Website de Roberto Girola - Psicanalista

Crise, tristeza e possibilidade de criar

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A tristeza foi banida na sociedade do espetáculo. O que dá “audiência”, tanto nas redes sociais como na mídia, é a tragédia, a raiva ou então a euforia. A tristeza é um sentimento morno (termo cuja fonética curiosamente remete ào verbo inglês mourn que indica um estado profundo de tristeza, geralmente ligado ao luto). A tristeza não se impõe, não dá audiência, gera incômodo, remete à fragilidade humana.

Em um interessante artigo publicado pelo jornal espanhol El País sob o título “Na política, mesmo os crentes precisam ser ateus”, a jornalista Eliana Brum, se referindo à manifestação do dia 13 de março, observa: “a angústia, no Brasil de hoje, se dá também pela vontade de acreditar que algo é verdadeiro num cotidiano marcado por falsificações”. O artigo é um convite a “suportar essa angústia”, evitando os perigos da fé cega (neste caso fé partidária), que, além de favorecer uma perigosa e estéril polarização do cenário político, tem a finalidade de aliviar a angústia, evitar a tristeza e inibir o senso crítico, ou seja, o pensamento.

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Vamos deixar de ser chatos! Por que falar em sofrimento?

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Sofrimento, tristeza, angústia e medo. Como se pode diferenciar um sentimento do outro? (Marcos António Figueredo - Curitiba - PR) 

Nem sempre é fácil definir exatamente qual é o mal-estar que assombra a nossa alma. Percebemos que há um sofrimento interno, mas não sabemos exatamente dizer se é tristeza, depressão, angústia ou medo, ou uma mistura de tudo isso. 

Nomear os próprios sentimentos pode parecer uma tarefa fácil, mas não é. Os conteúdos do nosso mundo interno são em grande parte inconscientes, o que distorce a nossa percepção consciente. Isto acontece de maneira especial na presença de conteúdos psíquicos que são aflitivos e que, portanto, tendem a ser “recalcados”, ou seja, ocultados justamente para aliviar o sofrimento.

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Tristeza e depressão

Publicado em Outros

Como diferenciar um momento de tristeza grande de um quadro depressivo? Esses dois fatores estão realmente ligados um ao outro? (Anônimo)

Tristeza nem sempre é depressão

A tristeza foi banida: tornou-se sinônimo de chatice e de inadequação. Isto nos obriga a viver nossas tristezas fechados no banheiro da empresa, ou chorando em silêncio embaixo dos lençóis. A tendência é considerar os estados de tristeza como “doença”, o que leva uma fatia considerável da população a recorrer ao uso continuado de antidepressivos.

Se tudo isso convoca a tirar a tristeza de nossas vidas para encenar a felicidade dos bem-sucedidos, me pergunto como assistir ao noticiário, ler o jornal ou testemunhar cenas lamentáveis do dia-a-dia nos mais variados ambientes sem sentir tristeza. A Bíblia, que, mesmo para os ateus, pode ser considerada um repositório milenar de experiências da humanidade, constata que a tristeza dos cenários humanos chega a contaminar os céus: Deus se arrepende de ter criado o homem.

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Tristeza pós-parto

Publicado em Pais e filhos

Quando nasceu o meu bebê tive sentimentos que não estavam nos planos; pensei até que eu estava vivendo uma depressão pós-parto. Depois lendo as revistas que eu tinha em casa, cheguei à conclusão de que eu estava passando pela tristeza materna. Ao comentar o fato com minhas amigas percebi que elas viveram algo semelhante. Como se explica essa tristeza?

 

A tristeza pós-parto

Como comprovam as pesquisas, um número muito alto de mulheres chega a experimentar algum tipo de tristeza após o parto. Os índices identificam esse estado em quase 80% das mães que acabaram de dar á luz um bebê.

A própria pergunta da nossa leitora mostra tratar-se de algo inesperado. Viver esse estado de tristeza não estava nos planos da futura mãe e tampouco parecia haver sintomas de que isso fosse acontecer.

Por que motivo uma mãe que estava ansiosamente esperando pelo nascimento do seu bebê, experimenta tristeza quando ele nasce? Vale a pena notar que a “tristeza” nada tem a ver com o estado do bebê, que, na maioria dos casos, nasce saudável, pronto para “atacar” o seio da mãe com a primeira mamada.

Estamos portanto falando de um processo interno da mãe que nada tem a ver com o bebê e tampouco com o fato dele ter sido indesejado. Por que motivo a mãe deveria estar triste?

Para a psicanálise, sem excluir a possibilidade de mudanças hormonais que podem explicar o fenômeno desde o ponto de vista fisiológico, trata-se de um estado emocional que foge à consciência da futura mãe. Sentimentos não identificados contribuem para que se instale esse leve estado depressivo.

O nascimento do bebê é algo extremamente sofisticado do ponto de vista psíquico. A mãe que esteve vinculada ao feto durante nove meses, de repente se vê livre dele. Algo que era interno passa a ser externo. Algo que, de certa forma, era ela passa a existir como separado dela.

O corpo do bebê é intimamente conectado ao corpo da mãe e, ao mesmo tempo, não é mais o corpo da mãe. Com o nascimento, é como se a mãe perdesse o controle sobre o corpo do bebê, embora sua subsistência passe a depender completamente dela.

 Não é difícil perceber que tudo isso não é simples para a mãe e é bastante compreensível que uma certa angústia se estabeleça diante desse ser que já foi ela e que, a partir do nascimento, não é mais ela e que passa a solicitar a atenção total dela.

O bebê, por ser absolutamente narcísico, é tirânico em suas necessidades. Ele não espera, não “dá um tempo”; parece incapaz de compreender as necessidades da mãe. Tudo isso faz com que ela se sinta “pressionada”, à mercê dos desejos onipotentes do bebê, desse novo ser que ela precisa “decifrar”.

Claro que tem também outro aspecto. O bebê sorri, se aconchega no colo da mãe, adora a sua presença. Enfim é uma coisinha fofa e indefesa. Motivo a mais para a mãe sentir angústia e culpa ao perceber inconscientemente que seus sentimentos pelo bebê são ambíguos e talvez até hostis em algum momento.

Além disso, a mãe percebe que esse ser que está no seu colo vai mudar completamente a sua vida. Nunca mais vai poder desfrutar de sua autonomia como desfrutava antes. Uma série de mudanças se impõem na sua vida e as mudanças sempre angustiam.

É claro que cada caso é um caso, mas os aspectos acima descritos permitem entender um pouco melhor as angústias que a nova mãe vive e compreender o porquê de sua eventual “tristeza” após o parto, ao tomar consciência que o bebê entrou definitivamente em sua vida.{jcomments on}

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