Produtos de beleza: podemos viver sem eles?

Todos os dias assisto pela televisão grandes empresas de cosméticos oferecendo mil e uma soluções em produtos de beleza. Sou uma pessoa de meia-idade e confesso que não estou interessada nos produtos. Será que estou perdendo a minha autoestima? C.L.S, de Belo Horizonte (MG)

 Produtos de beleza: podemos viver sem eles?

 Dois artigos publicados anteriormente, Cuidar do corpo (artigo publicado no livro Perguntas a um psicanalista) e A relação com o corpo abordaram a questão de como os cuidados corporais interferem na nossa autoestima. Desta vez, para não me repetir e levando em conta a pergunta, gostaria de frisar outro aspecto, que me chamou a atenção. Espero desta forma, indiretamente, de responder à questão levantada. A nossa leitora assiste regularmente comerciais que as empresas de cosméticos põem no ar para oferecer “mil e uma soluções para garantir a beleza”. Diante da constatação que os produtos não despertam o seu interesse, a leitora se pergunta se está perdendo a sua autoestima.

O que me chama a atenção é a relação intrínseca que se estabelece na mente do telespectador. Não mostrar interesse por um comercial seria um sinal de que ele de fato pode não estar cuidando de sua autoestima. Isto apesar de todos sabermos que os comerciais não são feitos com o intuito de “prestar um serviço” ao telespectador, no caso em questão ajudá-lo a cuidar de sua auto-estima, e sim para vender um produto. Os comerciais sobre produtos de beleza parecem estar despertando uma certa “culpa” na nossa leitora. Desconsiderar a mensagem de um comercial é quase como desrespeitar uma injunção vinda do além: “Cuide de sua beleza para não perder a sua auto-estima”. Certamente isto não acontece apenas com a nossa leitora. Eu mesmo à vezes me vejo às voltas com esse tipo de injunção, que cria uma necessidade que não pode ser adiada e nem questionada.

Se você comprou um carro zero quilômetro, um ano depois, já começam a ligar da concessionária, pressionando para que troque o seu carro. Parece quase inadequado pelo tom do vendedor que você queira ficar com o seu carro, pois já saiu o “novo modelo” com a frente re-estilizada e com friso lateral na cor do carro. O mesmo ocorre com o celular e com uma série de produtos de uso comum. Quem não se atualiza, seguindo os ditames do “mercado” e da moda, está definitivamente “por fora”.

E como fica a autoestima, nesse caso? Bom, é claro que fica abalada. Mas por que? De onde vêm esses “modelos” absolutos aos quais somos chamados a nos conformar? No panteon (templo dedicado a todos os deuses) do consumo existe uma infinidade de deuses aos quais devemos prestar conta. Cada um nos mostra um “modelo”  a ser seguido. Transgredir a esses deuses parece ser letal para a auto-estima.

Quando os deuses do consumo, são revestidos de roupagem religiosa, a coisa se complica, pois o apelo passa a ser clara e explicitamente transcendente. “Se você quiser merecer a proteção divina, contribua com dez por cento de tudo o que você ganha para a sua igreja”. “Se você não acatar tudo o que a sua igreja pede, você está trabalhando para o demônio”. Evidentemente, saber que estamos trabalhando para o demônio não é nada bom para nossa autoestima.

Enfim, seja de onde for que essas injunções provêm, elas criam em nós um eu idealizado ao qual devemos nos conformar para sermos “adequados”, aceitáveis pelo grupo ao qual pertencemos, pela sociedade, pela empresa onde trabalhamos, pelas garotas ou pelos meninos da turma.

Na realidade, do ponto de vista psíquico, nada disso contribui para a nossa auto-estima. O que de fato nos torna aceitáveis a nós mesmos (auto-estima) é a adequação entre o que nós vivemos e o que nós “somos”. O que nós somos está depositado no nosso núcleo interno de personalidade. O difícil, no meio de todas essas solicitações vindas do mundo externo, da mídia, da sociedade de consumo, do Mercado e até das igrejas que se venderam, fazendo da própria religião uma forma sofisticada de “consumo”,  é poder entrar em contato com esse santuário interno, onde está o nosso self, o nosso eu verdadeiro. Infelizmente o nosso self não dispõe de comerciais tão sofisticados e chamativos, ele se manifesta no silêncio, quando desligamos os apelos do mundo externo.

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Roberto Girola
https://robertogirola.com.br
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