O trauma do aborto

Prezado Girola, quando o assunto é aborto, há sempre muita polêmica. Sei que a Igreja é contra essa prática. Aceito todos os argumentos contra esse crime. Contudo, acho vago afirmarem que é um trauma para a mãe praticar aborto. Que traumas são esses? Que “prejuízos” ela terá para o resto da vida? — Mãe em dúvida da Bahia

A gravidez, desejada ou não, traz uma série de importantes transformações no corpo da gestante. Levando em conta a íntima conexão entre a psique e o corpo, podemos intuir que a gravidez traz também importantes transformações psíquicas para a mulher. Do ponto de vista físico, o feto está intimamente ligado ao corpo da mulher. Sua diferenciação como ser biologicamente autônomo é progressiva e somente no ato do nascimento, com o corte do cordão umbilical, chega a ser definitiva.

Apesar dessa profunda unidade,, em determinadas circunstâncias, o feto pode ser sentido pela mulher como algo “separado”, sobretudo quando a gravidez é indesejada – podemos pensar por exemplo na gravidez fruto de estupro ou de alto risco para a vida para a mãe. Nestes casos, o feto pode chegar a ser considerado um “agressor”. Para a mulher grávida contudo as coisas não são tão fáceis. Se existe de fato uma consciência de que o feto não é ela, ou uma percepção que o feto é um agressor, por outro lado há também uma identificação com o feto, como sendo uma parte dela mesma. No caso de uma gravidez indesejada, temos portanto um paradoxo. A mulher nutre sentimentos hostis por algo que é intimamente ligado a ela, por algo que, de certa forma, é“sentido” como sendo ela mesma. Temos aqui uma primeira grave violência do ato abortivo, que, mesmo quando consentido, tende a ser sentido pela mulher como uma agressão contra ela mesma, pois algo dela é “atacado” e “morto”. Daí o ressentimento que freqüentemente as mulheres sentem em relação aos que as levaram a abortar.

Por outro lado, a gravidez traz consigo outro paradoxo, pois o feto é também sentido como sendo um “outro”, uma vida autônoma e portanto “separada” do corpo da mulher. Com esse “outro” a mulher estabelece uma ligação afetiva, que, como todo vínculo afetivo, é complexa. Ela sente de alguma forma ser a guardiã daquela vida indefesa, guardada no seu ventre. Este sentimento “bom” evidentemente é mais intenso quando o feto é fruto de uma relação amorosa sentida como boa. Ao mesmo tempo, em determinadas circunstâncias, a relação afetiva com o feto pode ser ambígua e até aversiva. Além dos dois casos acima mencionados (estupro e risco de vida), uma gravidez difícil, com fortes dores, ou uma gravidez que advém em um momento difícil do casamento ou prematuramente (adolescente grávida) pode trazer sentimentos aversivos. Neste caso o feto pode até vir a ser “odiado”. Não vamos porém esquecer que o ódio, do ponto de vista psíquico é sempre a outra cara do vínculo amoroso. É portanto comum, mesmo nos casos de gravidez indesejada, que o ato abortivo traga consigo intensos sentimentos de culpa, que costumam voltar à tona, quando a mulher fica novamente grávida e sucessivamente quando o bebê nasce, sob forma de sentimentos inconscientes de angústia que levam à vivência de intensos estados ansiosos (por exemplo, sob forma de um medo exagerado que o bebê adoeça ou morra). Em nenhum caso portanto o aborto é vivido como algo “simples” pelo psiquismo da mulher e, em alguns casos as consequências psíquicas são severas.

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