Roberto Girola - Psicanalista e terapeuta familiar

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Artigos em destaque

A busca do Uno e a sombra da fragmentação

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Uma das experiências psíquicas mais dolorosas e a sensação interna de fragmentação, de estilhaçamento e de desintegração. Embora essa experiência possa se tornar patológica, caracterizando um estado psíquico borderline, depressão profunda e melancolia crônica, de certa forma é um estado permanente e, portanto, “normal” da dinâmica mental.

Desde o Projeto para uma psicologia científica, no qual Freud faz sua primeira tentativa (sucessivamente abortada) de descrever o funcionamento mental com base em uma interessante descrição dos fluxos neuronais (o pai da psicanálise era neurologista), até seus últimos escritos, assistimos a uma procura voltada a resolver o paradoxo de uma mente que aspira à unificação e que, ao mesmo tempo, está profundamente atravessada pela divisão interna entre instâncias conflitantes.

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Uma ilusão sem futuro

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No seu famoso texto escrito em 1927 O futuro de uma ilusão, Freud contempla um ser humano que vive à mercê de sua natureza atravessada por poderosas forças instintivas que o levam a viver tendencialmente de forma predatória em relação à natureza e aos seus semelhantes. A cultura de forma geral e a religião de forma mais específica teriam assim a função de inibir essas forças destrutivas do instinto (pulsões). Neste sentido a cultura é vista como uma experiência que de alguma forma inibe a natural tendência do ser humano a ser dominado por seus instintos agressivos e sexuais; ela tem portanto uma função civilizatória: “Parece mais provável que cada cultura deve ser construída em cima de (...) coerção e renúncia ao instinto".

Analisando o sentimento religioso, Freud, que se proclamava ateu, o situa na tentativa que o ser humano faz, atendendo às suas necessidades inconscientes, de encontrar uma figura reconfortante de Pai protetor todo-poderoso e de superar as suas angústias ligadas à percepção da finitude da vida humana. A religião seria portanto uma poderosa forma de projetar o futuro de uma vida além da morte e de superar a própria finitude angustiante e irreversível significada pela própria morte.

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Covid-19: repensando o humano

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Um vírus misterioso surge na China e obriga o mundo a rever seu modo de viver, repensando o convívio doméstico, social, a economia e a política. Parece o teaser de um filme catástrofe de Hollyvood, mas é realidade. Em menos de uma semana as sessões de terapia com os meus pacientes tiveram como tema dominante o “imponderável” se impondo e deixando o mundo de cada um de cabeça para baixo.

Duas atitudes patológicas emergem de forma bastante clara nas reações das pessoas e sobretudo nas mídias sociais: paranoia e negação. A máxima aristotélica in médio stat virtus (a virtude está no meio) nunca foi tão apropriada. Vale a pena lembrar que virtus em latim significa não apenas um atributo ético e sim também “força/potência”.

Se a paranoia está levando alguns a saquear os supermercados (aliás é particularmente interessante para a psicanálise essa preferência pelo papel higiênico), dominados pelo medo do desabastecimento, outros inspirados nas  teorias olavistas do nosso presidente, insistem em dizer que estamos apenas vivendo uma gripezinha que logo passará.

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Os falsos messias

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Em uma época de incertezas e tensões é historicamente comprovada a tendência ao surgimento dos movimentos messiânicos. Com essa expressão quero me referir a movimentos políticos, sociais e religiosos que se dizem portadores de uma missão salvadora em relação à humanidade.

Na contramão das tendências pós-modernas que puseram em xeque todas as tentativas de manter uma referência às “grandes narrativas” (verdades consagradas por narrativas de caráter religioso, filosófico ou ideológico), levando a uma pulverização da Verdade em “verdades” que logo se revelam “fakes” (algo que remete ao mundo líquido de Bauman), surge a necessidade que alguém nos diga com voz firme e autoritária qual é a “Verdade”. Afinal é muito duro viver sem uma verdade no bolso.

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A ausência do outro

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No primeiro capítulo do seu livro “A agonia de Eros” Byung-Chul Han associa melancolia, depressão, narcisismo e ausência do Outro. É importante ressaltar o lugar que ele atribui ao outro, por ele entendido como alguém que pode nos surpreender a partir de um lugar inesperado, imprevisível, que ele denomina atópico, literariamente um lugar sem lugar... Creio que nesse termo está a intuição mais profunda do autor.

O outro atópico, parece remeter de alguma forma ao grande Outro de Lacan. Indicando uma contraposição absoluta entre o Eu/Sujeito e o Outro. Um lugar onde o outro aparece como o “totalmente outro”. O texto do filósofo coreano nos desafia: para ser investido pelo amor erótico o outro precisa ocupar esse lugar, a partir do qual nos surpreende e nos seduz com sua alteridade. Na ausência da experiência da alteridade nesse sentido radical temos a agonia de Eros e o império opressor do narcisismo.

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Saber escutar: uma arte que cura, um desafio

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Como se estivéssemos em uma floresta repleta de pássaros enlouquecidos, os “tuites” se impõem, roubam nossa atenção e se tornam uma forma de comunicação comum. Nas mídias sociais, de forma geral, estas “tuitadas” dominam a cena. Uma plêiade de sons desconexos toma conta de nós... O silêncio da escuta é banido, pelo imperativo do "tuite".

A sensação é que o nosso "tuitar” é tão inútil quanto aquele dos outros e, no meio desse concerto desarticulado e caótico, nos sentimos impotentes e solitários. Alguns desistem e se retraem, outros partem para o grito e a agressão.

Uma das características mais importantes da técnica psicanalítica foi aquilo que se costuma denominar de “escuta flutuante”. Na realidade acredito que aprender esse tipo de escuta seja o desafio mais importante para o psicanalista. Saber usá-la na sessão se torna um dos meios mais poderosos para o êxito da terapia. Como resultado o próprio paciente acaba por experimentar esse tipo de escuta e, dessa forma, aprende a se “conectar” com o seu mundo interno e com o mundo externo.

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Psicanálise e sociedade do cansaço

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No seu livro A sociedade do cansaço o filósofo coreano Byung-Chul Han, ao descrever as características da sociedade pós-moderna do desempenho, contraposta ao projeto moderno da sociedade disciplinar, questiona os pressupostos da psicanálise freudiana ortodoxa que se constrói em torno das questões ligadas à repressão do desejo.

Se o que caracterizava a sociedade disciplinar era o domínio de estruturas de caráter superegóico que visavam disciplinar o desejo, colocando sempre o sujeito diante do desafio de lidar com as imposições do mundo externo, desafio que Freud aponta no seu memorável texto “O mal-estar da civilização”, a sociedade do desempenho traz essas imposições para dentro do indivíduo pós-moderno que se vê auto desafiado para “dar conta” de aspirações que ele mesmo se impõe como projeto de vida, no contexto das exigências da sociedade de consumo neoliberal, que cria seus próprios padrões de sucesso, bem-estar, qualidade de vida e realização pessoal.

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A mulher, um mistério?

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Muitos homens casados ou em um relacionamento estável acabam se queixando de que não entendem como funcionam as mulheres. O pior é que as mulheres, por sua vez, acabam admitindo que elas mesmas às vezes não se entendem. Ao que podemos atribuir essa dificuldade? Não pretendo aqui resolver esse mistério, mas quem sabe o artigo possa oferecer algumas pistas para homens e mulheres entender melhor os problemas que os afligem na relação amorosa e na compreensão de si mesmos e do par.

Duas premissas podem nos dar alguma luz. O próprio Freud, após esboçar sua teoria sobre a sexualidade feminina e atrair sobre si as críticas do movimento feminista, acabou admitindo sua dificuldade de penetrar os mistérios do desejo feminino.

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Importância da função paterna

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Não há dúvidas de que a função paterna está em crise. Vários autores abordaram esse fenômeno sob diferentes perspectivas, desde o mundo líquido de Bauman, até o gozar a qualquer preço de Melman, e, de forma indireta o fenômeno aparece nos pressupostos do pensamento fraco dos filósofos italianos Vattimo (discípulo de Gadamer) e Rovatti, na esteira do pensamento pós-moderno. Trata-se na realidade de um fenômeno observável não apenas no âmbito da dinâmica familiar, mas também na sociedade como um todo, se atrelarmos à essa função os conceitos de lei, de autoridade. de racionalidade e de poder.

 Por estar tradicionalmente ligada à figura masculina, a função paterna também depende da forma como os elementos masculinos e femininos são percebidos e vivenciados, servindo de base para as identificações, a definição dos papeis e a definição das questões de gênero.

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A falta do "pai"

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Gostaria de propor uma reflexão que surgiu de uma conversa com amigos e de uma entrevista com a filósofa e psicanalista Kristeva publicada por um jornal italiano. A conversa verteu sobre um convidado de Luciano Hulk (ele também se apresentou como psicanalista) que no programa afirmou acreditar mais nos valores da monarquia parlamentar do que da democracia. Um rei de fato representaria a nação e daria uma “identidade” aos cidadãos, enquanto um presidente, chefe de governo, é na sua opinião uma figura menos consistente, fluida, na qual, na melhor das hipóteses, só se identificam os que o elegeram.

Nunca fui monarquista, mas confesso que o argumento me fez refletir. Kristeva, analisando as últimas manifestações dos jalecos amarelos na França e a crise de identidade pela qual passa a Europa, comentou algo, que a meu ver dá continuidade a esse argumento, criando um estranho cruzamento de falas, vindas de lugares bem diferentes.

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Eu + Eu = -Eu

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No contato com os meus pacientes percebo que as mudanças que o mundo nos apresenta trazem um grau elevado de angústia e perguntas que não se calam. O ser humano está se tornando mais egoísta? Estamos a caminho de uma nova era de barbárie? O que estamos vivendo é algo novo ou sempre foi assim? Afinal o que caracteriza o ser humano, como tal?

A visão que Freud apresenta em O mal-estar da civilização é aquela de um sujeito que vive às voltas com os instintos que brotam do seu inconsciente, tentando dominá-los pela pressão que ele sofre pelos processos civilizatórios, que lhe impõem suas leis e suas exigências, procurando barrar a força do seu desejo.

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Psicólogo, psiquiatra, psicanalista: quem escolher?

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Frequentemente quando alguém procura algum tipo de ajuda terapêutica fica em dúvida. Quem devo procurar? Aqui vão alguns esclarecimentos para orientar a escolha do profissional certo. A escolha do profissional vai depender daquilo que cada um busca, mas para isso é necessário entender o que cada profissional oferece e sua orientação.

O psiquiatra é um médico, cuja especialização visa o atendimento de pacientes que apresentam problemas psíquicos e que buscam uma abordagem medicamentosa (somente o psiquiatra pode receitar remédio, nem o psicólogo e nem o psicanalista são habilitados para isso). Muitos psiquiatras também são especializados em algum tipo de abordagem de caráter psicológico e oferecem acompanhamento terapêutico ou trabalham em parceria com profissionais com orientação psicanalítica, cognitivo/comportamental, etc.. Por ser médico o psiquiatra tem um registro no CRM (Conselho Regional de Medicina).

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