A falta de esperança é como um câncer. Uma vez que se instala em nosso organismo, se propaga para todos os demais aspectos de nossa vida. Uma escuridão profunda invade nossa psique e nos leva a um estado quase vegetativo, caracterizado pela paralisia, pela falta de vitalidade, por um sutil sentimento de melancolia.
Como fugir disso diante do cenário deprimente do mundo contemporâneo? Guerras, polarização da sociedade. questões climáticas, Instabilidade econômica, incerteza sobre o mundo que se delinea com os avanços da IA, são alguns dos cenários que tornam o futuro incerto.
Para os ingênuos o problema é o atual governo, para quem tem uma visão um pouco mais crítica, há uma convicção cada vez mais profunda de que as coisas não são tão simples assim, sobretudo no que diz respeito à falta de ética na gestão do bem comum. A malha da corrupção envolve não apenas as instituições governamentais, mas também associações, ONGs, condomínios, empresas e até igrejas, alvo da cobiça de administradores desonestos. O sistema se apresenta como um enorme monstro, contra o qual nos sentimos impotentes. Diante de seu tamanho e de seu poder nos sentimos solitários e indefesos.
Foi o que pensei, tempo atrás, assistindo a um espetáculo apresentado pela Companhia São Jorge de Variedades nas ruas de São Paulo. Meu falecido cunhado Marcelo era o protagonista. Trata-se de uma releitura do clássico de Cervantes, Dom Quixote. O protagonista do romance é um nobre espanhol que, encantado pela leitura dos clássicos da cavalaria, resolve se tornar um extemporâneo cavaleiro errante e lutar em favor. da justiça e dos oprimidos para obter o amor da sonhada Dulcinéia.
No romance de Cervantes, Dom Quixote é um visionário delirante. Rebanhos de ovelhas se transformam na sua fantasia em exércitos inimigos e os moinhos a vento em gigantes poderosos. Suas alucinações no entanto encontram eco na realidade. Pelo menos é o que demonstra a releitura desse clássico feita pela peça teatral que foi apresentada nas ruas de São Paulo. Dom Quixote ressurge e, ao som ritmado da música afro-brasileira, ele vai ao encontro de sua amada Dulcinéia que, na peça, é a própria cidade de São Paulo.
Aqui encontra uma realidade assustadora, meninos cheirando cola, moradores de rua, milhões de pessoas espremidas nos ônibus. As ovelhas são o exército agressivo de motoqueiros. Os gigantes são os arranha-céus da metrópole paulista. O vale tudo por dinheiro se alastra pelas ruas, onde tudo pode ser comprado e… vendido ou até roubado. Os contrastes da grande cidade são mostrados com sagacidade e humor.
Quase trezentas pessoas assistiam ao espetáculo, desde o ator global da novela das oito ao morador de rua. Crianças, jovens e adultos ficaram fascinados e comovidos. Quando os atores falaram dos moradores de rua, um deles, ali presente, começou a chorar e uma atriz foi consola-lo e o chamou para dançar com ela.
O tom bem-humorado do início foi se transformando aos poucos em um tom dramático, na medida em que a “bela” Dulcinéia (a cidade de São Paulo) revelava o seu rosto desfigurado. Até que dom Quixote caiu no chão sem forças, sem esperança, querendo desistir, encorajado apenas pelo seu fiel escudeiro Sancho Pança.
Dom Quixote é o símbolo de toda utopia que foi morta pela lógica de um sistema cruel de vida. Mas qual não foi a surpresa de todos quando justamente aquele que mais devia estar sem esperança, se aproximou e ajudou Sancho Pança a levantar o desanimado dom Quixote. Era um morador de rua. Na sua simplicidade disse: “Você não pode desistir!” Diante de um sistema cruel e opressor nãopodemos desistir do humano. Não podemos derrubar o sistema, mas podemos nos manter humanos vivendo nele.
