Seneca

Seneca

1. Deus está próximo de ti, está contigo, está dentro de ti

Fazes algo ótimo e salutar a ti, se, como escreves, persistes em tender à sabedoria, que é tolice pedir aos deuses, dado que podes obtê-la por ti mesmo. Não é preciso levantar as mãos ao céu nem implorar ao guarda do templo que nos deixe aproximar da orelha da estátua, de modo que assim pudéssemos contar com melhor audição: Deus está próximo de ti, está contigo, está dentro de ti. Quero dizer, Lucílio, em nós habita um espírito sagrado, que observa e controla nossas ações boas e más; conforme nós o tratamos, assim também ele nos trata. Na verdade, nenhum homem pode ser virtuoso sem Deus: poderia alguma coisa erguer-se acima da sorte sem ser ajudado por Ele? Ele nos inspira princípios nobres e elevados. Em todo homem virtuoso habita um Deus (não sabemos qual). Se te encontrares diante de um bosque espesso de árvores seculares e que superar a altura costumeira, que tira a visão do céu com a extensão dos galhos que, entrelaçando-se, cobrem-se um ao outro, a altura desmesurada da selva e a solidão do lugar e a maravilha que suscita uma sombra tão espessa e ininterrupta em um espaço aberto, te convencerão de que existe um Deus. Se um antro não produzido artificialmente pela mão do homem, mas elaborado com tanta amplitude por causas naturais, mantém como que suspenso sobre rochas profundamente erodidas um monte, certo sentido de religiosa veneração atingirá teu ânimo. Veneramos as nascentes dos grandes rios; lá onde da profundidade irrompe com ímpeto e de repente um vasto rio, elevam-se altares; as fontes de águas termais são objeto de culto, e a cor escura ou a desmesurada profundidade tornaram sagrados certos lagos. Se vires um homem impávido diante dos perigos, purificado das paixões, sereno entre as adversidades, calmo em meio às tempestades, que olha os homem do alto e os deuses face a face, não serás tomado por um sentimento de veneração para com ele? Não dirás: “Há algo de demasiado grande e demasiado elevado, para que se possa considerar semelhante ao pequeno corpo em que se encontra”? Uma força divina nele desceu; uma potência celeste guia este ânimo superior, extraordinário, moderado, que passa sobre todas as coisas, consciente da sua insignificância, que ri de nossos temores e de nossos desejos. Não pode um ser tão grande permanecer firme sem o auxílio de um Deus; por isso, com a maior parte de si, encontra-se lá, onde desceu. Como os raios do sol tocam a terra, mas permanecem lá, de onde emanaram, também este ânimo grande e sagrado, feito descer no corpo para que conhecêssemos mais de perto [certos aspectos] da divindade, habita conosco, mas permanece ligado à sua origem: dela depende, para ela olha e anela, e está no meio de nós, mas como um ser melhor.

2. A consciência é o juiz de nossas culpas

De toda ação nossa somos chamados a prestar contas, mesmo que não diante dos homens, mas, em todo caso, diante de nós mesmos. Ainda que consigamos manter escondidas dos outros nossas culpas, nem por isso podemos ficar tranqüilos: o juiz mais implacável está, de fato, dentro de nós, e dele nada podemos esconder. Nenhum delito permanece, portanto, impune, porque a consciência da culpa atormenta quem a cometeu e não o deixa em paz, fazendo-o viver constantemente na ansiedade e no medo.

De resto, saibas que no fundo também nos animais mais depravados existe o senso do bem, e que não ignoram o que é o mal, mas não dão atenção a ele; todos dissimulam suas culpas e, embora estas tenham tido êxito feliz, eles gozam seus frutos, mas procurando mantê-las escondidas. A consciência reta, ao contrário, quer mostrar-se e fazer-se notar: a maldade teme até as trevas. Por isso, parece-me que tenha dito com fineza Epicuro: “A um delinqüente pode acontecer permanecer escondido, mas não pode ter certeza disso”, ou então, se quiseres que o significado torne-se mais claro deste modo: “Aos culpados não adianta permanecer escondidos, porque, mesmo que tenham a sorte de permanecer escondidos, não têm certeza disso”. É o seguinte: quem comete um delito pode estar imune de perigos, [mas não dos temores]. Não creio que este pensamento, explicado assim, esteja em contraste com os princípios de nossa escola. Por que? Porque a primeira e a mais grave punição dos culpados consiste no fato de ter cometido a culpa, e nenhum delito, por mais que a sorte o adorne com seus dons, o proteja e o defenda, permanece impune, pois a pena do delito está no próprio delito. Não bastasse isso, esta pena tem por trás logo outras: o ter constantemente medo, o espantar-se e o não crer na própria segurança. Por que libertar a maldade deste tormento? Por que não deixá-la continuamente abalada? Não estamos de acordo com Epicuro quando diz que nada é justo por natureza e que os delitos devem ser evitados porque não se pode evitar o medo: admitamos com ele que as más ações são torturadas pela consciência, e que seu tormento é a ânsia contínua que a incomoda e molesta e o não poder confiar em quem lhe garante a tranqüilidade. Exatamente esta, com efeito, Epicuro, é a prova que nós por natureza detestamos o delito: todos têm medo, mesmo que estejam em segurança. A sorte subtrai muitos ao sofrimento, ninguém ao medo. E por que, a não ser porque está enraizada em nós a aversão por aquilo que a natureza condenou? Por isso, também os que estão escondidos jamais têm certeza de assim permanecer, porque a consciência os inculpa e os denuncia a si mesmos. Estar constantemente em ansiedade é próprio dos culpados. Uma vez que muitos delitos fogem à lei, aos juízes e às penas sancionadas pela lei, seria grande mal para nós se tais delitos não fossem imediatamente castigados com as duras punições infligidas pela natureza e o medo não substituísse o sofrimento de uma pena.

Sêneca, Cartas a Lucílio.

3. O belo sonho da imortalidade da alma

Em Sêneca é fortíssimo o desejo de crer em uma sobrevivência eterna da alma depois da morte. A ontologia estóica não lhe permite, porém, fundamentar racionalmente tal tese, que ele apresenta, portanto, como um “belo sonho”, ao qual é agradável abandonar-se. A vida terrena aparece em tal perspectiva como uma fase transitória, uma espécie de gestação que nos prepara para a verdadeira vida, a que tem início com a morte e a libertação da alma em relação ao corpo que a mantinha prisioneira.

Através desta vida mortal, somos preparados para aquela outra vida, melhor e mais longa. Como o útero materno nos contém por nove meses e nos prepara não para si, mas para aquele lugar em que parece que tenhamos sido mandados já capazes de respirar e de resistir ao ar livre, também através deste período que se estende da infância para a velhice amadurecemos para um outro parto. Um outro nascimento nos espera, uma outra condição. Não podemos ainda suportar a visão do céu, a não ser de longe. Por isso, olha intrépido a hora decisiva: é a última, não para a alma, mas para o corpo. Olha tudo isso que está ao teu redor como a mobília de um lugar onde és hóspede: é preciso passar além. A natureza despoja quem sai da vida como quem entra. Não podes levar embora mais do que trouxeste nascendo, ao contrário, é preciso deixar também grande parte daquilo que carregaste pela vida: ser-te-á tirado o invólucro mais externo que te envolve, a pele; ser-te-á tirada a carne e o sangue que corre e circula por todo o corpo; ser-te-ão tirados os ossos e os músculos, que sustentam as partes moles e líquidas. Este dia que temes como o último é o do nascimento para a eternidade. Depõe o peso: por que te atrasas, como se antes não tivesses saído, deixando o corpo em que estavas escondido? Tu te manténs agarrado, ofereces resistência: também então fostes expulso com grande esforço por parte de tua mãe. Gemes, te lamentas: também este choro é próprio de quem está nascendo, mas então devíamos perdoá-lo: tinhas vindo ao mundo ignorante e inexperiente. Saído do quente e macio refúgio do ventre materno, o ar livre soprou em cima de ti, depois foste tocado por uma mão demasiado dura, e, ainda tenro e absolutamente sem experiência, foste deixado atônito no meio de coisas desconhecidas, mas agora, ao contrário, para ti não é coisa nova ser separado daquilo de que antes fizeste parte; abandona serenamente estes membros doravante inúteis e deixa este corpo por longo tempo habitado. Serás dilacerado, sepultado, destruído: por que te entristeces? Acontece sempre assim: é perdido o invólucro que envolve quem nasce. Por que amas estas coisas como se fossem tuas? Apenas te recobriram: chegará o dia em que a força te será arrancada e serás arrastado para fora da convivência com este repelente e fétido ventre.

4. Imitemos os deuses e comportemo-nos com todos os homens como com irmãos

Assim como os deuses se comportam em relação a nós, também nós devemos nos comportar nas relações com nossos semelhantes. Isto significa não só que não devemos fazer o mal, mas também que devemos fazer o bem, até àqueles que nos fazem mal. Descendemos todos da mesma origem, somos membros de um imenso organismo, somos irmãos, e, pelo bem, nosso e do todo de que somos parte, nossas ações devem ser marcadas pelo amor recíproco.

O primeiro verdadeiro ato de veneração para com os deuses é crer neles; depois reconhecer sua majestade e reconhecer sua bondade, sem a qual não há majestade; saber que são eles que governam o mundo, que regulam tudo com sua forza, que protegem o gênero humano, às vezes descurando os indivíduos singulares. Eles não infligem e não sofrem o mal; por outro lado, punem alguns, seguram-nos com freio e por vezes impõem punições sob a aparência de benefícios. Queres propiciar-te os deuses? Sê bom. Quem os imita presta-lhes o devido culto. Eis outro problema: como devemos nos comportar com os homens? O que fazemos? Que preceitos ordenamos? De não derramar sangue humano? É muito pouco não fazer o mal àquele a quem deverias fazer o bem! Certamente é grande mérito que o homem seja humilde em relação a outro homem. Ensinamos a estender a mão ao náufrago, a indicar o caminho a quem se extraviou, a dividir o pão com quem tem fome? E por que enumerar todas as ações que se devem fazer ou não fazer, enquanto posso dar-lhes esta breve fórmula, que compreende todos os deveres do homem? Tudo aquilo que vês, que encerra o divino e o humano, é um uno: somos os membros de um imenso organismo. A natureza nos criou irmãos, gerando-nos dos mesmos elementos e para os mesmos fins; infundiu-nos um amor recíproco e nos tornou sociáveis. Estabeleceu a equidade e a justiça: para seu decreto é mais triste fazer o mal que sofrê-lo; por seu comando as mãos devem sempre estar prontas para ajudar. Tenhamos sempre este verso no coração e nos lábios: “Sou um homem, e não julgo estranho a mim nada daquilo que é humano”. Coloquemos tudo em comum: nascemos para [uma vida em comum]. Nossa sociedade é muito semelhante a uma abóbada de pedras: ela cairia, caso as pedras não se sustentassem reciprocamente, e é justamente isto que a mantém.

Sêneca, Cartas a Lucílio.

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Roberto Girola
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