Espontaneidade, sem ela não há amizade

Espontaneidade, sem ela não há amizade
Vale a pena insistir na amizade quando o outro não se importa?

Espontaneidade, sem ela não há amizade

Tanto na amizade como no amor, para que possa existir uma relação, são necessárias duas pessoas. Se uma delas não está interessada, não há relação. Parece simples, no entanto assistimos constantemente a situações em que uma das partes não se conforma com o fato da relação não existir. Frequentemente há uma insistência inexplicável para tentar reverter uma situação que não pode ser revertida. Naturalmente isto envolve um desgaste muito grande por ambos os envolvidos.

Tanto a amizade como a relação amorosa supõe, para poder existir, a espontaneidade. Não é possível fingir que se ama alguém e nem que se é amigo de alguém. A relação sempre soará falsa e causará desentendimentos e decepção na parte que se acha empenhada em manter um vínculo que não existe, ou que se deteriorou, bem como raiva em quem se sente “obrigado” a fingir uma relação que não curte.

É frequente nas relações desse tipo que uma parte “cobre” atitudes ou manifestações de afeto que o outro não está em condições de sustentar. Se a outra parte tiver dificuldade em dizer não a coisa se complica e se cria uma falsa relação que pode durar por muito tempo, com um notável desgaste emocional de ambos os lados.

Chama a atenção, nesse tipo de situações, a necessidade de negar algo que parece ser claro para todos, menos para o interessado. De onde vem essa insistência? Por que existe uma capacidade interna da pessoa enganar a si mesma, se iludindo que uma amizade ou uma relação amorosa são possíveis, apesar dos sinais claros de que isto  não está acontecendo? Há nestes casos uma clara impossibilidade de aceitar os limites impostos pela realidade.

Nestes casos assistimos a um tipo de fechamento narcísico que impede à pessoa de enxergar o outro, que se vê capturado em uma rede de fantasias internas que o elegem como o amigo ou como a pessoa amada, sem que ele tenha dado reais motivos para essa escolha.

Não há dúvidas: é sempre mais fácil amar nossas fantasias do que pessoas reais, ou melhor, como diria a psicanálise, pessoas inteiras.  As fantasias, frutos do processo interno de idealização, criam de fato um objeto parcial (neste caso uma pessoa), ou seja, feito sob medida para atender às necessidades do mundo interno do seu criador.

 Por se tratar de um objeto interno, ele precisa encontrar no mundo externo um correspondente adequado. Alguns elementos inconscientes ajudam nesse sentido. A pessoa em quem são depositadas as fantasias inconscientes para que se torne o amigo, ou o amante ideal é escolhida tendo como pontos de partida elementos inconscientes. A voz, a maneira de andar, de gesticular, as feições do rosto, o biótipo, correspondentes a memórias ou representações inconscientes, são elementos que permitem que o processo de projeção entre em ação. Desta forma, sem saber o motivo, alguém acaba sendo escolhido como o objeto das projeções alheias envolvendo tanto a amizade, como o amor. Isto evidentemente não garante que ele seja de fato o amigo ou o amante que a mente criou e, muitas vezes, gera até a reação contrária, motivando o surgir da raiva e da agressividade, que levam a uma rejeição ainda mais explícita de quem o aprisionou em suas fantasias.

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Roberto Girola
https://robertogirola.com.br
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