Pirro

Pirro: O ceticismo pirroniano como caminho para a felicidade

Pirro renuncia a qualquer critério que leve a individuar valores. As coisas, para ele, não são ontologicamente “mais isto que aquilo” e, portanto, são imensuráveis e indetermináveis; o homem é frágil e como folha ao vento.

É preciso, portanto, renunciar a qualquer critério de avaliação, permanecer sem opinião e sem agitação, sem julgamentos e a partir disso se alcança a imperturbabilidade. Pirro, porém, não negava que existisse uma natureza eterna do divino, mas afirmava que, em relação a esta natureza, tudo é como que irreal e, portanto, como tal deve ser vivido. Seu Ceticismo está ligado a uma dimensão de “moralismo extremo”.

O Ceticismo posterior, embora inspirando-se em Pirro, eliminou esta componente de moralismo ascético levado ao extremo.

1. A imagem de Pirro transmitida pelos antigos

Pirro de Élida era filho de Plistarco, conforme refere também Díocles; segundo o que diz Apolodoro na Cronografia, foi primeiro pintor e ouviu as aulas de Brisão, filho de Stilpone (como afirma Alexandre nas Sucessões), depois as de Anaxarco, que seguiu em todo lugar, de modo que teve contatos com os gimnosofistas na Índia e com os magos; de onde parece ter cultivado a mais nobre filosofia, introduzindo o conceito da não-apreeensibilidade e da suspensão, conforme diz Ascânio de Abdera: com efeito, dizia que nada é belo nem feio nem justo nem injusto; e da mesma forma de todas as coisas disse que nada é conforme a verdade; e que os homens agem em tudo por convenção e hábito; qualquer coisa é não mais isto que aquilo.

Comportava-se de modo conseqüente também na vida, nada evitando e de nada se preservando, permanecendo firme diante de tudo, carros, se acontecesse, precipícios ou cães, de fato nada concedendo aos sentidos. Mas era salvo, conforme contam os que seguem Antígono de Caristo, pelos amigos que o acompanhavam.

Antígono de Caristo, no livro Sobre Pirro, conta dele o seguinte: no início era desconhecido, pobre e pintor; no ginásio de Élida são conservados seus porta-lâmpadas de bom feitio.

Retirava-se por sua conta e procurava a solidão, mostrando-se raramente aos familiares. Comportava-se assim por ter ouvido um indiano advertir Anaxarco que não teria podido ensinar outra pessoa a ser virtuosa, freqüentando ao mesmo tempo as cortes dos reis.

Conservava sempre a mesma disposição, de modo que, se alguém o abandonava no meio de um discurso, ele o terminava igualmente, embora tendo sido, na juventude, de caráter excitável.

Freqüentemente, conta, deixava a pátria sem de antemão avisar a ninguém e acompanhava vagabundeando a quem lhe agradasse. E quando certa vez Anaxarco caiu em um pântano, passou de lado sem o ajudar; alguns lhe dirigiram reprovações, mas o próprio Anaxarco elogiou diversas vezes sua indiferença e imperturbabilidade. Pego certa vez falando consigo mesmo, a quem lhe perguntava a razão respondeu que se exercitava para ser virtuoso.

Chegou a ser tão admirado na pátria que foi eleito sumo sacerdote e, em homenagem a ele, foi estabelecido por decreto que todos os filósofos fossem isentos das taxas.

Diógenes Laércio, Vidas dos filósofos, IX, 61-64.

2. A imperturbabilidade de Pirro

Contam também que, quando por causa de uma ferida lhe foram aplicados fármacos desinfetantes, incisões e cauterizações, nem piscou os olhos.

Posidônio conta sobre ele também o seguinte: certa vez que os que com ele navegavam caírem tomados pelo terror por causa de uma tempestade, ele, permanecendo calmo, recobrou a força de ânimo, mostrando um porquinho que sobre a nave continuava a comer e dizendo que o sapiente deve manter-se em semelhante estado de imperturbabilidade.

Diógenes Laércio, Vidas dos filósofos, IX, 67-68.

3. A precariedade dos homens

Pirro afirmava que não existe nenhuma diferença entre vida e morte. Alguém lhe perguntou: “Então, por que não morres?”, e ele: “Porque não há nenhuma diferença”, respondeu.

Também Fílon de Atenas, tornando-se seu seguidor, dizia que Pirro costumava lembrar-se sobretudo de Demócrito e depois também de Homero, admirando-o e freqüentemente repetindo: “como a estirpe das folhas, tal a dos homens” [Homero, Ilíada, VI, v. 146]1 e que costumava comparar os homens às abelhas, às mocas, aos pássaros; citava também estes versos:

vamos, amigo, morre também tu; por que te lamentas assim?

4. As condições para ser feliz

Contra os que seguem Pirro, chamados céticos ou eféticos, que afirmam que nada é apreensível.

Antes de tudo é necessário indagar sobre nosso conhecimento; com efeito, se por natureza nada conhecemos, é supérfluo indagar sobre o resto. Também entre os antigos houve alguns que afirmaram isso, aos quais replicou Aristóteles. Particular força em dizer isso teve também Pirro de Élida, que porém não deixou nada escrito; mas seu discípulo Timão afirma que aquele que quer ser feliz deve considerar estas três coisas: em primeiro lugar, como as coisas são por natureza; em segundo lugar, qual deve ser nossa disposição para com elas; por fim, o que nos virá disso, comportando-nos assim. Ele diz que Pirro mostra que as coisas são igualmente sem diferenças, sem estabilidade, indiscriminadas; por isso nem as nossas sensações nem as nossas opiniões são verdadeiras ou falsas. Não é preciso, portanto, crer nelas, mas estar sem opiniões, sem inclinações, sem sobressaltos, dizendo sobre cada coisa: “é não mais que não é”, ou “é e não é”, ou “nem é, nem não é”. Aos que se encontrarem nessa disposição, Timão diz que derivará em primeiro lugar a afasia, depois a imperturbabilidade.

5. A vida na dimensão da serenidade e da quietude

Houve de fato muitos êmulos em não fazer nada; por isso também Timão dele diz o seguinte no Píton e nos Silos:

/ Isto, Pirro, meu coração deseja ouvir, / como então, homem que ainda és, vives serenamente em quietude / apenas aos homem servido de guia como um deus.

Pirro, test. 61A, 61B, 62.

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Roberto Girola
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