Câncer: quando o terror se instala

Câncer: quando o terror se instala
Para aquelas pessoas que ficam alienadas por conta do câncer, sugiro abordar esse tema, pois vejo que muitos perdem a alegria, a autoestima e a esperança de viver quando estão nessa situação. (Maria Aparecida dos Santos – São Paulo -SP)

Câncer: quando o terror se instala

Apesar dos grandes avanços da medicina neste campo, o câncer ainda exerce um poder maléfico sobre o psiquismo. O diagnóstico “positivo” é recebido, na maioria dos casos, como uma condenação à morte. A sensação de “fim de linha” está profundamente associada ao câncer, mesmo quando o paciente sabe que existem possibilidades de cura.

Nos casos que pude acompanhar pessoalmente no meu consultório, percebi o quanto a sensação de morte invade o psiquismo quando a doença e detectada. Creio que seja possível associar esse fenômeno a pelo menos dois fatores.

O primeiro é de ordem simbólica e se aloja no imaginário coletivo. Bastaria pensar na quantidade de filmes, novelas, séries e livros abordando esse tema, todos relatando histórias muito tristes, cujo desfecho inexorável é a morte. No imaginário coletivo o câncer é ainda profundamente associado à ideia de “doença incurável”,

Por outro lado, em muitos casos, o aparecimento do câncer está associado a fatores psicossomáticos e em particular a síndromes depressivas, o que torna mais difícil que o paciente tenha reações “positivas” do tipo que a nossa leitora parece estar almejando.

Na maioria das vezes é extremamente difícil para a pessoa atingida pela doença não perder a autoestima, a esperança e a alegria. O pior que pode acontecer para o doente é quando, ao sofrimento interno, às dores e aos incômodos físicos associados à doença, se acrescenta a cobrança de algum bem-intencionado otimista de turno, insistindo para que ele “sinta” outra coisa daquela que ele sente.

Se quisermos realmente compreender a dor de quem sofre, a primeira regra é levar a sério seus sentimentos. Nunca devemos discutir um sentimento, pois o que cada um sente é o que é. Desvalorizar os sentimentos do outro, especialmente quando ele sofre, é uma grave forma de agressão e de violência para o psiquismo. Na realidade, por quanto nos esforcemos, nunca conseguiremos realmente nos colocar no lugar do outro. Existe uma solidão essencial do ser humano neste sentido.

A primeira coisa que um doente desse tipo precisa é ser ouvido. É poder viver sua dor na presença de alguém, capaz de suportá-la. O problema é que, por trás da pressa de tirar o outro da dor e do medo da morte, existe a nossa incapacidade de lidar com a dor, a frustração, a impotência e a morte, ou seja, com a turbulência emocional que tudo isso comporta.

“Stabat mater dolorosa…”, assim começa um antigo hino cristão latino, que se refere à imagem da “Pietà”, ou seja, da mãe de Jesus segurando seu filho morto no colo. Este stabat, literalmente traduzível como “estava”,  aponta para toda a força de um estar silencioso, contido, nem marcado pela desesperança, nem pelo otimismo eufórico, um estar ai que aponta para a suprema continência à qual somos chamados diante do mistério da dor.

O sofrimento sempre encerra um quê de misterioso. Não podemos banalizar a dor e o sofrimento, pois sempre apontam para a dimensão da tragédia e do mistério. Como diante de um sacrário, a melhor atitude, diante de quem sofre, é se calar, prontos para servir, caso o outro o solicite.

Do ponto de vista psicológico, é aconselhável que o doente de câncer tenha o acompanhamento profissional adequado de um psicólogo ou de um psicanalista. Alguns hospitais oferecem esse tipo de apoio, após as cirurgiãs, mas é aconselhável que o acompanhamento aconteça por mais tempo, para dar um suporte ao processo de luto do paciente diante da inevitável perda de sua vida anterior à doença e a adaptação à nova vida, ou à ideia da morte. Na França e em outros países existem centros especializados para o acompanhamento dos doentes terminais. Seria desejável que essa experiência pudesse ser implantada também no Brasil ao alcance de todas as camadas da população (cf. A morte íntima, Ed. Ideias & Letras)

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Roberto Girola
https://robertogirola.com.br
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