A sedução do consumo

A sedução do consumo
Procuro não comprar para minha filha, de sete anos, tudo o que entra na moda e explico que sou contra o consumismo. Mas tive uma surpresa: dias atrás, ela começou a aparecer em casa com uns brinquedinhos da moda (mais de um), e disse que havia ganhado. Ficou com um de “distribuiu” outros dois a amiguinhos. Soube logo em seguida que ela havia “subtraído” os brinquedos de colegas da escola e fiquei transtornada. O que pode estar por trás dessa atitude? Como devo agir? Marília, Rio de Raneiro (RJ)

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A sedução do consumo

A situação que sua carta relata é extremamente interessante, pois mostra que o consumismo não é apenas uma atitude “superficial” e sim algo muito mais profundo que age sobre o nosso inconsciente. Parece que sua filha foi vítima de algum tipo de compulsão, que a levou a “roubar” os brinquedos das amiguinhas. O vídeo acima ilustra com propriedade a relação entre a criança e os apelos ao consumo.

Podemos supor que existam pelo menos duas causas psíquicas da compulsão a consumir. Desde que acordamos, até deitarmos novamente, somos literalmente invadidos por uma série de mensagens que nos propõem algum tipo de “produto” a ser consumido. Somos obrigados a atravessar durante o dia uma verdadeira “feira” do desejo. Trata-se contudo do desejo dos outros, um desejo que nos é sugerido de forma sedutora pela voz macia de uma linda mulher, ou pelo sorriso cativante de um galã. Rádio, televisão, outdoors, painéis eletrônicos, folhetos, enfim uma infinidade de sugestivas mensagens sonoras e visuais nos acompanham, prometendo felicidade, sucesso, beleza, saúde, riqueza, etc.. No meio dessa selva de mensagens, fica extremamente difícil saber o que realmente queremos. É como se nosso desejo ficasse sufocado pelo bombardeio das propostas que veiculam o que “deveríamos desejar”.

Diante da “provocação” do ambiente externo podemos reagir de forma diferente, mas é extremamente difícil resistir às promessas que vinculam a algum “produto” a nossa felicidade, o nosso sucesso, bem como a consideração e a aceitação do meio em que vivemos. È como se a possibilidade de existir nos fosse dada por esses “produtos”, que perdem o seu significado puramente material, para adquirir um sentido mais profundo. Eles se tornam objetos poderosos que nos conferem algo que vai muito além da satisfação imediata de uma necessidade. É como se o produto adquirisse vida e se tornasse um deus poderoso capaz de conferir vida a quem o consome (fetiche).

Este “poder” do objeto de consumo nos remete a dois funcionamentos psíquicos que favorecem a adesão á sedução consumista. Num primeiro caso, temos pessoas que vivem uma situação extremamente dolorosa que as leva a não se sentirem existentes, a não ser que “algo” ou “alguém” externo lhes confira existência. Nesse caso, a psique desenvolve estruturas adaptativas ao ambiente que provêm da necessidade de evitar a sensação de rejeição e obter a aprovação do meio ao “aderir” às suas imposições. reais ou fantasiadas,. Neste caso, consumir é apenas uma das maneiras de se adaptar, perdendo o contacto com o próprio centro vital. Para outros tipos de personalidades, consumir responde a uma necessidade mais instintiva que surge de uma sensação de um vazio interno (de afeto) que provoca angústia e uma compulsão ansiosa a “pôr para dentro” (introjetar), a consumir, a “comer” (bulimia). O consumismo é neste caso um tipo de bulimia simbólica.

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Roberto Girola
https://robertogirola.com.br
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