A experiência da morte

Minha mãe morreu há pouco tempo e embora eu lute para superar essa morte, sinto que passei a ficar insegura de me tornar mãe e isso nunca havia acontecido antes. Pode ser fruto de um luto mal resolvido, ou não tem nada a ver?

Quando a morte nos toca com a sua mão fria, a mente entra em contato com uma realidade que desafia o pensamento. Por transcender a nossa experiência de seres vivos, a morte nos remete a um paradoxo. Embora somente possa ser pensada a partir da vida, pois nada morre a não ser que esteja vivo, a morte remete a algo que é o oposto da vida, situado além da nossa experiência. Tudo o que não pode ser pensado é por si só angustiante.

Evidentemente a fé na vida além da morte pode representar um alívio para a angústia, mas mesmo assim trata-se de fé e não de uma certeza ligada a uma experiência real. A morte portanto nos remete a uma experiência radical de solidão e de sem sentido. Isto explica a forma como a experiência da morte se insinua no nosso inconsciente, podendo gerar angústia e sensação de paralisia.

 No caso mencionado na pergunta, a experiência está ligada à perda da mãe. A morte de um dos pais costuma lançar o sujeito em um tipo de solidão peculiar. É como se ele percebesse, pela primeira vez, que está realmente só, sem poder mais contar com o suporte dos pais. Isto naturalmente quando os pais foram de fato um suporte.

Para alguns, o desfecho do processo do luto pela perda dos pais leva a introjetá-los, ou seja, a perceber que eles foram apropriados pelo inconsciente, se tornando modelos operantes para que o sujeito possa por sua vez se tornar pai ou mãe.

Para outros, no entanto, o luto pode não ter esse desfecho, levando a estados mais ou menos permanentes de melancolia. Neste caso, como dizia Freud, o sujeito passa a viver á sombra do objeto perdido, fazendo com que a vida perca sua cor e seu sabor. Neste caso evidentemente gerar uma nova vida pode vir a ser um desafio que não se alinha com o sentimento melancólico com o qual a pessoa passa a encarar a existência.

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Roberto Girola
https://robertogirola.com.br
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