Website de Roberto Girola - Psicanalista

Não gosto do namorado de minha filha

Publicado em Vida amorosa e sexualidade

Minha filha de 16 anos começou a namorar um menino de 18 muito diferente dela: Enquanto ela está terminando o segundo grau, cheia de perspectivas, ele teve de parar os estudos por não poder pagá-los daqui em diante. Ele é negro e tem uma aparência frágil. Minha filha é uma menina exuberante que, perto dele, parece murchar. A família dele é de gente simples e honesta, mas a mãe é analfabeta e o pai gosta de freqüentar bares na rua e ter rompantes machistas. Gostaria de mostrar à minha filha que ela merece conviver em ambientes mais interessantes e saudáveis, mas qualquer coisa que eu digo soa como mero preconceito para ela, que me acusa de racista, por exemplo. Penso que isso pode decorrer de baixa autoestima, o que me arrasa. Está muito difícil conviver com essa situação. O que faço?

 

Não gosto do namorado de minha filha

 

A situação a que se refere a carta é complexa, pois movimenta mecanismos psíquicos inconscientes que envolvem ambas as partes. Os pais costumam ter um “sonho” sobre o futuro de seus filhos, que inclui também um modelo idealizado daquele que será o parceiro ideal para eles. Todos os preconceitos raciais e sociais incidem profundamente no perfil “ideal” que os pais esboçam dentro de si, influenciados pelo meio social em que vivem. Além disso, pai e mãe têm também, dentro deles, um modelo idealizado inconsciente de mulher ou de homem, que incidirá na “montagem” do perfil ideal. Desta maneira, nenhum par “real” que aparecer estará à altura do filho ou da filha e sempre causará algum tipo de decepção. Por outro lado, se os filhos influenciados pelos pais, escolherem um par para agradá-los, a probabilidade é muito grande que este se revele mais tarde uma grande decepção. Apesar de os pais quererem o “bem” dos filhos, o que eles consideram o“bem” está inevitavelmente ligado aos seus desejos, à sua maneira de ser, à sua visão da realidade. O grande papel dos pais não é portanto transmitir aos filhos sua maneira de ser, mas ajudá-los a descobrir a deles.

No caso de sua filha, ela é uma adolescente que está enfrentando os problemas normais que a idade apresenta: Grandes transformações físicas, uma ansiedade diante do “novo”, medo de se afastar do ambiente protegido da infância e necessidade de “se separar” dos pais são alguns dos problemas que se apresentam. Nesta idade o/a adolescente costuma desenvolver uma certa aversão aos pais, uma incontrolável necessidade de “negar” tudo o que vem deles. Portanto, o modelo ideal de par, sonhado pelos pais, pode ser “odiado” pelos filhos. Pode até ser que sua filha tenha escolhido, inconscientemente, exatamente o oposto do que os pais desejavam, justamente para agredi-los. Por se tratar de processos inconscientes, quanto mais os pais se opuserem, mais o adolescente se  “fechará” no seu mundo, parecendo incapaz de enxergar a realidade. Quanto menos a oposição for levada a sério pelos pais, mais rapidamente se dissolverá a necessidade do adolescente de assumir aquela atitude emburrada, arredia que o caracteriza.  Naturalmente isto não significa abandonar o adolescente a si mesmo. Seria exatamente o contrário do que ele precisa. A atitude agressiva e hostil é uma maneira de dizer: “Eu estou aqui, olhem para mim, eu existo, preciso do seu afeto”. Creio portanto que sua filha precisa do seu apoio, no sentido de auxiliá-la a descobrir o que ela realmente quer para o seu futuro. Demonstre portanto carinho e compreensão para ela, “oferecendo” o seu ponto de vista com serenidade, para ajudá-la a refletir. {jcomments on}

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Adolescente problemático

Publicado em Pais e filhos

Tenho um enteado de 16 anos. Era uma criança normal, brincava, corria, aprontava. Mas desde os 14 venho percebendo uma crescente mudança de comportamento. Ele não fala! Nada além de um Sim, não, ok. Não tem amigos, nunca namorou. É ele e a televisão, o computador e o videogame. (Anônimo)


Adolescente problemático

Apesar da adolescência ser comumente descrita como um período difícil, nem sempre comportamentos “estranhos” são sinônimo de problemas graves. É preciso verificar se o comportamento reflete apenas uma crise momentânea, às vezes provocada por algum problema pontual (decepção amorosa, com amigos, com o desempenho escolar, bullying, etc.), ou se tende a se fixar.

Existe ainda, nesta fase do desenvolvimento, a possibilidade que o adolescente tenha “duas caras”, ou seja, que ele se comporte de um jeito com amigos e colegas e de outro jeito na família. De qualquer forma, é aconselhável, caso os pais tenham realmente a impressão que algo “estranho” está acontecendo com o filho, marcar uma entrevista com o orientador educacional da escola ou com um profissional. Costuma também ser útil tentar fazer com que colegas do filho passem a frequentar a casa, para que os pais possam estar mais próximos do seu mundo.

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Adolescência e angústia

Publicado em Pais e filhos

Tenho 15 anos, e me considero uma adolescente de alto controle, mas acordo às vezes com essa "Angústia sem razão". Ela deve ter alguma razão, mas não acho absolutamente nada, é normal na adolescência? Pode ser um começo de uma depressão? [...].  Débora Júlia

Adolescência e angústia

O período da adolescência, como observa Françoise Dolto, uma famosa psicanalista francesa autora do livro A causa dos adolescentes (Editora Ideias & Letras), é um período marcado por uma importante transição caracterizada não somente pelas transformações físicas e hormonais, mas também por importantes desafios psíquicos.

Ao deixar para trás a infância, o adolescente se depara com o mundo dos adultos, marcado por contradições, incoerências e falsidades que o decepcionam. Ao mesmo tempo, trata-se de um mundo competitivo, exigente, que impõe severas regras para não ser excluídos.

De um lado o cortejo dos bem-sucedidos, do outro, os que não podem exibir as insígnias do status: os feios, os gordos, os que não têm dinheiro suficiente para comprar o celular da moda, que não vestem as roupas de marca, que não frequentam a balada da hora, os que não são suficientemente “expertos” para “pegar” as meninas ou os meninos mais cobiçados pela “turma”.

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Adolescente retraído

Publicado em Pais e filhos

Tenho um sobrinho de 14 anos, que foi uma criança alegre, brincalhona e arteira, porém tenho notado que, nos últimos 2 anos, ele vem ficando cada vez mais calado, triste, não têm muitos amigos, e não se interessa em sair de casa. Normalmente fica só no computador, se comunica praticamente só quando perguntamos algo. Quais fatores podem influenciar nessa mudança de comportamento? (Anônimo)

Adolescente  retraído

Em primeiro lugar é necessário esclarecer que as crises são absolutamente normais nessa idade. Como dizia a famosa psicanalista francesa Françoise Dolto, com o aparecer dos primeiros sinais anunciando o fim da infância e o início da transição para a idade adulta, o adolescente entra em um estado de luto pela “perda” da infância e de suas “mordomias”.

Nesta fase, começa a se sentir fortemente pressionado pelo ambiente (colegas, escola e familiares)  a se tornar mais autônomo e independente, sem saber ainda como fazer isso. Além das transformações físicas (mudança de voz, intensificação da atividade hormonal e aparecimento das características sexuais adultas), o adolescente enfrenta transformações psíquicas que o obrigam a lidar com suas angústias e seus medos. Dois cenários são possíveis nesse contexto.

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A escolha do futuro

Publicado em Pais e filhos

Meu filho estudou nos melhores colégios, mas agora já abandonou a 3º faculdade. Qual o problema dele? (Maria Gorete de Oliveira Nunes - Sorocaba (SP) 

O jovem e a escolha do futuro

Ter estudado nos melhores colégios infelizmente não garante que um adolescente possa enfrentar com sucesso os estudos universitários e nem lhe dar certeza sobre a escolha da faculdade que irá cursar.  No caso mencionado pela nossa leitora, o filho abandonou por três vezes consecutivas o curso que começou a frequentar. É compreensível a preocupação da mãe que se pergunta o que está acontecendo.

Pela maneira como a pergunta é formulada, parece que a mãe atribui o “problema” ao desempenho do filho na faculdade. Embora tenha estudado nos melhores colégios, parece não conseguir tirar proveito disso e dar andamento aos estudos universitários. É contudo possível que a desistência seja devida a outros fatores. Será que a nossa leitora já perguntou ao filho qual é “o problema”? Seria importante ouvir o que ele tem a dizer sobre as desistências. Provavelmente a situação é desconfortável também para ele, já que está vendo os amigos avançarem nos estudos enquanto ele está ficando para trás..

Evidentemente não posso me aventurar a falar sobre esse caso específico a partir das poucas informações de que disponho. Tentarei em contrapartida formular algumas hipóteses de caráter mais geral sobre esse momento da vida de um jovem.

A dificuldade de escolher ou de dar andamento aos estudos pode estar ligada às elevadas expectativas dos pais. Não é raro os pais projetarem nos filhos suas expectativas e, às vezes, seus sonhos frustrados. Neste caso o filho se sente incumbido de levar a cabo aquilo que os pais não conseguiram ou, caso os pais sejam bem-sucedidos, de imitá-los no sucesso ou, melhor ainda, superá-los. ’Expectativas exageradas podem ser percebidas pelo psiquismo como uma espécie de voracidade que não poderá nunca ser satisfeita, gerando uma sensação de impotência e de paralisia.

Alguns amigos que ensinam em cursos universitários têm comentado o caso de mães ou pais de alunos que procuram o professor para se queixar do baixo desempenho do filho ou de sua dificuldade para se inserir com os colegas em atividades de grupo. Estamos falando de alunos maiores de idade e portanto responsáveis pelos seus atos. Essas atitudes “intrusivas” dos pais deixam transparecer uma total infantilização do jovem que certamente não ajuda para que ele assuma suas responsabilidades. O aluno vítima de uma superproteção desse tipo por parte dos pais certamente terá dificuldade para assumir as rédeas de sua vida e sonhar seus próprios sonhos.

Este tipo de atitude por parte dos pais estabelece uma relação completamente errada com os filhos, que não são encorajados desde o ginásio a assumirem sua responsabilidade em relação aos estudos e à vida. Não é raro que pais separados ou que dedicam muito tempo à sua profissão descontem seu “complexo de culpa” com atitudes superprotetoras em relação aos filhos. O resultado costuma ser desastroso.

Por outro lado, o jovem é chamado a fazer escolhas importantes para sua vida muito cedo. Não é raro que a escolha da faculdade seja percebida como uma escolha definitiva, da qual dependerá o resto de sua vida. A hipervalorização dos estudos e da carreira como determinantes da felicidade futura do jovem gera uma grande ansiedade na hora de escolher um curso universitário. Tudo isso evidentemente não favorece escolhas serenas e acertadas.

Finalmente, gostaria de apontar outro problema, bastante comum na maioria dos cursos universitários. Os primeiros dois anos costumam ser recheados de disciplinas de caráter introdutório que, na opinião dos calouros, pouco têm a ver com a profissão que escolheram. É importante que pais e professores os orientem sobre essa dificuldade, para que possam superar o obstáculo.

As questões acima apontadas não pretendem esgotar o assunto, mas nos permitem ter uma idéia de quanto seja difícil esse momento na vida de um jovem. Algumas escolhas de segundo grau oferecem um suporte “vocacional” aos alunos nesse sentido. Nos casos em que o jovem vive algum tipo de impasse (como apontado pela nossa leitora) será necessário recorrer a um profissional para ajudá-lo a superar o problema, que, como foi dito acima, pode não ser apenas circunstancial.

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