a rigor”).

Winnicott foi um opositor obstinado contra procedimentos que estavam em alta nas práticas da psiquiatria consideradas como “Terapias Físicas para o Transtorno Mental”[10], tais como a Lobotomia (ou leucotomia)[11] e a Eletroconvulsoterapia (ECT)[12].

Sua hipótese considerava que a fantasia dos pacientes que ofereciam incondicionalmente seus corpos aos seus médicos, o faziam por acreditar que viveriam um suicídio sem morte. Diz Winnicott:

“A questão é: O que o tratamento e as convulsões significam para o paciente? Como possuo algumas evidências sobre este ponto, desejo apresentá-las. Elas provêm de minha prática psicanalítica, o tipo de pesquisa que se acha na melhor posição para fornecer as pistas relativas a este tipo de problema. A psicanálise capacita o paciente e o analista a irem muito fundo no significado inconsciente das coisas, pelo menos na medida em que concerne ao paciente específico. Na realidade, tantos detalhes se tornam compreendidos em uma análise que é muito difícil, em verdade, transmitir o que sucede no curso do tratamento para aqueles que acontece não haverem experienciado a análise eles próprios.”[13]

Na análise destes pacientes se tornou claro para Winnicott que a concessão e a permissão eram expressões dos desejos suicidas dos pacientes, que no tratamento visavam destruir parte de seu cérebro, e, por esta razão, dariam permissão para a lobotomia ou os ECT’s dos médicos, que agiriam como um pai subjetivo que “diante de um suicídio não os matariam”:

“De tudo isto pode-se ver que quando se pede a um paciente permissão para a terapia convulsiva, é sempre possível que a resposta positiva possa ser, e tem muita probabilidade de ser, um ato suicida. Isto equivale a dizer que o médico compreensivo poderia, se soubesse exatamente o que estava fazendo em todos os casos individuais, oferecer ao paciente uma tentativa de suicídio que na realidade não mata. E bem-sabido que tentativas genuínas, mas mal-sucedidas de suicídio podem ter um efeito benéfico, até mesmo curativo, e o tratamento convulsivo talvez pudesse ser utilizado desta maneira específica. Mas ele não é usado assim e tende a ser empregado como um tratamento mal-administrado, sem teoria a apoiá-lo.”[14]

Ocorre que, de acordo com Winnicott, a alta valorização da mente e do cérebro como a parte importante da personalidade e das experiências corporais estariam sempre nas experiências intelectuais da própria cabeça seriam frequentemente percebidas pelo paciente como uma falsa entidade existindo em si numa falsa localização.

Destas condições, adveriam os chamados “distúrbios psicossomáticos”, que estariam a “meio caminho entre o mental e o físico (…) colocados numa posição inteiramente precária.”[15], pois, a mente com sua inteligência usurparia o lugar do corpo formando uma mente-soma contrária ao natural e saudável psique-soma.

Estas são as preliminares da teoria da mente de Winnicott.

A mente em relação ao psicossoma se colocaria como guia quando o “continuar a ser” se encontrasse comprometido e seria, portanto, uma adaptação como saída e reação a negligência ou invasão do ambiente-cuidador. Quando o ambiente não é suficientemente bom, o funcionamento mental do bebê passa a existir precocemente por si mesmo, agindo com extrema capacidade adaptativa e com poderes curativos quase mágicos par proteger o ambiente. Como disse um paciente: “Mostrando para todos a melhor máscara para que não tenham medo.”.

Sobre as derivações desta teoria, disse Winnicott:

“Certos aspectos da falha materna, principalmente o comportamento errático, levam a uma hiperatividade do funcionamento mental. Aqui, no crescimento excessivo da função mental em reação a uma maternagem errática, percebemos que surge uma oposição entre a mente e o psicossoma, pois em reação a esse ambiente anormal o pensamento do indivíduo assume o poder e passa a cuidar do psicossoma, enquanto na saúde é o ambiente que se encarrega de fazê-lo. Na saúde a mente não usurpa as funções do ambiente. Ela permite que ocorra a compreensão e por vezes até mesmo a utilização de suas falhas relativas.”[16]

O processo gradual pelo qual o indivíduo se torna capaz de cuidar do “seu eu” pertence a estágios posteriores do desenvolvimento emocional, estágios que deverão ser atingidos no devido tempo, no ritmo ditado pelas forças naturais que regem o desenvolvimento.

A “História da Pessoa“ presente na anamnese tradicionalmente utilizada pelos médicos, psicanalistas ou psicoterapeutas auxilia a compreensão do seu sintoma psicossomático e visa proporcionar ao investigador o conhecimento da pessoa com quem está lidando, sua curva de vida permitindo fazer correlações com o estar doente, seja no presente ou no passado[17]. Para Winnicott, um dos problemas da técnica psicanalítica consistia em saber qual a idade do paciente está presente no interior da relação transferencial[18].

Para Winnicott, a história que se passa constitui o terreno familiar que está envolvida na área do desenvolvimento da personalidade.

O transtorno mental, então, seria uma defesa contra o perigo de aniquilamento do ego presente nas experiências de falhas excessivas do ambiente protegendo a psique – soma fugindo para a existência intelectualizada, tendo a mente como preponderante na função de sobrevivência aos ataques generalizados do mundo externo.

No entanto, estas “experiências dos não-vividos que deveriam ser vividos” das necessidades do indivíduo à época de dependência absoluta permanecem guardadas (congeladas) e catalogadas na mente, à espera de ser vivida em uma oportunidade em que um ambiente se apresente confiável para viver.

“Por outras palavras, o paciente deve continuar a procurar o detalhe passado que ainda não foi experienciado. Esta busca toma a forma de uma procura desse detalhe no futuro. A menos que o terapeuta consiga trabalhar eficazmente a partir da asserção que esse detalhe é já um facto, o paciente continuará a temer encontrar aquilo que procura compulsivamente no futuro. Por outro lado, se o paciente estiver pronto para algum tipo de aceitação desta estranha espécie de verdade – que aquilo que ainda não foi experienciado, todavia já aconteceu no passado –, então abre-se um caminho para a agonia ser experienciada na transferência, como reação face às falhas e erros do analista. Estes últimos podem ser tratados com o paciente em doses que não são excessivas, e o paciente pode dar conta de cada falha técnica do analista como contratransferência. Por outras palavras, o paciente recolhe gradualmente a falência original do ambiente facilitador dentro da área da sua omnipotência e da experiência de omnipotência que pertence ao estado de dependência (facto da transferência).”[19]

Por fim, a enfermidade psicossomática, assim como a tendência antissocial, tem aspecto esperançoso de unidade psicossomática (personalização) no encontro de um ambiente confiável para experiência da regressão na dependência. As falhas do analista-cuidador-suficientemente bom serão vividas na experiência de onipotência do ego, que agora existe para viver o acontecido (Transtornos Psicossomáticos, p. 90 – livro Expl. Psic).


[1] file:///C:/Users/55119/Downloads/DWW%20-%20Natureza%20humana[421].pdf

[2] Livro Explorações Psicanalíticas – Apresentação à Edição Brasileira p. x

file:///C:/Users/55119/Downloads/Explora%C3%A7%C3%B5es%20Psicanal%C3%ADticas.pdf

[3] O Esquema Corporal é um conceito que Clifford Scott (1949) apresentou sobre os aspectos temporal e espacial dos pacientes e como estas percepções forneceriam uma descrição valiosa do diagrama que o indivíduo teria de si próprio. Texto A Mente e sua Relação com o Psicossoma (1949) – livro Da Pediatria à Psicanálise, p. 332

[4] Livro A Família e o Desenvolvimento Individual, p. 8

[5] Texto Memórias do Nascimento, Trauma do Nascimento e Ansiedade (1949) – Livro Da Pediatria à Psicanálise, p. 266

[6] Carlos Doin é considerado por Júlio de Mello “um dos psicanalistas mais cultos e de pensamento mais revolucionário da Sociedade de Psicanálise, convidado por Júlio de Mello para escrever o capítulo sobre Psicossomática e Neurociências do livro Psicossomática Hoje. Segue resumo:

No seu texto, Doin estuda sobre a interface psicológica-psicossomática-neurociências cognitiva evolutiva. “Desde seu início, a psicanálise vem se constituindo uma disciplina de duas faces, um saber e um fazer do entre: a ciência natural e a ciência humana”, diz-nos Doin. O ser humano se compreende no encontro de vertentes: a físico-química, a biológica (somato-psíquica), a antropo-sociológica-estrutural. Escrevendo sobre a vertente naturalista, Doin nos prova que Freud começou por ela (“Projeto de uma Psicologia Científica”), mas que depois a abandonou pela pouca evolução da neurologia na época e passou a se empenhar em pesquisas psicológicas, construindo o edifício da psicanálise tal qual é conhecido hoje em dia. Surgiram assim, em oposição ao universo positivista, as teorias da mecânica quântica, da relatividade, das probabilidades, das plausibilidades e aproximações. Doin nos fala das correntes monista (a começar com Hipócrates) e dualista (Platão, Descartes e mais modernamente Popper). Júlio de Mello acredita que para seu uso, que corpo e mente sejam duas ou uma única unidade ontológica essencial, funcionando como uma unidade funcional, interagindo permanentemente.

O termo neurociência engloba várias disciplinas ligadas ao sistema nervoso, desde as grandes estruturas até a biologia molecular e a bioquímica de suas células. Ali se alinham a neuroanatomia, a neurofisiologia, a neuropsicologia, a neurologia clínica, entre outras. Destacam-se aí as técnicas de obtenção de neuroimagens encefálicas. Criou-se o rico campo da psicologia cognitiva que permite explicar o fenômeno

do insight biológico: “Ah, agora entendi.”

No item evolução filogenética versus desenvolvimento ontogenético, escreve Doin: Vão se formando um todo que possui forte tendência a se conservar, regenerar, reorganizar e restaurar, a se modificar e evoluir somatopsiquicamente, numa faixa mais ou menos regular e constante de desempenhos registrados como úteis e bons para a perpetuação da vida.

Por outro lado, agem forças antagônicas no sentido da destruição… Nosso fenótipo resulta da interação do genótipo com o meio ambiente físico, biológico, humano com as experiências da história pessoal. Nesse sentido, com as devidas restrições, vale o dito: “Genética não é destino”.

E, noutro trecho, sobre a relação precoce com a mãe, acrescenta: O pequeno ser individual se forma e se transforma em função da mãe, adapta-se ao mundo que principia sendo ela, tende a alinhar-se ao que ela sente e pensa sobre tudo e sobre cada pessoa e – o que é mais importante – ao que ela pensa, sente e espera em relação a ele.

E, sobre a integração neuropsicossomática: De fato, considerando as vias neuromentais ascendentes e descendentes, de “mão-dupla” do corpo, passando pelo sistema nervoso profundo e periférico, medula,

tronco cerebral, diencéfalo, cerebelo, núcleos da base, córtex, até o córtex pré-frontal, fica difícil de pensar em um corpo radicalmente separado de uma mente.

A visão integrada somato-psíquica psicossomática é a mais compatível com os conhecimentos interdisciplinares atuais.

A última parte do trabalho se refere à mais importante descoberta efetuada pela neurociência, a dos neurônios-espelho, feita recentemente por Rizzolatti e colaboradores na Itália. Esses neurônios, em um macaco, por exemplo, “disparam” quando um macaco realiza um ato de pegar uma fruta, levando-o a fazer o mesmo ato. São neurônios vinculados ao ato de imitar e, portanto, de se identificar com o outro.

Desse modo, relacionam-se a vários fenômenos psicológicos, particularmente estudados pela psicanálise, como a empatia, a função especular materna, as identificações saudáveis com as figuras de base do nosso passado – e com as identificações patológicas –, como o fenômeno do falso self, com a função alfa de Bion – com o processo do apego, estudado por Bowlby  e com as identificações introjetivas de Melanie Klein.

Para Doin, os neurônios-espelho e outras descobertas das neurociências em geral ressaltaram em muito os influenciados processos inconscientes enfatizados pela psicanálise, bem como sobre a importância do contexto transferência – contratransferência e repetição compulsiva, reforçando a importância e a esperança da aplicação de técnicas psicanalíticas no tratamento das doenças mentais.

file:///C:/Users/55119/Downloads/Psicossomatica_Hoje.pdf

[7] Texto Memórias do Nascimento, Trauma do Nascimento e Ansiedade (1949) – Livro Da Pediatria à Psicanálise, p. 257, Winnicott diz: “Deixo de lado agora o trabalho de outros autores e passo a apresentar os meus próprios pontos de vista nas minhas palavras. Fico muitíssimo contente quando, depois de deixar claro o meu pensamento, descubro que as minhas ideias já haviam sido formuladas por alguém, muitas vezes de maneira melhor, mas não melhor para mim.”.

[8] Texto Psicossomática e Neurociências do Livro Psicossomática Hoje, p.512

[9] Esta última hipótese conversa muito com as ideias de Winnicott sobre o psicossoma, quando propõe para seu estudo ora observar a psique e ora, o soma.

[10] Terapia Física do Transtorno Mental do British Medicai Journal, 17 de maio de 1947 – livro Explorações Psicanalíticas, p. 406

[11] Leucotomia Pré-Frontal Carta ao Redator-chefe do British Medicai Journal, de 28 de janeiro de 1956, livro Explorações Psicanalíticas, p. 420

[12] Tipos de Efeito Psicológico da Terapia de Choque Redigido para o Simpósio sobre Terapia de Choque, realizado na Sociedade Psicanalítica Britânica, em 15 de março de 1944, no livro Explorações Psicanalíticas, p. 403

[13] Tratamento da Doença Mental pela Indução de Convulsões – Datado de julho de 1943- livro Explorações Psicanalíticas, p. 394

[14] Idem, p. 396.

[15] Texto A Mente e sua Relação com o Psicossoma (1949) – livro Da Pediatria à Psicanálise, p. 333

[16] Idem, p. 336

[17] Texto ENSINO DE PSICOLOGIA MÉDICA de José Roberto Muniz e Luiz Fernando Chaza – Livro Psicossomática Hoje, p.55

[18] Texto Memórias do Nascimento, Trauma do Nascimento e Ansiedade (1949) – Livro Da Pediatria à Psicanálise, p. 253

[19] texto Medo do Colapso, Livro Explorações Psicanalíticas, p. 73

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