A interpretação dos sonhos

Na sua obra, A Interpretação dos sonhos, Freud, contrariando as discussões científicas da época, manifesta a convicção que “os sonhos realmente têm um sentido e que é possível ter-se um método científico para interpretá-los” .

De acordo com a teoria freudiana  “o sonho é a realização (disfarçada) de um desejo (suprimido ou recalcado)” . Em alguns casos isso é evidente, o sonho realmente encena um desejo que, na vida real, seria irrealizável ou muito dificilmente realizável. Mas como explicar os casos em que a tese parece ser contrastada pelo conteúdo dos sonhos que apresentam situações claramente aflitivas? Como vermos nisso uma realização do desejo? Na realidade, trata-se de um comportamento comum dos sonhos, que Freud chama de distorção onírica . Isto acontece quando surge uma defesa contra o desejo, neste caso “o desejo é incapaz de se expressar, a não ser de forma distorcida. 

É justamente a partir da observação desse mecanismo psíquico que Freud chega a postular a existência de três instâncias psíquicas, que, ele caracteriza como inconsciente (Ics), pré-consciente (Pcs)  e consciência [Cs]. “Nada — acrescenta Freud — pode atingir a consciência a partir do primeiro sistema [Ics] sem passar pela segunda instância [Pcs] e a segunda instância não permite que passe coisa alguma sem exercer os seus direitos a fazer as modificações que julgue adequadas no pensamento que busca acesso à consciência”. No caso dos sonhos aflitivos,  podemos afirmar que “encerram alguma coisa que é penosa para a segunda instância [Pcs], mas que, ao mesmo tempo,  realiza um desejo por parte da primeira instância [Ics]” . Podemos concluir que “o conteúdo do sonho é (…) uma transcrição dos pensamentos oníricos”  — que Freud chama de conteúdo latente — e tem como objetivo burlar as defesas do eu.

Quando queremos interpretar um sonho devemos buscar, a partir do conteúdo manifesto do sonho, o seu conteúdo latente, identificando o desejo que se organiza a partir do inconsciente. Para realizar essa tarefa, Freud sugere que fixemos nossa atenção não no sonho como um todo mas nas partes que o compõem. De fato, “os elementos do sonho são construídos a partir de toda a massa de pensamentos do sonho e cada um desses elementos mostra ter sido multiplamente determinado em relação aos pensamentos do sonho” (FREUD, 1900, p. 310). Trata-se de um processo inconsciente, que Freud define como o trabalho do sonho, baseado nos processos de condensação e de deslocamento, que tem como resultado a diferença existente  entre  o conteúdo manifesto e o conteúdo latente (pensamento do sonho). No trabalho do sonho, de fato, está em ação uma  força psíquica que, “por um lado, despoja os elementos com alto valor psíquico de sua intensidade e, por outro, (…) cria, a partir de elementos de baixo valor psíquico, novos valores, que depois penetram no conteúdo do sonho”  (FREUD, 1900, p. 333).

 Para identificar o trabalho do sonho, será necessário recorrer à associação livre, que nos permitirá remontar  “de um elemento do sonho para vários pensamentos do sonho e de um pensamento do sonho para ´vários elementos do sonho”. 

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Roberto Girola
https://robertogirola.com.br
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