Inside Job: quando o aquário fica poluído

Inside Job: quando o aquário fica poluído

Anos atrás resolvi montar um lindo aquário. Tudo correu bem até o dia em que comprei um maravilhoso peixe azul, fascinado pela beleza de suas formas e a harmonia de suas cores. Sabendo que me ausentaria alguns dias, deixei a água limpa e comida suficiente para todos os peixes. Qual não foi a surpresa, na volta, ao perceber que o peixe azul tinha devorado os demais peixes. Os restos do banquete eram tão insignificantes que desapareceram entre as pedras do fundo. Pouco tempo depois a água começou a ficar turva e o peixe azul, último sobrevivente, morreu. Deduzi que a água tinha sido contaminada pelos restos dos peixes devorados que eu não retirrei do aquário.

Lembrei-me deste episódio ao assistir o filme Inside Job (Trabalho interno), um documentário que relata os fatos que precederam, acompanharam e sucederam a grave crise financeira de 2008. Altos executivos, diretores de bancos, agentes financeiros, membros do governo americano e até professores de conceituadas universidades americanas agiram como o meu peixe azul, devorando sem piedade o dinheiro dos desavisados investidores que resolveram confiar nos produtos que eles ofereciam no mercado financeiro, com a promessa de altos lucros.

O esquema foi montado envolvendo lobbies junto ao governo americano para desregulamentar o mercado financeiro, permitindo que seus agentes pudessem agir sem qualquer controle. Desta forma o dinheiro dos investidores pôde ser predado de forma insana, causando prejuízos bilionários não somente aos que compraram os produtos oferecidos, mas aos próprios bancos e seguradoras que apostavam investindo contra os próprios produtos que vendiam e segurando as apostas, tudo isso foi feito com a conivência das agências que davam nota máxima aos produtos recomendando sua compra e com a anuência de renomados professores de Harvard e da Columbia University que escreviam livros e artigos garantindo que tudo estava indo às mil maravilhas.

Certo dia o mundo acordou e viu que os peixinhos tinham sido devorados pelos peixes azuis: dezenas de milhões de pessoas no mundo inteiro perderam suas casas hipotecadas, as poupanças de uma vida inteira (fundos de pensão foram envolvidos) e seus empregos (empresas de renome foram á falência e tiveram que ser salvas com dinheiro público, enquanto outras sobreviveram reduzindo sumariamente suas atividades).

Os danos em escala mundial foram incalculáveis, atingindo praticamente todos os continentes e causando um colapso substancial á economia mundial que até hoje está pagando o preço dos absurdos cometidos por executivos inescrupulosos que ganharam rios de dinheiros com seus bônus milionários.

O curioso é que os peixes azuis não morreram. Apesar da água turva, eles continuam vivos, ricos e impunes, alguns deles ainda fazem parte do governo montado pelo atual presidente Obama. CEOs que causaram danos de bilhões de dólares aos bancos que dirigiam foram afastados, mas com direito a indenizações milionárias.

Chama a atenção no filme a maneira totalmente alucinada como essas pessoas agem. Nas entrevistas demonstram uma total indiferença com o cenário que causaram, alegando que o que eles fizeram é legal, mas difícil de entender porque o mundo das finanças é complicado. O pior é que isso foi endossado pela sociedade americana, já que praticamente ninguém foi indiciado judicialmente e punido. Ninguém (talvez com uma única exceção) foi para a cadeia.

Não quero ser um profeta de desventuras, mas é difícil pensar que as águas turvas não anunciam uma tragédia iminente,. Neste caso nem os peixes azuis vão sobreviver. A atual crise que está se aproximando, pondo novamente em questão o cenário econômico internacional, talvez seja mais um sinal disso.

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Roberto Girola
https://robertogirola.com.br
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