Website de Roberto Girola - Psicanalista

Realidade, mas qual realidade?

Publicado em Outros

Uma das coisas que mais me fascinam como psicanalista é perceber o quanto a ilusão de enxergar a Realidade nos domina e captura nossas vidas e a forma como nos relacionamos com o mundo. O problema é que a Realidade está sempre ali, nos desafiando, se impondo a nós como um corpo estranho e impenet6rável (Heidegger e Lacan chegaram a descrevê-la como a Coisa), questionando nossa percepção e a organização do nosso pensar.

 

Um exemplo disso é essa “Coisa” que denominamos de crise. Afinal o que está acontecendo? Nosso país perdeu definitivamente o rumo? Devemos nos mudar daqui? Mas ir para onde? Ir para o sonho americano trumpiano, ou então ir para a velha Europa, onde muitos europeus estão procurando uma “Exit” porque também estão insatisfeitos e achando que o atual modelo não se sustenta? Haveria ainda opções mais radicais a favor de uma Realidade que alguns alegam enxergar com absoluta clareza, mas essas opções vamos deixar para o EI e para os fundamentalistas de todo tipo.

 

Poxa, a Realidade tinha acabado de se manifestar com clareza para os “coxinhas”: os petistas são o grande problema do nosso país. Finalmente enxergamos a “realidade”, uma realidade da qual sempre desconfiamos, pois afinal somos mais instruídos, mais competentes, menos “tapados” do que “eles”. O problema é que “os petistas” estão olhando para a mesma “Coisa” e enxergando algo completamente diferente.  Estaríamos de fato às voltas com um grande complô da direita? Tudo é mentira e a realidade na qual sempre acreditamos é de fato a Realidade, pois nós somos , mais evoluídos e articulados? Ambos concluem irritados: a Realidade é o que nós enxergamos e não venham querendo questioná-la!

 

Isso é nada mais do que o reflexo de outra grande realidade que se impôs no século passado: o socialismo marxista como grande alternativa ao capitalismo neoliberal.  Ambos hoje estão colapsados. Afinal o que é Real? Onde está essa Coisa que chamamos de Realidade? Além disso, de acordo com esses loucos da Física Quântica, nem a própria matéria, na sua dimensão infinitesimal é livre do benefício de se transformar conforme o “observador”...

 

Tudo isso sugere a necessidade de suportar a “turbulência emocional” á qual se referia Bion, apontando-a como pré-condição do pensamento. Parece que a “escuta flutuante” do Real não é apenas reservada ao psicanalista, mas a todos aqueles que querem escutar o respirar da vida.

 

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Realidade, mas qual realidade?

Publicado em Insights

Uma das coisas que mais me fascinam como psicanalista é perceber o quanto a ilusão de enxergar a Realidade nos domina e captura nossas vidas e a forma como nos relacionamos com o mundo. O problema é que a Realidade está sempre ali, nos desafiando, se impondo a nós como um corpo estranho e impenet6rável (Heidegger e Lacan chegaram a descrevê-la como a Coisa), questionando nossa percepção e a organização do nosso pensar.

 

Um exemplo disso é essa “Coisa” que denominamos de crise. Afinal o que está acontecendo? Nosso país perdeu definitivamente o rumo? Devemos nos mudar daqui? Mas ir para onde? Ir para o sonho americano trumpiano, ou então ir para a velha Europa, onde muitos europeus estão procurando uma “Exit” porque também estão insatisfeitos e achando que o atual modelo não se sustenta? Haveria ainda opções mais radicais a favor de uma Realidade que alguns alegam enxergar com absoluta clareza, mas essas opções vamos deixar para o EI e para os fundamentalistas de todo tipo.

 

Poxa, a Realidade tinha acabado de se manifestar com clareza para os “coxinhas”: os petistas são o grande problema do nosso país. Finalmente enxergamos a “realidade”, uma realidade da qual sempre desconfiamos, pois afinal somos mais instruídos, mais competentes, menos “tapados” do que “eles”. O problema é que “os petistas” estão olhando para a mesma “Coisa” e enxergando algo completamente diferente.  Estaríamos de fato às voltas com um grande complô da direita? Tudo é mentira e a realidade na qual sempre acreditamos é de fato a Realidade, pois nós somos , mais evoluídos e articulados? Ambos concluem irritados: a Realidade é o que nós enxergamos e não venham querendo questioná-la!

 

Isso é nada mais do que o reflexo de outra grande realidade que se impôs no século passado: o socialismo marxista como grande alternativa ao capitalismo neoliberal.  Ambos hoje estão colapsados. Afinal o que é Real? Onde está essa Coisa que chamamos de Realidade? Além disso, de acordo com esses loucos da Física Quântica, nem a própria matéria, na sua dimensão infinitesimal é livre do benefício de se transformar conforme o “observador”...

 

Tudo isso sugere a necessidade de suportar a “turbulência emocional” á qual se referia Bion, apontando-a como pré-condição do pensamento. Parece que a “escuta flutuante” do Real não é apenas reservada ao psicanalista, mas a todos aqueles que querem escutar o respirar da vida.

 

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Excesso de realidade

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Talvez a sensação que melhor define o início desse novo ano seja “excesso de realidade”. A cascata de escândalos políticos envolvendo todas as instâncias e os maiores partidos que disputam o cenário político brasileiro foi quase levada pela enxurrada de lama e de minérios que destruíram a região do Rio Doce, num cenário apocalíptico que se estende por 800 Km e que já alcançou o oceano Atlântico, semeando morte e destruição. Mas isso não é tudo: para os que ainda ousam ter esperança e pôr um filho nesse mundo perturbado, o Zika vírus vem alertar que não é uma boa ideia, os nosso bebês antes mesmo de nascer já são ameaçados pela doença: poderão nascer com microcefalia, aleijados na sua capacidade cerebral.

Para aqueles que olham para além de nossas fronteiras, em busca da  terra prometida, os cenários também não são reconfortantes. Atentados, desastres naturais, longas filas de migrantes, guerra e destruição assolam a Europa, a África, o Oriente Médio, o Oriente e os EUA. O sonho de uma Europa unida sem guerras e sem barreiras está ameaçado com o efeito Brexit e o consolidar-se dos movimentos nacionalistas de direita.

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Os refugiados: pessoas reais, problema real

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No plano coletivo, como no plano pessoal, a mente humana tem certa dificuldade para entender que as representações da realidade são apenas representações e não a realidade em si. No caso de um problema tão complexo como aquele dos refugiados, que está ganhando cada vez mais destaque nos noticiários nacionais e internacionais, é ainda mais difícil saber o que de fato pode ser uma representação aproximada do Real,

O refugiado com o qual o europeu entra em contato é aquele que vê na rua, vendendo bugigangas ou vivendo de artifícios, formando pequenos grupos que à noite se reúnem em algum ponto da cidade para conversar em seu idioma, na tentativa de manter o contato com suas raízes. Quanto ao resto, o migrante é aquele que é representado na mídia: em geral um “problema” para a estabilidade social e cultural de uma Europa que lutou por anos para se reconstruir das ruinas da guerra e alcançar o bem-estar e o equilíbrio social. Mas frequentemente ele é também uma “ameaça” para a estabilidade econômica, social e para a identidade cultural do país no qual ele se instala. Violência, exploração, prostituição, comércio das drogas, máfias importadas e a própria ameaça do terrorismo e do radicalismo islâmico são alguns dos aspectos mais alarmantes da presença desses corpos estranhos no seio da sociedade.

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Não é fácil ser um político

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Na Rússia, o principal oponente do presidente é assassinado, mas este nega qualquer envolvimento com o crime. Um procurador que acusava a presidente da Argentina aparece morto. Em um primeiro momento nega-se que ele tenha sido assassinado (já que não se pode negar que esteja morto) e a presidente acaba sendo sumariamente absolvida pela justiça das acusações que poderiam envolvê-la com o assassinato.

No Brasil, os efeitos desastrosos do escândalo da Petrobrás se alastram, criando um rombo cada vez maior no barco já instável da nação. Enquanto isso, a real dimensão econômica, política e ética do problema é minimizada, contradizendo o que a realidade teimosamente insiste em mostrar. Ninguém sabia de nada, a não ser os “delatores premiados” e alguns políticos e empresários desavisados.

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Preservar o Mistério

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Preservar o Mistério

Uma das características do nosso tempo é a necessidade de “exposição”. O que não é “publicado” nas páginas dos jornais, nas redes de televisão ou nas redes sociais parece não existir. Paralelamente a essa necessidade de exposição publicitária, que faz com que de alguma forma tudo e todos se tornem produtos a serem ”comprados”, há uma necessidade de tornar visível e compreensível tudo o que é oculto.  A aceitação do mistério está fora de questão. Tudo parece exigir uma explicação, que permita fugir da angústia do inominável, da turbulência emocional do pensamento que não pode ser pensado.

Na tradição judaico-cristã, uma exigência da lei divina é que o nome de Deus “não seja nominado em vão”. Na tradição judaica o mandamento é assumido com todo rigor, o nome de Deus é transcrito na língua hebraica de tal forma que se torna impronunciável. Vale a pensa frisar que nessa tradição dizer o nome de alguém equivale a se apropriar de sua “realidade”.

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