Identificação e identidade

(C) André Reis Girola

Parte I – Introdução

 Enquanto sujeitos, tomamos rumos diferentes um dos outros, de acordo com a singularidade e subjetividade de cada indivíduo inserido em uma cultura.

Durante nossa constituição e evolução, a partir de experiências vividas, assimilamos características ou propriedades daqueles que estão ao redor. Na medida em que nos apropriamos de algo ligado ao outro, nos transformamos e moldamos nossa personalidade.

O olhar do outro (que nos constitui), e nosso olhar para o outro, o relacionamento e a criação de vínculos entre as pessoas, parecem seguir uma lógica. Podemos dizer que haverá mais dificuldades de um palmeirense que acabou de conhecer um corintiano criar empatia (como se diria na linguagem cotidiana) com o mesmo. Isto não exclui a possibilidade de pagodeiros e roqueiros, gordos e magros, petistas e tucanos, criarem vínculos e se relacionarem harmoniosamente, tudo dependerá porém, de o que cada objeto representa para o sujeito em sua constituição, tanto no plano consciente, como (principalmente) no campo do inconsciente.

Ao falarmos do inconsciente, e como ele atua nas relações sociais e nas relações do sujeito com o mundo externo de forma geral, temos de abordar o conceito psicanalítico da identificação. Talvez uma das diferenciações entre a empatia ou mesmo afinidade tão usadas na linguagem cotidiana, com os processos identificatórios psicanalíticos, é que os primeiros fazem parte do racional ou consciente, enquanto o segundo faz parte do  inconsciente, do mais primitivo, do que vem antes, do que é forte, imperativo, e ao mesmo tempo desconhecido.

Quem nunca ouviu as seguintes frases, ou algo próximo de: “Não sei o que é, mas não consigo ir com a cara de fulano, é mais forte do que eu”, ou “Tento gostar de ciclano, mas realmente não consigo, algo nele mexe comigo”.

O que não é nominável, ou explicável neste caso não está no campo da lógica racional ou da consciência, mas dos processos identificatórios primários e inconscientes, os quais estão relacionados com a constituição do sujeito, e daí com o Complexo de Édipo.

Ao falar de afinidades, empatia e pontos de interesse em comum, estamos falando de algo que é consciente, mas que de alguma forma passa também pela identificação no campo inconsciente. Sou palmeirense e por isso não tenho afinidades com corintianos, isto é lógico e consciente, mas a minha escolha objetal pelo futebol e pelo Palmeiras deve ter relação com aspectos primários e inconscientes de identificação. Posso ter “escolhido” o Palmeiras para ser como meu pai, ou mesmo para me opor a este que poderia ser corintiano ou mesmo meu pai poderia nem gostar de futebol. As possibilidades são infinitas e particulares, dependendo de qual seria a colocação do indivíduo no campo subjetivo e na sua constituição como sujeito.

Minha opção por colocar aspas na palavra escolhido no parágrafo acima, explica-se justamente por não ser algo passível de controle ou vontade própria, pois trata-se de um processo inconsciente, portanto não é uma escolha deliberada com base racional, mas uma escolha por identificação inconsciente relacionada à posição subjetiva do sujeito no Édipo.

A escolha do tema  do presente trabalho sobre a identificação, não fugiria desta linha de raciocínio. Foi uma escolha consciente, mas afetada por aspectos identificatórios particulares, os quais seriam os mais primitivos e originais laços emocionais de um sujeito.

 Parte II – Identificação no contexto teórico psicanalítico

Para Freud, a identificação está fundada no complexo de Édipo, na medida em que o pai e a mãe, são objetos de ambivalência, de amor e rivalidade. A criança teria duas possibilidades, assumir uma posição ativa e tomar o lugar do pai para satisfazer suas fantasias amorosas com a mãe, ou uma posição passiva para tomar o lugar da mãe (no caso do menino). Ao constatar que as fantasias edipianas não serão satisfeitas ou efetivadas sem a realização da castração, a criança tem de sublimar as fantasias incestuosas, e os investimentos libidinais são substituídos por uma identificação. Para que isto ocorra, é necessário que haja uma separação entre uma relação sensual, que é recalcada, e uma relação afetuosa, que  permitirá a identificação. O superego então passa a ser uma instância identificada com as autoridades parentais, que são introjetadas no núcleo do mesmo.

Em sua teoria, Freud aborda diferentes modalidades de identificação, leva também em conta uma identificação que pode se opor àquela em que se baseia no enriquecimento ou constituição do ego ou de uma instância da personalidade. Seria como um processo inverso em que o objeto pode ser posto em um  “lugar” dos ideais do sujeito, perspectiva em que há um mestre e seus discípulos membros de um grupo.

Neste caso, o sujeito identifica o outro com sua própria pessoa, opondo-se ao primeiro caso em que a pessoa identifica sua própria pessoa com o outro. Apesar dos mecanismos serem opostos, podem coexistir formando um processo identificatório ainda mais complexo.

Há casos em que o objeto pode ser colocado em um “pedestal” e, de certa forma,  substituir os ideais de ego de um sujeito. Neste caso, a identificação pode ter sido substituída por uma idealização.

Do ponto de vista de uma conceitualização, enquanto identificado, o sujeito é capaz de investir em si, e também no objeto.  Já quando idealizado, somente o objeto é passível de investimento, enquanto o ego do indivíduo fica desinvestido e fraco.

Não são muito incomuns casos de pessoas que cresceram em ambientes adversos, em que não foram desejadas, investidas de afeto, apegarem-se fanaticamente a objetos externos, seja um grande ídolo ou mesmo uma instituição como a Igreja por exemplo, buscando uma reparação de uma grande ferida narcísica, ou mesmo de um estágio anterior, de investimento narcísico para uma constituição psíquica como sujeito.

Claro que não se pode restringir a um ou outro grupo de pessoas este modelo de identificação que evolui para um estágio de idealização em que o investimento em seu próprio ego se esvazia e vai todo para o objeto, afinal, o indivíduo “mais bem constituído” (se é que podemos classificar assim), também está sujeito a idealizar um objeto.  O que seria o apaixonado se não um sujeito esvaziado de libido, já que o objeto torna-se alvo de todo seu investimento libidinal.

Com a perda de um objeto de amor, que pode também ser a perda de um ideal, a energia que estaria ligada ao objeto amado deve ser restaurada para o ego. No trabalho do luto, o ego deve ser reinvestido narcisicamente, em um processo atemporal, longo, doloroso e gradual. A partir deste processo de reinvestimento narcísico, no que Freud coloca como sendo a passagem pelo luto normal, outro objeto poderá futuramente ser colocado como substituto do objeto de amor anteriormente perdido.

Ao perder um objeto de amor, há também a possibilidade de o ego introjetar para si o objeto perdido, por uma regressão à fase oral. Por uma identificação narcísica, o ego se modifica devorando o objeto, sendo este incapaz de reinvestir a libido do objeto amado perdido, daí a diferenciação entre o luto e a melancolia.

Neste caso a identificação está ligada à oralidade, voracidade, algo arcaico. O melancólico se identifica com o objeto e o introjeta, mas não é uma introjeção com o objeto total, e sim com a parte negra e sombria do objeto. O indivíduo se enxerga diminuído, se recrimina, tudo relativo ao mundo externo parece ser bom e incapaz de investimento, e tudo o que está introjetado em seu ego, em contraponto, é visto  como ruim e repugnante.

Mais uma vez o processo de identificação ocorre de forma inconsciente, e portanto, o melancólico não tem a consciência de que o que ele realmente odeia é  o objeto introjetado, e não seu próprio ego. Por isso pode-se dizer que o suicídio de um melancólico é um homicídio inconsciente.

Haveria aqui a possibilidade de desenvolver o assunto da identificação sob a ótica de outros pensadores da Psicanálise. Como a intenção deste trabalho não é esgotar a temática, o que seria uma pretensão ilusória, por ora me atenho sabendo que o estudo teórico da psicanálise é algo instigante e ao mesmo tempo infindável.

Parte III – Identidade produzida

              Trazendo o tema da identificação para um contexto atual em que as redes sociais passaram a ser um grande ator na relação entre as pessoas, penso em como ele está presente nas relações virtuais.

Atualmente, me arrisco a dizer que a internet pode funcionar como um grande medidor narcísico. O número de cliques, o número de seguidores, o número de curtidas, o número de acessos à página de um perfil, são postos como indicativos concretos e indiscutíveis do quão amado é um sujeito.

A sociedade superficializada e virtualizada , parece só fazer aumentar o grande vazio do sujeito, que é constantemente estimulado pelos meios de comunicação.  Insistentemente, e imperativamente vende-se a ideia de que o vazio pode ser preenchido, ou comprado.

As curtidas, os seguidores, o número de cliques e amigos virtuais passam a ser uma das formas de alcançar este meta de ideal preenchido. E é aí que a identificação torna a ser o tema central. Afinal, o que faria mais sucesso nas redes sociais seria um conteúdo com o qual o maior número de pessoas se identificasse. A página com o perfil do sujeito, substitui sua personalidade, e a internet então passa a ser um mundo para criação de vínculos virtuais infinitos, em que o sujeito se identifica e tem o desejo narcísico de que o maior número de pessoas se identifiquem consigo, de preferência milhares de pessoas, afinal o mundo virtual não limita barreira, é um mundo infinito de possibilidades.

A página pessoal com seu perfil na internet passa a ser a personalidade do indivíduo. No mundo virtual, existe a possibilidade da criação de um perfil a bel prazer do sujeito, talvez ali esteja a personalidade com a qual gostaria que as pessoas se identificassem, revelando assim que não há um investimento em sua personalidade percebida como real.

As campanhas políticas também são tentativas de uma criação de um candidato ideal, capaz de atingir o maior número de membros de uma coletividade. O mestre deve conduzir a massa e ocupar a posição de ideal para esta, de forma que a identificação seja capaz de ligar o  maior número possível de membros de uma coletividade capaz de elegê-lo.

Não é à toa que hoje se usa com tanta frequência  a palavra produção. Produz-se um político, produz-se um jogador de futebol, ou um músico, e muitas vezes a essência da música é deixada de lado, o talento do jogador é sobreposto pelo corte de seu cabelo ou a cor de sua chuteira, e o conteúdo da proposta do político perde o valor em detrimento de como a mensagem será passada de forma a fazer com que seus eleitores se identifiquem com ele.

Importante seria identificar o público alvo para vender muito bem a embalagem do produto. Resta saber se o público alvo se identifica com o produto em sua essência e utilidade, ou com a embalagem fruto de uma produção.

Bibliografia

FREUD, Sigmund – Obras Completas – Ed. Imago Vol. XIV Sobre o Narcisismo: Uma Introdução (1914)

 FREUD, Sigmund – Obras Completas – Ed. Imago Vol XVIII Além do princípio do prazer, Psicologia de Grupo e outros trabalhos.

 LAPLANCHE, J.  e PONTALIS, J. B. – Vocabulário de Psicanálise, Ed. Martins Fontes (1992)

 ROUDINESCO, E. e PLON, M. – Dicionário de Psicanálise, Ed. Jorge Zahar Editor (1997)

 FREUD, Sigmund – Obras Completas – Ed. Imago Vol XIV A Historia do Movimento Psicanalitico, Artigos sobre a Metapsicologia e outros trabalhos

 BARANGER, W. GODSTEIN, N. e GOLDSTEIN R. – Trabalho publicado na revista de Psicoanalisis, Buenos Aires T.46, n.6

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