Roberto Girola - Psicanalista e terapeuta familiar

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Artigos em destaque

Psicanálise e sociedade do cansaço

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No seu livro A sociedade do cansaço o filósofo coreano Byung-Chul Han, ao descrever as características da sociedade pós-moderna do desempenho, contraposta ao projeto moderno da sociedade disciplinar, também questiona os pressupostos da psicanálise freudiana ortodoxa que se constrói em torno das questões ligadas à repressão do desejo.

Se o que caracterizava a sociedade disciplinar era o domínio de estruturas de caráter superegóico que visavam disciplinar o desejo, colocando sempre o sujeito diante do desafio de lidar com as imposições do mundo externo, desafio que Freud aponta no seu memorável texto “O mal-estar da civilização”, a sociedade do desempenho traz essas imposições para dentro do indivíduo pós-moderno que se vê auto desafiado para “dar conta” de aspirações que ele mesmo se impõe como projeto de vida, no contexto das exigências da sociedade de consumo neoliberal, que cria seus próprios padrões de sucesso, bem-estar, qualidade de vida e realização pessoal.

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A mulher, um mistério?

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Muitos homens casados ou em um relacionamento estável acabam se queixando de que não entendem como funcionam as mulheres. O pior é que as mulheres, por sua vez, acabam admitindo que elas mesmas às vezes não se entendem. Ao que podemos atribuir essa dificuldade? Não pretendo aqui resolver esse mistério, mas quem sabe o artigo possa oferecer algumas pistas para homens e mulheres entender melhor os problemas que os afligem na relação amorosa e na compreensão de si mesmos e do par.

Duas premissas podem nos dar alguma luz. O próprio Freud, após esboçar sua teoria sobre a sexualidade feminina e atrair sobre si as críticas do movimento feminista, acabou admitindo sua dificuldade de penetrar os mistérios do desejo feminino.

Ao abordar um tema tão controverso (o que não deixa de ser uma tentativa de construção de um discurso), é importante levar em conta o alerta de Michel Foucault sobre a produção do discurso (cf. A ordem do discurso), que nos impede qualquer ingenuidade. Todo discurso é controlado, selecionado, organizado e redistribuído com base em critérios de exclusão e de poder. Para Foucault “as regiões onde a grade é mais cerrada, onde os buracos negros se multiplicam, são as regiões da sexualidade e da política” (que aqui entre nós agora se misturaram).

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Importância da função paterna

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Não há dúvidas de que a função paterna está em crise. Vários autores abordaram esse fenômeno sob diferentes perspectivas, desde o mundo líquido de Bauman, até o gozar a qualquer preço de Melman, e, de forma indireta o fenômeno aparece nos pressupostos do pensamento fraco dos filósofos italianos Vattimo (discípulo de Gadamer) e Rovatti, na esteira do pensamento pós-moderno. Trata-se na realidade de um fenômeno observável não apenas no âmbito da dinâmica familiar, mas também na sociedade como um todo, se atrelarmos à essa função os conceitos de lei, de autoridade. de racionalidade e de poder.

 Por estar tradicionalmente ligada à figura masculina, a função paterna também depende da forma como os elementos masculinos e femininos são percebidos e vivenciados, servindo de base para as identificações, a definição dos papeis e a definição das questões de gênero.

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A falta do "pai"

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Gostaria de propor uma reflexão que surgiu de uma conversa com amigos e de uma entrevista com a filósofa e psicanalista Kristeva publicada por um jornal italiano. A conversa verteu sobre um convidado de Luciano Hulk (ele também se apresentou como psicanalista) que no programa afirmou acreditar mais nos valores da monarquia parlamentar do que da democracia. Um rei de fato representaria a nação e daria uma “identidade” aos cidadãos, enquanto um presidente, chefe de governo, é na sua opinião uma figura menos consistente, fluida, na qual, na melhor das hipóteses, só se identificam os que o elegeram.

Nunca fui monarquista, mas confesso que o argumento me fez refletir. Kristeva, analisando as últimas manifestações dos jalecos amarelos na França e a crise de identidade pela qual passa a Europa, comentou algo, que a meu ver dá continuidade a esse argumento, criando um estranho cruzamento de falas, vindas de lugares bem diferentes.

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Depois do furacão

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O último processo eleitoral foi marcado por profundos conflitos ideológicos que tomaram conta das redes sociais, das discussões entre amigos e colegas, chegando até a perturbar o convívio de numerosas famílias. O cenário de destruição parece aquele que caracteriza a passagem de um furação. É difícil avaliar se o estrago psíquico que essas discussões provocaram poderá com o tempo ser superado de forma a reconstruir tecidos de convivência severamente esgarçados.

Para achar o caminho da reconstrução do tecido social, é importante saber “escutar” o outro e perceber por que as feridas abertas foram tão significativas e por que razão as divergências foram tão irreconciliáveis e defendidas com tanta ênfase. Aliás esse continua sendo o problema das diferentes tendências que disputam espaço no cenário político do país, tanto as que ganharam as eleições como as que perderam. Os discursos continuam refletindo um grave senso de irresponsabilidade, falta de percepção da realidade e tendências esquizoides.

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Um olhar sobre o futuro

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Uma aspecto que caracteriza o nosso momento histórico é a dificuldade de defini cenários para o futuro. A pergunta: “Onde você se vê daqui a cinco anos?”, que já foi habitual nas entrevistas de empego e que definia a determinação do candidato e sua capacidade de planejar sua vida, hoje se tornou capciosa.

Um sinal dessa dificuldade de definir cenários para o futuro aparece no plano da cultura tanto nas publicações impressas, quanto na indústria cinematográfica. Sucessos de venda como Sapiens ou Homo Deus (quem os escreveu é Yuval Harari professor de História da universidade de Jerusalém), ou aquele de caráter ainda mais apocalíptico Para completar Clausewitz (Achéver Clausewitz) de René Girard, preconiza um futuro incerto para a humanidade e a possibilidade de sua autoextinção.

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Eu + Eu = -Eu

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No contato com os meus pacientes percebo que as mudanças que o mundo nos apresenta trazem um grau elevado de angústia e perguntas que não se calam. O ser humano está se tornando mais egoísta? Estamos a caminho de uma nova era de barbárie? O que estamos vivendo é algo novo ou sempre foi assim? Afinal o que caracteriza o ser humano, como tal?

A visão que Freud apresenta em O mal-estar da civilização é aquela de um sujeito que vive às voltas com os instintos que brotam do seu inconsciente, tentando dominá-los pela pressão que ele sofre pelos processos civilizatórios, que lhe impõem suas leis e suas exigências, procurando barrar a força do seu desejo.

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Psicólogo, psiquiatra, psicanalista: quem escolher?

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Frequentemente quando alguém procura algum tipo de ajuda terapêutica fica em dúvida. Quem devo procurar? Aqui vão alguns esclarecimentos para orientar a escolha do profissional certo. A escolha do profissional vai depender daquilo que cada um busca, mas para isso é necessário entender o que cada profissional oferece e sua orientação.

O psiquiatra é um médico, cuja especialização visa o atendimento de pacientes que apresentam problemas psíquicos e que buscam uma abordagem medicamentosa (somente o psiquiatra pode receitar remédio, nem o psicólogo e nem o psicanalista são habilitados para isso). Muitos psiquiatras também são especializados em algum tipo de abordagem de caráter psicológico e oferecem acompanhamento terapêutico ou trabalham em parceria com profissionais com orientação psicanalítica, cognitivo/comportamental, etc.. Por ser médico o psiquiatra tem um registro no CRM (Conselho Regional de Medicina).

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A bolha institucional: ditadura da perversão...

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Quando Freud descreveu as síndromes ligadas à perversão, chegou à conclusão que elas poderiam ser classificadas em um lugar intermediário entre a neurose e a psicose. É o que podemos constatar diante do comportamento perverso da maioria dos nossos políticos, de alguns empresários e de membros da magistratura. Para qualquer pessoa de bom senso fica bastante claro o afastamento da realidade dos que supostamente deveriam estar representando os interesses da nação. A política, a gestão de negócios bilionários e, às vezes, o próprio exercício do direito se tornaram práticas narcísicas, voltadas a garantir os interesses e a sobrevivência de uma bolha institucional, que parece flutuar no nada, totalmente desconectada do país que supostamente deveria representar e da realidade que deveria nortear suas decisões.

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Escuta e pensamento

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Estou cada vez mais convencido que a capacidade de pensar está estritamente relacionada à capacidade de escutar. Essa escuta do Outro é o que de fato introduz em nós a possibilidade de “desconstruir” o nosso pensamento; a escuta provoca de certa forma um colapso do já pensado, do que foi capturado em códigos rígidos e tranquilizadores, criados a partir do nosso mundo internoO processo de pensar, por ser um processo criativo, começa com o caos. A escuta proporciona esse caos, quando ela for vivida como uma radical suspensão do nosso discurso interno. Trata-se de um processo difícil, que exige coragem e treino, pois nos joga na angústia, ou, como dizia o psicanalista inglês Bion, na “turbulência emocional”.

Esse desnudamento diante do outro que é a escuta, exige a humildade de estar no lugar daquele que “não sabe”, do “ignorans”, do indigente de pensamento. A prática clínica exige essa forma de escuta, cada paciente é ”novo”, cada sessão é ”a primeira”, cada encontro é o encontro com o desconhecido.

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Crise, tristeza e possibilidade de criar

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A tristeza foi banida na sociedade do espetáculo. O que dá “audiência”, tanto nas redes sociais como na mídia, é a tragédia, a raiva ou então a euforia. A tristeza é um sentimento morno (termo cuja fonética curiosamente remete ào verbo inglês mourn que indica um estado profundo de tristeza, geralmente ligado ao luto). A tristeza não se impõe, não dá audiência, gera incômodo, remete à fragilidade humana.

Em um interessante artigo publicado pelo jornal espanhol El País sob o título “Na política, mesmo os crentes precisam ser ateus”, a jornalista Eliana Brum, se referindo à manifestação do dia 13 de março, observa: “a angústia, no Brasil de hoje, se dá também pela vontade de acreditar que algo é verdadeiro num cotidiano marcado por falsificações”. O artigo é um convite a “suportar essa angústia”, evitando os perigos da fé cega (neste caso fé partidária), que, além de favorecer uma perigosa e estéril polarização do cenário político, tem a finalidade de aliviar a angústia, evitar a tristeza e inibir o senso crítico, ou seja, o pensamento.

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