Crise de passagem

Crise de passagem
Tenho um primo jovem de quase 20 anos. Ele sempre se queixa de que se sente sozinho, sem amigos. Namorou uma vez. Está buscando trabalho, porém logo fica desanimado quando não consegue uma oportunidade. Às vezes, fica até irritado. O quê posso dizer a ele?
– Maria Clara, de São Paulo

Crise de passagem

É difícil afirmar a partir das informações oferecidas em sua carta se o seu primo sofre de alguma disfunção psíquica ou se apenas está enfrentando uma crise devida aos novos desafios que a idade está trazendo.

No primeiro caso, a única solução seria consultar um profissional, no segundo caso as coisas tendem a se resolver sozinhas. De qualquer forma, determinadas crises marcam a passagem de um período da vida para o outro. Todo o longo período da adolescência é uma lenta preparação para a fase adulta.

A adolescência quando vivida de forma adequada proporciona um lento afastamento da infância e a aquisição da autonomia que permite ao(à) jovem se inserir no mundo. A “crise da infância perdida” se alastra de forma mais ou menos clara durante toda a adolescência e pode até ter manifestações mais intensas quando para o(a) jovem se torna evidente que a infância está definitivamente perdida.

A entrada no mundo do trabalho pode representar esse momento, pois é o momento em que o(a) jovem percebe que deixará de depender dos pais e que terá que prover sozinho ao seu sustento, bem como ao sustento de sua futura família.

Para alguns jovens esse momento traz uma sensação de melancolia. É como se algo muito valioso estivesse irremediavelmente perdido. Trata-se de uma sensação muito próxima do luto, pois há uma percepção de que algo está morrendo.

Mas o que exatamente está morrendo? Trata-se da sensação de segurança proporcionada pela dependência dos pais. Um mundo de afetos e de referências seguras parece estar definitivamente perdido. Nem sempre esse sentimento é claro para o(a) jovem. À vezes a esse sentimento se misturam também uma certa revolta contra os pais que o estão “abandonando” ao seu destino e um sentimento de raiva que paradoxalmente nasce da sensação oposta, ou seja do fato de se sentir ainda dependente deles.

Evidentemente, todos esses sentimentos contraditórios deixam o jovem confuso e com uma sensação interna de angústia, agravada pelas dificuldades externas, devidas a circunstâncias que não dependem dele. Basta pensar na dificuldade que o jovem hoje encontra para se inserir no mercado de trabalho. O salário oferecido é desencorajador e as exigências feitas para obter o cargo geralmente são desproporcionais. Tudo isso aumenta a sensação de impotência e de rejeição que o jovem sente nesse momento.

Por outro lado, esse é também o momento em que os(as) amigos(as) que constituíam a turma do(a) jovem começam a namorar, deixando portanto de lado os que ainda são “solteiros”. Tudo isso evidentemente aprofunda ainda mais a sensação de solidão e de abandono do jovem nessa fase da vida.

O fato de não estar com uma namorada pode também envolver a sensação de incapacidade, de inadequação e de inaptidão, aprofundada pela dificuldade de arranjar um emprego.

O que a família pode fazer nesse caso? Do ponto de vista prático não há muito que fazer, pois é importante que o(a) jovem viva esse momento e que o supere sozinho. O que porém é importante é que o(a) jovem se sinta apoiado e compreendido em sua angústia. Ou seja que ele possa viver sua angústia na presença de alguém solidário, que não o cobra e que procura compreendê-lo e acolhê-lo.

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Roberto Girola
https://robertogirola.com.br
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