Sentimento oceânico e religião

Sentimento oceânico e religião – As vezes não creio em Deus, nem no demônio, nem no céu, nem no inferno, nem no pecado (…). O pior resultado disso é querer crer e não conseguir. Existe alguma maneira de se direcionar? (Anônimo)

Sentimento oceânico e religião

No fim de sua vida, sofrendo de câncer, Freud escreve alguns textos que abordam fenômenos sociais em sua expressão religiosa (O futuro de uma ilusão de 1927), e em sua dimensão cultural (O mal-estar da civilização de 1930).

Neste último texto, respondendo às objeções do amigo Romain Rolland ao seu ensaio sobre a religião, Freud descreve o que Rolland chama de sentimento oceânico e tenta associar a experiência religiosa a um fenômeno que tem sua raiz em um sentimento primitivo da psique.

Freud reconhece que existe no psiquismo uma experiência primitiva ligada ao fato que o ser humano nasce sem conseguir se diferenciar psiquicamente do ambiente, se sentindo um todo com o mundo externo. A memória da experiência do todo, estaria relacionada a esse sentimento primitivo, oceânico.

Assim como provavelmente Freud ao se declarar ateu queria manter distância de um Deus no qual não conseguia acreditar, muitas vezes a experiência religiosa em sua expressão mais profunda e verdadeira se depara com a necessidade de “perder” Deus, pelo menos esse deus antropomorfo, com o qual o crente estabelece uma relação imatura e regredida. O grito de abandono de Cristo na cruz não teria esse sentido?

Os grandes mestres espirituais, incluindo os cristãos, alertam para a necessidade de que a experiência religiosa passe por um processo ascético de “purificação”, que muito se assemelha com a “perda” de Deus. Bastaria mencionar as “noites” de São João da Cruz e a subida ao Monte Carmelo de Santa Teresa de Ávila.

Trata-se de um processo doloroso, que coloca a psique em contato com experiências contraditórias, que minam a “segurança” que a maioria das pessoas busca na religião.

Tudo isso remete à experiência que os cristãos celebram no Natal. Deus “deixa” sua “segurança”, sua “onipotência” para se manifestar como ser humano que, como todo bebê, nasce na insegurança, na dependência e que, embora seja a Palavra Criadora, somente se expressa em incompreensíveis balbucios.

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Roberto Girola
https://robertogirola.com.br
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