BBB: o fim de uma fórmula?

BBB: audiência em queda

 Estava lendo hoje essa notícia, divulgada em um dos maiores sites da Internet. Como não assisto ao programa, fiquei curioso de saber que ingrediente estaria faltando na décima primeira edição do BB brasileiro. Pelo visto os produtores capricharam na escolha da equipe, com a inclusão de situações que prometiam gerar bastante polêmica. Desta vez além de dois homossexuais, havia também um transexual operado, um homem que assumiu sua condição psíquica de mulher.

Não quero escrever mais um artigo criticando esse tipo de espetáculo. Apenas estou curioso, como psicanalista, de ler o que está por trás dessa queda de interesse por um dos programas que costumavam ser campeões de audiência.

A eliminação prematura do transexual, que provavelmente na intenção da equipe de produção devia ser um elemento para apimentar o espetáculo, parece apenas confirmar a condição de excluídos dos que vivem esse tipo de drama pessoal. Nem homens, nem mulheres foram solidários com Ariadna.  Talvez isso não surpreenda, sobretudo depois dela confessar ter se prostituído. Para os colegas e para o público não passava de uma “carta fora do baralho” que foi eliminada.  

Eis aqui uma primeira constatação curiosa quanto às preferências da audiência: pode haver “prostituição” (afinal o BBB é um vale tudo por dinheiro), desde que não seja declarada. Pelo visto, o público gosta de acreditar que tudo vale no amor, desde que aparente ser amor e ser sincero. Se um casal se envolve sexualmente, não há problemas, mesmo que na vida real ambos sejam comprometidos com outras pessoas, desde que consigam fazer o público acreditar que realmente se amam perdidamente. Encenar um namoro no BBB é na realidade, de acordo com os entendidos, uma ótima forma para sobreviver ao “paredão”. Parece que nenhum casal conseguiu de fato sobreviver mais de algumas semanas depois do fim do programa.

Esta primeira constatação nos leva para a segunda. O que torna o “reality show” diferente de qualquer outro espetáculo, é a presunção de que se trata de algo “real” e não de um espetáculo. O que é espetáculo no “reality show” é a “realidade”, aquilo está acontecendo de verdade. A partir do momento em que a estrutura do programa, suas regras e suas “ficções”, bem como a maneira fingida de agir dos personagens se manifestam, tirando a impressão de que estamos assistindo a algo “real”, o BBB se torna apenas mais um espetáculo de ficção, como qualquer outra novela, com personagens confinados e cenários geograficamente restritos.

O grande lance erótico do “reality show” é o voyeurismo. Assistir escondidos ao que os outros fazem (possivelmente de errado) é um tipo de gozo fetichista, em que o objeto do prazer é substituído por algo que remete a ele. Se a minha vida é chata e tão pouco interessante, pelo menos gozo ao assistir os outros fazendo algo diferente, algo excitante. Através dos personagens do “reality show”, o espectador vive de forma substituta o que ele não consegue viver em sua vida real esvaziada. É claro que isso vale também para outras formas de espetáculo, como novelas e cinema, ou até para a literatura, mas a suposição de realidade do “reality show” dá um gosto especial à situação.  Nisto está a sua força. No entanto, não é de se admirar que isto represente também um tremendo quebra-cabeças para os produtores. Como unir espetáculo e realidade, já que, na maioria das vezes, a realidade não é espetacular? É por causa disso que o BBB não deixa de ter uma produção como qualquer outro tipo de programa.

Há uma evidente necessidade de condimentar a realidade, para que possa se tornar um espetáculo, com a ajuda de alguns ingredientes que tornem o programa vendável para a audiência, apimentando alguns aspectos e amenizando outros. Na busca dessa receita mágica, algum ingrediente pode ficar em excesso e estragar o prato.{jcomments on}

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Roberto Girola
https://robertogirola.com.br
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