Devemos prestar atenção aos sonhos?

Devemos prestar atenção aos sonhos?

Vejo no dia-a-dia que as pessoas dão muita importância àquilo que sonham. Escuto muita gente tentando interpretar o que sonharam. Conheço gente que até procura amigos para que estes tentem interpretar e dar alguma explicação. Se somos tão conscientes do que fazemos durante o dia no trabalho, na família ou na escola, como é que nossos sonhos, às vezes tão “malucos”, podem ajudar a explicar alguma coisa sobre nós? Será que estou subestimando demais o poder dos sonhos na nossa vida?
— Francisco, de São Paulo (SP)

 

Devemos prestar atenção nos sonhos?

 

O ser humano sempre foi fascinado pelos seus sonhos e buscou neles desde a antiguidade uma orientação para a sua vida. Tanto nas culturas politeístas de origem greco-romana e africana como naquelas dos povos indígenas americanos, a interpretação dos sonhos ficava a cargo de videntes, sacerdotes, sacerdotisas, magos, feiticeiros e pajés. Os sonhos eram freqüentemente vistos como uma mensagem vinda do além, enviada pelos deuses ou por espíritos que habitam o mundo das sombras ou dos mortos. Na própria tradição bíblica não faltam exemplos de interpretação de sonhos, como no caso da escada de Jacó, dos sonhos do faraó interpretados por José, do rei assírio, interpretados por Daniel e aquele de José avisando sobre a intenção de Herodes de matar o pequeno Jesus. Em alguns casos os sonhos bíblicos encerram uma mensagem ou uma admoestação divina, em outros casos avisam sobre algo que vai acontecer no futuro, de qualquer forma são sempre ligados a uma intervenção sobrenatural.

Foi somente no século XIX que se procurou uma explicação mais “científica” para os sonhos e para os fenômenos que os acompanhavam. Em 1900 apareceu uma das mais importantes obras sobre o assunto, a Interpretação dos sonhos de Sigmund Freud.  Para Freud, os sonhos são extremamente importantes e fazem parte de um mecanismo saudável do nosso psiquismo, que busca, através da atividade onírica (do sonho), uma forma de compensação. Quando estamos acordados, entram em ação na nossa mente mecanismos que a “defendem” de um contato direto com os conteúdos do inconsciente que seriam destrutivos, violentos e que poderiam nos enlouquecer.  Por outro lado, esses conteúdos inconscientes têm para nós uma extrema importância, pois representam o nosso mundo interno. O inconsciente de fato está por trás de todos nossos funcionamentos mentais  e influencia de maneira determinante nosso comportamento e as a nossa maneira de “sentir” o mundo e os outros. Isto se torna mais evidente quando nos deparamos com comportamentos ou sensações que irrompem sem uma aparente explicação em nossa vida ou naquela dos outros, no trabalho, na família, na escola, na vida amorosa, etc.

Se uma total alienação do nosso mundo inconsciente nos deixa à mercê dos funcionamentos neuróticos, um mergulho “desprotegido” no nosso mundo interno poderia nos aprisionar para sempre no labirinto de nossos núcleos psicóticos. Os sonhos têm a função de estabelecer um equilíbrio saudável, permitindo um acesso “protegido” ao nosso mundo inconsciente. Com muita habilidade, a nossa mente “representa” no sonho através de imagens e de memórias emocionais e sensitivas o que está se passando no nosso inconsciente. Existe contudo um “disfarce” que tem a função de “burlar” as defesas que, mesmo durante o sono ficam em estado de alerta, mas de forma muito mais branda que durante o tempo em que estamos acordados.  É justamente o disfarce que torna os sonhos enigmáticos e difíceis de serem interpretados.

Nas livrarias encontram-se até manuais e dicionários para facilitar a interpretação dos sonhos. Não creio contudo que essas publicações sejam de grande utilidade, pois, fora do contexto de uma análise e sem a ajuda de um profissional qualificado fica muito difícil interpretar os próprios sonhos, justamente por causa das defesas que a nossa consciência ergue e por causa do trabalho de disfarce que o inconsciente opera. Sem contar a tendência de “manipular” os sonhos, vendo neles premonições sobre o futuro, ou confirmações para a tomada de decisões.{jcomments on}

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Roberto Girola
https://robertogirola.com.br
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