Roberto Girola

Roberto Girola é psicanalista, filósofo e teólogo. Atuou por quase 20 anos no mundo editorial. Foi responsável pelo programa televisivo Terceiro Milênio, professor na área de Filosofia e Comunicação na FAAP e Anhembi Morumbi, atualmente ensina no Centro de Estudos Psicanalíticos. É autor de A psicanálise cura? e Perguntas a um psicanalista.

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Diante do atual projeto tramitando no Senado brasileiro sobre a formação do psicanalista, gostarian de retomar algumas considerações do fundador da psicanálise, extraídas do texto A questão da análise leiga (1926).

O contexto são as polêmicas levantadas dentro e fora dos círculos analíticos pela acusação de charlatanismo contra um aluno de Freud, Theodor Reik, sucessivamente absolvido pelo tribunal de Viena. O contexto histórico coincide com a ascensão do nazismo na Áustria e com o acirrar-se do clima persecutório, magistralmente retratado no filme Tabacaria.

Freud deixa a questão em aberto:

”Terão de ser lançadas condições sob as quais a prática da análise será permitida a todos aqueles que procurem dela fazer uso, terá de ser estabelecida uma autoridade da qual se possa aprender o que é a análise e que espécie de preparo se faz necessário para isso, e as possibilidades de instrução em análise terão de ser estimuladas.” (p. 229).

No Pós-escrito (1927), Freud expressa de forma sintética sua opinião sobre a formação do psicanalista, afirmando que um esquema ainda deve ser criado (cf. p. 242). Contudo arrisca algumas orientações sobre um currículo básico de formação, admitindo tratar-se de um ideal ainda não concretizado:

“Deve ele abranger elementos das ciências mentais, da psicologia, da história e do estudo da evolução.” (p. 242).

Na busca de perseguir esse ideal, os caminhos de formação de um analista hoje são variados: cursos universitários de pós-graduação, Institutos de formação e as “Sociedades”, passando pela exigência fundamental de uma cuidadosa análise pessoal e da supervisão, ponto esse que constitui no âmbito da tradição psicanalítica uma exigência incontestável. Para Freud de fato é essencial que o analista tenha tido uma experiência pessoal de “contato” com o seu inconsciente para poder lidar com o inconsciente dos outros.

O fato que, quase um século depois dessa formulação idealizada de Freud, tenhamos caminhos de formação variados aponta para algo implícito na hermenêutica da psicanálise, algo que a torna uma ciência paradoxal: trata-se de fato de um saber centrado nos processos psíquicos inconscientes. O que isso significa?

Para Baudrillard (J. BAUDRILLARD, A troca simbólica e a morte. São Paulo: Loyola, 1996) “(...) a Psicanálise fez estremecer a relação significante significado” questionando portanto as demais abordagens hermenêuticas.

Na perspectiva psicanalítica,

“o significante, em vez de manifestar o significado em sua presença, está numa relação inversa com ele: ele o significa em sua ausência, em sua repressão, de acordo com uma negatividade que jamais aparece na economia linguística.” (BAUDRILLARD, p. 281).

 Neste sentido, para a psicanálise o significante manifesta paradoxalmente a ausência do objeto perdido e o substitui.

Para esse autor, “A equivalência linguística se perde porque o significante está no lugar de outra coisa que já não existe ou que nunca existiu” (p. 282). No entanto, na esteira dessa constatação o próprio Baudrillard observa que, se por um lado a simbolização, assim como é percebida pela Psicanálise, introduz um elemento subversivo ligado aos processos primários do inconsciente, que perturba a “ordem do discurso” (para usar a expressão de Foucault), por outro lado ela volta a recuperá-la, mediante a “razão analítica”, sob a jurisdição da interpretação (cf. p. 291). Isto porque, na opinião de Baudrillard, o “pensamento ocidental não suporta e, no fundo nunca suportou, o vazio da significação, o não-lugar, o não-valor” (p. 291). 

Podemos associar esta afirmação com a dificuldade de pensar” o impensado, que Bion apontava no seu ensaio “Turbulência emocional” (W. R. BION. “Turbulência emocional”. In Revista Brasileira Psicanalítica, 21 (121), 1987):

“Se é verdade que o ser humano como a natureza, abomina o vácuo, não consegue tolerar o espaço vazio, então ele vai tentar preenchê-lo encontrando alguma coisa que entre naquele espaço que foi revelado pela sua ignorância. A intolerância de frustração, o desgosto de ser ignorante, o desgosto de ter um espaço que não é preenchido, pode estimular um desejo precoce e prematuro de preencher o espaço” (p. 129).

O próprio Bion admite que a Psicanálise pode, neste sentido, se tornar uma “espécie de elaboração do tipo tapa-buracos”. Esta é uma dificuldade que constantemente desafia o analista quando esquece de se manter naquilo que Freud descreveu como “escuta flutuante” numa atitude de neutralidade e abstinência do próprio desejo.

Freud alude no texto citado a uma autoridade, capaz de validar a formação do psicanalista. Depois de mais de 100 anos, a transmissão da psicanálise permanece ligada a instituições de diferentes tipos, muitas delas ligadas à organismos internacionais, chamados de “Sociedades” ou Associações como a IPA ou Institutos de formação. A sua presença no mundo acadêmico se dá unicamente através de cursos de pós-graduação, a maioria deles ministrados por membros dessas associações.

Para frisar ainda mais o quanto o saber psicanalítico seja peculiar, devemos reconhecer que muitos dos nomes hoje estudados como autores que deram importantes contribuições à Psicanálise foram “expulsos” dessas sociedades e passaram a trilhar caminhos próprios, trazendo com isso importantes “ressalvas” ao saber psicanalítico estabelecido. Poderíamos defini-los; como alguém já fez; os autores “malditos” da psicanálise, tais como Ferenczi, Jung, e o próprio Lacan, só para citar alguns.

Podemos observar a partir dessa variedade de caminhos um certo caráter anárquico da psicanálise que aponta para a dificuldade de apontar para uma única autoridade que validaria de forma irrepreensível a formação do psicanalista. No entanto, apesar de existirem diferentes caminhos de formação, permanece aquilo que se denomina o tripé freudiano já mencionado, ou seja, a formação do psicanalista transita por três aspectos fundamentais: sua análise pessoal conduzida por um analista qualificado e competente, o conhecimento teórico e o acompanhamento de um supervisor sobretudo no início da carreira.

Seria o supervisor um representante dessa autoridade? Como isso se concilia com a característica de desconstrução que é própria do discurso analítico por ser um discurso ligado ao reprimido? Como o supervisor e o(s) supervisionado(s) se relacionam com o seu próprio reprimido? Quais as interações que se estabelecem no “campo” das relações inconscientes entre supervisor e supervisionando? Como se articula a “escuta do supervisor” e sua intervenção no processo de supervisão?

O caráter subversivo da psicanálise nos remete ao texto de Foucault, A ordem do discurso (São Paulo: Ed. Loyola) e a uma das características da sua transmissão na figura do supervisor e da supervisão, como um lugar onde se dá a transmissão de um discurso.

A aula inaugural de Foucault como catefrático do Collège de France o obriga a pronunciar um discurso na percepção de que, ao proferi-lo, ele irá ocupar um lugar de poder que ele sempre questionou.

“Eu não queria entrar nessa ordem arriscada do discurso” (p. 7) ele diz. Mas o que há de tão perigoso na apropriação de um discurso?

“(...) em toda sociedade [inclusive as psicanalíticas, n. d. a.] a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certo número de procedimentos que têm por função conjurar seus poderes e perigos, dominar seu acontecimento aleatório, esquivar sua pesada e temível materialidade” (p. 9).

Para Foucault as necessidades implícitas na ordem do discurso são a exclusão e a interdição.

A interdição para Foucault se articula em torno do tabu do objeto, do ritual da circunstância e do direito privilegiado e exclusivo do sujeito que fala. Para Foucault isto é particularmente verdadeiro quando o discurso se refere às regiões escorregadias da sexualidade e da política. É inútil dizer o quanto isso se aplique de forma especial à psicanálise.

“(...) o discurso – como a psicanálise nos mostrou – não é simplesmente aquilo que manifesta (ou oculta) o desejo, é, também, aquilo que é objeto de desejo” (p. 10), “o discurso não é apenas aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo por que, pelo que se luta, o poder do qual nos queremos apoderar”.

Ao supor a possibilidade de uma teoria que possa dar conta da articulação do acaso com o pensamento, como deveria ser a teoria psicanalítica, qualquer discurso se depara com a necessidade de lidar com três elementos que também aparecem na supervisão, o acaso, o descontínuo e a materialidade (cf. p. 59).

Isso permite, ao supervisor e ao supervisionando, poderem se surpreender com a escuta de algo que é sempre novo e não aprisionável na rigidez de uma teoria psicanalítica, o que nos leva à experiência da escuta flutuante, que tenta suspender a memória e o desejo (cf. Bion), tentando ser neutra e abstinente.

Um aspecto importante da supervisão, comum tanto nas supervisões em grupo como no par supervisor-supervisionando, é a experiência do campo analítico como um espaço psíquico, o terceiro analítico, que se dá no “entre”. Kaës no seu livro A polifonia do sonho (Ideias 7 Letras, Aparecida, 2006), retomando uma tese de Anzieu, afirma que o grupo é ele mesmo um espaço onírico. Para Kaës existe uma textura onírica no vínculo intersubjetivo, textura que possibilita em análise a escuta flutuante, como uma representação em vigília da atividade onírica. Como afirma Anzieu, o grupo é uma entidade psíquica específica.

Vou concluir com alguns insights de Bollas sobre o par analítico que mostram a complexidade do trabalho do supervisor, chamado a adentrar um campo de experiência psíquica que é único e subjetivo e que opera “entre” o analista e o analisando: um tipo de intimidade que se dá no plano do self de ambos:

“(...) o caráter particular de uma pessoa afeta o outro como um idioma de apresentação. Então há o conhecimento do conteúdo e posso descrever o que o meu paciente diz ao descrever-me um sonho. No entanto não posso descrever o idioma ou o estilo de apresentação. Eu teria que ter estado lá e experienciado pessoalmente, visto que este conhecimento é em geral impensável e irrepresentável” (The place of the psychoanalyst, p. 26).

Ao falar sobre associação livre e escuta flutuante, Bollas se refaz à essência da técnica freudiana:

“O método da escuta inovador, desenvolvido por Freud, honra essa complexidade [da comunicação inconsciente] e encoraja o analista a conhecer o analisando em uma área intermediária na qual compartilham algo no mesmo estado de espírito” (A questão infinita, p. 20).

Se o analista é chamado a se abandonar à escuta flutuante, o supervisor deverá alcançar o supervisionando nessa mesma dimensão:

“A experiência logo mostrou que a atitude à qual o método analítico poderia adotar mais vantajosamente era entregar-se à sua própria atividade mental inconsciente, em um estado de atenção uniformemente suspensa (...) [e com isso] captar o movimento do inconsciente do paciente com seu próprio inconsciente” (Freud, “Uma breve descrição da psicanálise”, Vol XIX).

Qualquer tentativa de regulamentar”(ou controlar) o exercício da psicanálise e a formação do analista se mostram portanto incompatíveis com o objeto da psicanálise eincoerentes com a sua tradição viva.

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