Pertencimento: o difícil caminho da esperança

Pertencimento: o difícil caminho da esperança

O cenário atual proporciona numerosas razões para a desesperança. O pipocar de escândalos no cenário político mostra um total descaso com o país não somente por parte dos políticos, mas também por parte de amplos setores privados, empenhados em ganhar dinheiro a qualquer custo. Resquício de uma mentalidade colonial, totalmente anacrônica e sem sentido, a relação com o país por parte de parcelas significativas das elites políticas e econômicas é essencialmente predatória. É raro encontrar sinais de “pertencimento”, que apontem para uma preocupação com o bem comum e a sustentabilidade do país como um todo.

O cenário é muito mais preocupante quando conseguimos sair de um discurso condenatório, que aponta para um bode expiatório específico, seja ele um partido ou uma determinada camada social, para perceber que esse sentido de não pertencimento é muito mais difuso do que pensamos.

Numerosos exemplos refletem esse fenômeno. Nas classes mais abastadas é frequente constatar o desejo de “deixar” o país em busca de lugares mais “seguros” e “civilizados”. São exemplos disso os numerosos imóveis vendidos em Miami para brasileiros que resolveram investir nos EUA, não apenas por causa das vantagens econômicas, mas também movidos pelo desejo de deixar uma porta dos fundos aberta para deixar o país. Uma das causas do déficit em conta corrente do Brasil foi a saída de bilhões de dólares gastos por brasileiros no exterior, não só para viagens, mas também para compras, bem como as remessas para bancos estrangeiros de recursos nacionais.

Nas camadas menos favorecidas, o descaso com o país se reflete em atitudes predatórias em relação a tudo o que é público, sejam instituições (escolas, hospitais, parques, rios e represas, etc.), logradouros, ou benefícios cedidos pelo governo e usados de forma ilegal.

Outro sinal de não pertencimento, este difuso em todas as classes sociais, é o uso predatório dos recursos naturais (água e fontes de energia) e a produção de toneladas de lixo não reciclável ou até tóxico.

Enfim, não é fácil “pertencer”, mesmo porque o sentimento de pertencimento é fruto de fatores psíquicos internos complexos, que vêm de uma apropriação inconsciente do “ambiente” processada desde a mais tenra infância. Podemos porém estar atentos para não alimentar o círculo vicioso do não pertencimento, a partir do lugar que ocupamos no mundo.

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Roberto Girola
https://robertogirola.com.br
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