A filha perdida

O filme, ambientado em uma pequena cidade litorânea da Grécia, faz uma leitura das questões nada idílicas que envolvem a maternidade no mundo contemporâneo. Embora nem toda mãe se reconheça de cara na protagonista Leda, que certamente desperta sentimentos ambíguos no público, um mergulho mais profundo no mundo inconsciente que envolve a misteriosa relação mãe filha talvez cause menos estranhamento. Creio que uma das primeiras impressões que o filme desperta é uma desmistificação das representações que envolvem a maternidade.

 No Ocidente cristão temos inúmeros templos dedicados à Grande Mãe Maria, a mãe do Homem Deus, um filho gerado por uma virgem (liberando assim a maternidade de qualquer relação com o sexo e o desejo). No entanto, vale a pena observar que no contexto cristão as mulheres santas eram geralmente virgens, poucas delas se viram envolvidas as agruras da maternidade como Rita de Cassia…

Eu acredito que do ponto de vista inconsciente esse modelo ainda atravessa de alguma forma o ideário da mulher ocidental, remetendo ao sublime mundo de uma maternidade idealizada que precipita inúmeras mulheres na culpa e na depressão, por não se sentirem boas mães. O pediatra e psicanalista inglês Winnicott as consola: o bebê não precisa de uma mãe perfeita, ele se contenta com uma mãe suficientemente boa.

O filme, contudo, vai mais fundo, ele mostra que os processos de vinculação sempre envolvem amor e ódio. Não estamos falando de anormalidade patológica e sim de normalidade. O que pode se tornar patológico é a intensidade desses sentimentos. Toda mãe odeia seu filho, ao mesmo tempo que o ama. Isso também vale para o filho (no caso as filhas de Leda que ela abandonou, mas com as quais se comunica no fim do filme) …

Atrás de toda mãe sempre há outra mãe (a avó), que de alguma forma atravessa, como alerta Winnicott, a forma como essa mãe vai lidar com a maternidade. A boneca talvez seja nesse sentido a verdadeira protagonista do filme, pois ela representa essa ligação mãe e filha e, ao mesmo tempo, uma espécie de legado que é dado às meninas para que brinquem de ser mães e, um dia, ensinem suas filhas a serem mães…

O filme também evidencia é a ausência do homem pai nesse universo da mulher mãe. Leda em nenhum momento é “olhada e vista” pelo marido, capturado pelas suas prioridades profissionais e sociais, e fica à mercê do olhar voraz do amante que a valoriza como intelectual, mas prioritariamente como presa sexual. A tranquila praia, à beira do mar Egeu, parece representar para ela um ponto de chegada, onde ela está tentando se conciliar com sua história, em busca de um encontro mais profundo consigo mesma, exercitando sua capacidade de estar só.

Acredito que muitas mulheres estejam hoje em busca dessa praia, esperando que seus parceiros possam entender esse momento e possam finalmente estar com elas.

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Roberto Girola
https://robertogirola.com.br
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