Quando a vida diz não:

Quando a vida diz não: Tenho o sonho de ser mãe de uma menina ja que tenho um rapazinho, mas tenho um problema de DNA e perdi cinco bebes antes do meu filho. O que quer que eu faça, esbarro nessa vontade e não consigo desistir dela.

A frustração do desejo

Freud, ao elaborar a sua teoria sobre o funcionamento mental, põe à sua base dois instintos fundamentais: o instinto de vida (libido) e o instinto de morte. Se o primeiro nos leva em direção ao mundo externo, investindo sonhos, projetos, pessoas, situações, etc., o instinto de morte nos leva para trás, para a desistência e o fechamento no nosso mundo interno, paralisando o nosso desejo. Os estados depressivos e melancólicos são um exemplo disso.

A “estrutura desejante” é importante, pois é ela que dinamiza a nossa mente, fazendo que nos sintamos vivos. No caso citado pela nossa leitora, a força dessa estrutura é dominante e faz com que ela não possa abrir mão de um desejo específico: ter uma filha.

 Quando um sonho se abre caminho em nossa mente, movimentando o nosso desejo, uma importante instância mental entra em ação. Freud a chamava de principio de realidade. Essa instância se une ao que  a Psicanálise chama de superego, o “juiz interno” que filtra os nossos desejos “sentenciando” quando eles podem ou não serem investidos.

No caso citado parece haver um problema com o princípio de realidade. A mente tende a “ignorar” dois fatores importantes: a limitação física que torna a gravidez arriscada e o fato de que não necessariamente um novo filho seria menina.

A mente parece aprisionada em uma espécie de looping (volta ao mesmo pensamento), não conseguindo mais desenvolver um avanço no pensamento, bloqueando o seu poder criativo. A adaptação do sonho à realidade se torna assim impossível.

Para poder sai do looping, a mente precisaria aceitar a frustração e investir soluções alternativas, que respeitem o princípio de realidade, como, por exemplo, adotar uma criança de sexo feminino.

A não frustração do desejo, contudo, hoje é comandada por outro imperativo de cunho superegóico, típico da nossa era do consumo ilimitado: o apelo ao gozo sem fim. A frustração do desejo nesse contexto se apresenta como um depressivo esvaziamento do ser.

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Roberto Girola
https://robertogirola.com.br
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