Website de Roberto Girola - Psicanalista

Filtro bolha, Redes Sociais e capacidade de pensar

Publicado em Outros

No final dos anos 90 participei de uma entrevista televisiva com o pensador Pierre Levy. Na época o filósofo francês já tinha elaborado uma interessante teoria sobre o que ele defina “As árvores do conhecimento”, preconizando formas de conhecimento e de pensamento mais democráticas e participativas que se desenvolveriam a partir das novas possibilidades oferecidas pela Internet.

A profecia se realizou? Quase 20 anos depois, em um artigo publicado pelo jornal O Globo, o professor Massimo Di Felice, fundador do Centro de Pesquisas Atopos, da Universidade de São Paulo (USP), analisa o papel as Redes Sociais na mobilização de milhões de pessoas nos recentes protestos populares, alegando que tais movimentos expressam na realidade uma insatisfação não apenas com o atual governo, mas com a democracia representativa como um todo, indo além daquilo que a mídia tradicional (TV, rádio e jornais e revistas e seus respectivos sites) tende a divulgar, criando recortes que podem levar a leituras parciais e tendenciosas. Até que ponto as Redes Sociais conseguem de fato se contrapor a essa manipulação da informação que geralmente é atrelada a interesses de parcelas específicas da sociedade?

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Crise, tristeza e possibilidade de criar

Publicado em Pagina Inicial

A tristeza foi banida na sociedade do espetáculo. O que dá “audiência”, tanto nas redes sociais como na mídia, é a tragédia, a raiva ou então a euforia. A tristeza é um sentimento morno (termo cuja fonética curiosamente remete ào verbo inglês mourn que indica um estado profundo de tristeza, geralmente ligado ao luto). A tristeza não se impõe, não dá audiência, gera incômodo, remete à fragilidade humana.

Em um interessante artigo publicado pelo jornal espanhol El País sob o título “Na política, mesmo os crentes precisam ser ateus”, a jornalista Eliana Brum, se referindo à manifestação do dia 13 de março, observa: “a angústia, no Brasil de hoje, se dá também pela vontade de acreditar que algo é verdadeiro num cotidiano marcado por falsificações”. O artigo é um convite a “suportar essa angústia”, evitando os perigos da fé cega (neste caso fé partidária), que, além de favorecer uma perigosa e estéril polarização do cenário político, tem a finalidade de aliviar a angústia, evitar a tristeza e inibir o senso crítico, ou seja, o pensamento.

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Microcefalia psíquica

Publicado em Pagina Inicial

Já temos no Brasil milhares de casos de bebês nascidos com microcefalia. A possibilidade que a doença se espalhe e assuma proporções bem maiores infelizmente ainda existe. No entanto, o que sem dúvida já assumiu proporções bem mais sérias é outro tipo de microcefalia, que poderíamos chamar de microcefalia psíquica.

Em seu livro O sujeito na contemporaneidade, o psicanalista Joel Birman, um dos maiores e mais respeitados pensadores da psicanálise no Brasil, analisa com profundidade as características do mal-estar da contemporaneidade (que, aliás, é o título de outro livro dele), parafraseando o famoso texto de Freud, escrito em 1927, O mal-estar da civilização.

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Devo bater em meu filho?

Publicado em Pais e filhos

Devo bater em meu filho quando ele se mostra mal educado comigo? M.A.S. do Estado de São Paulo.

Devo bater em meu filho?

Quando falamos em educação dos filhos é sempre mencionada a importância de saber impor limites. Mas e quando os filhos não respeitam os limites estabelecidos? O que fazer? É viável que os pais recorram ao uso da violência física para impor o respeito? O recurso ao castigo físico é bastante comum, sobretudo nos contextos sociais onde a violência faz parte do dia-a-dia da população. Não é raro assistir na rua a cenas de mães tratando com extrema agressividade seus filhos, mesmo pequenos. Empurrões, safanões, tapas, beliscões, ou até cintadas parecem fazer parte da receita diária de alguns pais, que provavelmente acreditam estar “educando” os filhos dessa maneira.

É bom esclarecer desde já que o uso da violência não é educativo e, portanto não é “pedagógico”, ou seja, não ajuda na aprendizagem. O problema fundamental quando falamos em “bater” é que o castigo físico representa uma descarga descontrolada da raiva dos pais. Não há portanto um intuito “educativo” e sim apenas uma “descarga” instintiva, carregada de excitação.

Quando o filho não respeita um limite, ou ele não entendeu as razões que levaram os pais a impor aquela “regra”, ou então não pode entende-las por estar fechado em si mesmo, em uma atitude narcísica, ficando á mercê de seus processos internos. Neste último caso, a não aceitação das regras impostas pelos pais, leva a um “rompimento” do vínculo com eles, que é sentido com maior ou menor culpa, dependendo das características psíquicas da criança ou do jovem. Este processo é sempre revestido de um certo grau de excitação. Impede a capacidade de “pensar” uma determinada situação e leva o jovem ou a criança a se entregar a seus mecanismos instintivos.

É fácil perceber que, diante da excitação do filho que não consegue “pensar” uma determinada situação e que se sente à mercê de seus processos instintivos inconscientes, é importante que os pais possam “conter” esse processo do filho mostrando-se capazes de “pensar”. Não é o que acontece quando recorrem a uma simples descarga de sua raiva, batendo no filho.

Existe também a possibilidade que os limites impostos pelos pais não sejam compreendidos porque não foram adequadamente explicados pelos pais. Neste caso, antes de dar qualquer outro passo, é importante perceber se as “regras” foram expostas com clareza e entender por que o filho não as está respeitando.

Se, mesmo assim, os pais perceberem um “fechamento narcísico” por parte do filho, ou seja uma incapacidade de olhar para a realidade e de “pensa-la”, ou até um “ataque” à realidade caracterizado por atitudes onipotentes, será necessário recorrer a alguma forma de “contenção”, que possa restabelecer um contato mais adequado com a realidade. Neste caso, o castigo pode ser uma forma adequada de contenção.

No caso de crianças muito pequenas, uma palmadinha na bunda cheia de fraldas evidentemente não tem a função de “machucar”, mas apenas de expressar a reprovação dos pais diante de um comportamento indesejado. Aqui também o que é fundamental é a capacidade dos pais de “conter” as angústias e ansiedades da criança sem se entregar à raiva. Geralmente um gesto desse tipo alivia o estado de excitação ansiosa da criança e, depois de um breve choro reparador, ela pode voltar “ao normal”.

O castigo portanto não deve ser caracterizado por uma agressão, por uma descarga emocional dos pais. Sua função é poder restabelecer a capacidade da criança ou do jovem de pensar uma determinada situação e de conter suas descargas emocionais que podem ser autodestrutivas e acarretar uma dose de auto-sabotagem.

Quanto mais criativos e inteligentes forem os castigos, melhor será o resultado. Naturalmente deverá também haver uma proporção entre o castigo e a “transgressão” da criança ou do jovem. Da mesma forma é extremamente prejudicial anunciar castigos que depois os pais não conseguirão manter.

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