Lucrecio

Lucrecio
De rerum natura

1. Superação do mal

Poderei não saber do mundo as origens,

mas, pelos sinais do céu e de muitas coisas criadas,

estou certo de que o mundo não é feito para nós,

porque ele é fonte de tanto mal.

No espaço que cobre o impulso terrestre

grande parte têm os montes

ávidos, as selvas gratas às feras, os rochedos,

os pântanos acinzentados de lagos

e os mares que tornam longínquas as terras:

aqui a deserta aridez, acolá o gelo perene

nos tolhem a extensão do solo:

e o pouco que avança de terra mais dócil,

se a força do homem, para permanecer vivo,

não finca com suor a enxada, se enche de mato.

E nós fecundamos as glebas com o arado,

tornamos grandes as plantas

porque sozinhas não viriam ao ar.

Mas, enquanto os campos frondejam

e as árvores e ervas respiram, com assíduo

cuidado educadas, chega sobre as obras humanas

a chuva improvisa e a geada ou a chama

demais acesa do sol: ou então

desce para arrancá-las o sopro do furacão.

E em todo lugar, pela terra e nos fundos

do mar que sustenta as estirpes das feras,

impele sobre nós os sopros malignos das estações:

e a morte circula, inesperada.

E o menino, como náufrago lançado à margem

pelas ondas enfurecidas,

jaz nu por terra, sem poder falar,

precisando de ajuda, e quando pelo uivo materno

a natureza o jogou lá, na luz,

chora e torna lúgubre o dia de lamentos:

presságio do mal que lhe resta viver.

Ao invés, os animais, os rebanhos, as feras

crescem variadas, nem de brinquedos têm necessidade

nem de amas com brandas e ternas vozes

nem de vestes que mudam ao mudar o tempo,

nem de armas, nem de muralhas para se defenderem:

pois tudo para eles produz a terra

generosa, tudo para eles provê a natureza.

Ora, se isto é um remédio ridículo

e os humanos terrores e os afãs seguidores

não temem o som das armas nem guerras,

que se misturam audazes entre os reis e os poderosos,

nem o fulgor do ouro os fascina ou a púrpura,

por que duvidar que apenas o poder

da razão esteja em grau de abatê-los?

tanto mais que a vida está envolta em trevas.

E, assim como os meninos vêem de noite, aterrados,

no vazio da sombra fantasmas de gélidas asas

e imaginam outros em caminho pelo ar,

também na luz tremem os homens

por coisas mais exíguas que as sombras. Nem adianta

os raios do sol desfazendo as trevas

e este terror do ânimo, mas apenas

o estudo do verdadeiro, mas apenas a luz

da razão.

2. Sentimento de desfalecimento no infinito

O todo existente não está de modo nenhum

terminado: teria ao invés um extremo:

mas é claro que jamais de uma coisa

possa haver extremo se outra coisa não existe

que marque seu confim: de modo

que se veja o ponto para além do qual

termine a visão dela. E, assim como

admitimos que nada existe para além do todo,

ao todo falta o extremo e o fim;

nem importa em que ponto de encontras do todo:

que um ponto qualquer tenha diante de si o infinito.

Pensar por um momento acabado o espaço:

se alguém se lançar lá embaixo

em direção às últimas praias do mundo

e atirar uma flecha veloz, o que

te agradaria crer? que o dardo

lançado com força atingisse a meta

e voasse para longe ou que pudesse

algo pará-lo e impedi-lo?

Obrigado estás a aceitar

uma destas duas coisas; todavia

tanto uma como a outra te impede qualquer caminho

e te força a admitir

que o todo se estende, infinito:

pois, mesmo que algo impeça

o vôo do dardo de atingir a meta,

mesmo que o vôo prossiga fora,

ele certamente não partiu de um termo último.

Se quiseres continuar eu te sigo

aonde quer que ponhas o extremo limite e saber

desejarei ter a sorte daquele dardo.

Não terás um limite para parar

e aberta sempre terás a fuga

em busca de novos limites.

Eis: uma coisa limita a outra ao olhar

de modo que todo limite marca a forma do mundo:

o ar é confim de uma colina, o monte do ar;

a terra é termo do mar, o mar da terra.

Não há nada que o todo feche em um círculo por fora.

Se todo o espaço do mundo

fosse fechado por limites certos e acabado,

já descido ao fundo estaria o amontoado

da matéria por causa do peso e sob

a abóbada do céu mais nada viveria

e nem céu nem sol de fato existiriam:

pois acumulada estaria há tempo

infinito no baixo a matéria inerte.

Mas agora, como é natural, os germes dos corpos

jamais têm descanso, porque não existe

um fundo onde possam cair e parar;

e sempre com movimento contínuo acorrem átomos

para formar as coisas, de todos os lados

e também de baixo, velozes, do infinito.

Tal é portanto a natureza do vazio, tal do espaço

é fundo o abismo que nem sequer o raio

poderá jamais percorrer inteiro

nem abreviar de um só ponto o seu caminho,

nem mesmo se o relance luzente durasse

o curso perene do tempo;

o espaço é tão aberto às coisas

por todos os lados, livre e inesgotável vazio.

A própria natureza por fim provê

que o mundo não tenha limites: obriga

os corpos a ficarem envoltos pelo vazio

e o vazio pelos corpos: de modo que por esta

alternância de vazio e matéria,

por estas duas coisas seja o todo infinito:

e mesmo que uma não fosse limite para a outra,

a outra sozinha seria infinita.

3. Os infinitos mundos nos infinitos espaços

Se fora destes amplos muros do mundo se estende o espaço

a mente quer alçar-se para ver

e naquele vazio o meu ânimo peregrinar.

Ao meu redor não tenho limite nenhum:

é imensa a natureza do vazio,

é indubitável esta profundidade luminosa.

Aqui onde em longo vazio suspensos voam átomos

não há lugar para crer que apenas a terra

e apenas estes arcos celestes se tenham formado:

além de nós não tem repouso a matéria criadora.

E tanto mais se penso que o mundo terrestre

a natureza o fez por acaso,

que os átomos se chocaram por acaso

e depois de muita e vã violência

finalmente conseguiram se estreitar

e lançar nos úteros do vazio o exórdio do universo.

Existem alhures dispersas outras massas de átomos

como esta que o éter cobre com ciumenta vigilância.

Não é maravilha que onde

a matéria está pronta, onde está aberto o espaço

aí novas coisas se formem.

Se tal é o número dos núcleos criadores

que toda a era dos vivos não basta para contar,

se a própria força permanece que possa

os mesmos elementos reunir em todo lugar

do modo como os reuniu aqui, é certo

que alhures existem outras terras e outros mares,

existem outras formas de animais e de homens.

No conjunto de todas as coisas

não pode existir apenas uma que, sozinha,

tenha sido gerada, que parte não seja de uma espécie

e de uma ordem: assim como para as feras dos montes,

como por esta prole dos homens,

para as mudas famílias dos peixes,

para os corpos dos pássaros no vento.

Destas comparaçôes tu vês

que não são únicas as coisas que existem:

não é único o céu nem o sol nem o mar:

mas são infinitos em número, justamente porque está fixado

no fundo de todo ser um limite, justamente

porque tudo é formado para a morte.

E para todos os espaços

é o mesmo como aqui para as coisas terrenas.

4. O homem que não conhece o verdadeiro vive na angústia e sobre a terra está como nos infernos

Se os homens, assim como sentem o peso que os cansa,

ao menos pudessem de tanto mal descobrir a causa

teriam quem sabe vida melhor.

E assim os vemos

incertos não saber o que querem: vemo-los

procurar inquietos outros lugares,

um lugar diferente do costumeiro

onde possam depor aquele peso:

este, enjoado de seus aposentos, sai

de seu rico palácio e para aí retorna: viu

que fora não há nada melhor;

este outro impele os cavalos para a casa campestre,

açoita-os inclinados como para apagar os tetos

das chamas, e já à porta boceja:

desce ao sono e o pesado afã interrompe

ou volta para a cidade e as costumeiras estradas revê.

Cada um gostaria de se destacar de si e fugir para longe,

mas não consegue; ao contrário, sempre mais a si mesmo

constrangido se apega e ao mesmo tempo se odeia:

doente, não sabe como o mal lhe acontece,

não vê a causa do mal.

Lucrécio De rerum natura

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Roberto Girola
https://robertogirola.com.br
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