Tristeza nas baladas

Tristeza nas baladas, Caro Girola, sou uma jovem de 16 anos, estudo, tenho uma família boa, estruturada e atenciosa. Saio sempre com meus amigos para as baladas, me divirto muito. Porém, tenho percebido de uns tempos para cá, que quando estou em uma festa sinto-me triste, angustiada, sem motivo aparente. Não quero me divertir, fico com vontade de ir embora e, chegando em casa, choro. O que será que está acontecendo comigo? — Jovem de Minas Gerais

Tristeza nas baladas

Você está vivendo uma fase de sua vida que costuma ser crítica para muitos jovens. A adolescência traz transformações físicas e psicológicas importantes, que podem gerar confusão e até esse estado de melancolia que você experimenta. Do ponto de vista físico, as modificações são cada vez mais visíveis no seu corpo e a fazem sentir mais mulher. Ao lado das transformações visíveis, outras invisíveis ocorrem no plano hormonal. Elas estão por trás das mudanças físicas e afetam o estado emocional como um todo (agitação, excitação, prostração, etc.) e, em particular, a sexualidade e o humor. Corpo e mente formam uma unidade. É portanto lógico que, juntamente com as mudanças físicas, o adolescente viva também profundas mudanças psíquicas. Uma delas envolve a sexualidade. Com a puberdade o interesse pelo sexo aumenta. O desejo de contatos físicos com pessoas do outro sexo ou até, em alguns casos, do mesmo sexo, se torna mais intenso, favorecendo o surgir de fantasias sexuais e despertando a compulsão de se masturbar ou de se entregar a experiências sexuais com um parceiro. Tudo isso, tende a acarretar sentimentos de culpa e vergonha e portanto angústia, pois geralmente se trata de experiências que são vividas como verdadeiras transgressões, ás escondidas, sem que os pais saibam. Do ponto de vista psíquico, há ainda uma outra questão que costuma trazer sentimentos ambíguos e muito angustiantes. Trata-se da relação com os pais. A adolescência traz de fato uma necessidade de enfrentar os pais. Se antes eles eram um porto seguro e uma referência constante, agora parecem estranhos. Sua maneira de agir e pensar parecem ser muitas vezes incoerentes e “caretas”. O adolescente tende portanto a adquirir uma postura crítica que o leva a “assumir” seus próprios posicionamentos a impor sua vontade. Tudo isso é muito importante, pois, de fato, o adolescente precisa “se separar” psiquicamente dos pais, para poder exercitar sua liberdade e assumir suas próprias responsabilidades. Nem sempre porém os pais sabem dosar esses dois ingredientes e isso pode trazer também muita angústia e insegurança para o adolescente. Se por um lado, tudo isso é esperado e provavelmente até desejado, por outro lado as mudanças assustam e desestabilizam. A perda da infância e da sensação de “proteção” que ela trazia, pode gerar um verdadeiro estado de luto, que se manifesta com estados profundos de melancolia. Em sua carta a melancolia é associada especificamente às “baladas”, aparentemente o lugar menos oportuno para se ter esse tipo de sentimentos. Talvez isso possa estar ligado ao clima que se instaura em uma “balada”. Este, de fato é o lugar onde “rolam” as primeiras experiências de caráter sexual. “Ficar” com alguém se torna o objetivo da noite e, ás vezes, se instaura até uma certa competição nesse sentido, para ver com quantos garotos ou meninas alguém ficou. Tudo isso desperta um sentimento de ansiedade e também uma sensação de “ser descartável” bastante difícil de ser suportada do ponto de vista emocional. Por outro lado, quem “não fica” parece ser inadequado e se sente excluído. O “ficar” traz uma Também uma sensação de que tudo é passageiro e volátil. Uma sensação de estar sendo usado e de solidão, pois, apesar da proximidade física com muitas pessoas, raramente acontecem encontros “verdadeiros”. Sentir tristeza nesses ambientes não é portanto estranho, ao contrário é perfeitamente normal e “saudável”.

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Roberto Girola
https://robertogirola.com.br
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