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A prisão das palavras

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A prisão das palavras

 Sempre existe a tentação de prender a vida em palavras. Os poetas, os grandes escritores, o fazem com arte. A angústia então os invade, pois as palavras são inadequadas, prendem algo que não pode ser preso. É como segurar um pouco de areia na palma da mão. Ela escorrega entre os dedos. Os vários estilos literários, se alternam em tentativas frustradas de capturar o real. Do Realismo Parnasiano à Arcádia, do Romantismo ao Hermetismo.  Da mesma forma pintores e escultores procuram capturar em formas e cores o espetáculo da vida. As mesmas formas, os mesmos sujeitos, sejam eles um rosto, um corpo nu, um animal ou uma paisagem, se transformam na “visão” do artista. Das formas austeras e sem perspectiva da arte bizantina, à exuberância da policromia renascentista e barroca; da compostura da arte clássica, à irreverência da arte moderna. O Moisés de Miguelangelo, traduz a angustiante luta do artista contra a resistência da materialidade da simbolização a traduzir a poderosa vitalidade do mundo interior. {jcomments on}

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Ironia

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Ironia

 Por que andar erguidos, olhando para o céu, quando podemos,  curvados, olhar para o chão, carregando o fardo da verdade, comprado na feira dos vendedores de certezas? Parece ser bem melhor olhar para o chão do que ficar cegos por querer olhar em direção à luz. Por que andar de dia ao longo do caminho iluminado pelo sol de nossa consciência, quando podemos andar de noite, guiados pelas vozes sedutoras dos conhecedores de caminhos?

Todos os dias, encontramos respostas prontas na esquina de nossa casa, a solução certa para o nosso problema... Por que arriscar, quando outros parecem dispostos a assumir nossas responsabilidades? Escolhendo de não ter escolha, estamos tão seguros que o nosso é o único caminho certo, que nos sentimos na obrigação de forçar a segui-lo quem discorda. Pagamos tão cara a Verdade, que agora não podemos deixar de exibi-la diante do nariz de todos. É tão bom sentir-nos úteis, apreciados, compreendidos... É tão bom saber que escolhemos o caminho certo! {jcomments on}


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A harmonia do caos

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Texto de Roberto Girola

Ás vezes percebo que existe uma harmonia no meio deste caos que a vida apresenta ser. É um fio sutil que liga situações, experiências, sensações, idéias. Se ele é tão impalpável que quase se confunde com os nossos sonhos, manifesta-se real e consistente por estar presente fora de nós, mergulhado no real. Ele vibra e solta as suas notas melodiosas na desajeitada mistura de sons, que tende teimosamente a se tornar sinfonia de Vidas.

Existe uma lógica na manifestação caótica do Real? Acostumados a conceber a lógica como uma estável organização de conceitos formalmente organizados, temos esquecido que esta organização conceitual só existe na nossa mente, fruto da abstração, brilho instantâneo de uma realidade em contínua evolução, em movimento. Quem começa a perceber isso e procura aceitar o desafio da lógica dialética, arrisca perder o equilíbrio, vê-se perdido, sem rumo. É como se todos os instrumentos da orquestra da vida começassem a desafinar. Oh perdida harmonia! Oh doce som que nos guiava! Oh notas simples da nossa infância! Onde estais?

Mergulhar no Caos é a experiência que nos torna mais maduros. Falei de infância e falo de maturidade; mas tudo isso acontece independentemente do nosso crescimento físico. Para alguns, talvez só a morte representará a passagem da infância para a maturidade.

Antigamente, alguns pensadores e místicos argumentavam existir uma sintonia entre conhecer e Ser, que permitiria uma intuição imediata do Ser. Trataria-se de um velado critério de certeza, uma espécie de insight, superior à pura certeza lógica, fruto do raciocínio e da autópsia do Ser. Se o formalismo lógico nos leva a um saber redutivo, fechado, irremediavelmente destinado à miopia fundamentalista, à ideologização (uso da idéia como poder repressivo e justificação do "status quo"), a experiência do mergulho na realidade dialética do Ser nos torna humildes, abertos ao "novo", crianças sempre "admiradas" diante do milagre da vida. Tudo isso além da angústia e da solidão, que se impõem a partir do momento em que descobrimos que nossos conhecimentos, nossa maneira de ver as coisas, de avaliar as situações e de julgar as pessoas, são frutos de nossas imagens internas, de nossas fantasias inconscientes. Perceber que existe um hiato entre o mundo interno das percepções e a realidade externa, pode nos ajudar a equacionar o fechamento narcísico e a abertura angustiante para o Outro, num movimento em que o mundo narcísico das fantasias inconscientes e a percepção dos objetos externos tendem a se harmonizar.

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Habitar a dor

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Quantas vezes, ao acordarmos, o céu parece nublado. Aliás, nesses dias sequer olhamos para o céu. Pouco importa se lá fora o sol brilha, dentro de nós, nuvens pesadas tornam cinzento tudo o que vemos ao nosso redor. Uma série de interlocutores internos parece estar a dialogar conosco.

--  Não adianta, não tem mais jeito -- diz um.

-- Tanto faz, vamos levando -- diz outro.

--  Por que, justo comigo? -- grita um terceiro.

-- O que eu fiz para merecer isso? -- se interroga o quinto.

Cada um de nós tem o seu próprio coro de interlocutores e o seu repertório de queixas.  No entanto, o efeito dessas vozes é o mesmo. A depressão toma conta de nós. A  angústia provoca um aperto em nosso peito, nossa respiração é afetada. Uma estranha sensação de ansiedade se transmite de forma difusa a todo o nosso corpo. Um sentimento profundo de solidão torna vazios e sem sentido nossos encontros com o outro. Ficamos sem apetite, ou então com uma fome compulsiva, um desejo de preencher com comida o buraco negro que se instalou dentro de nós, sugando nossas energias vitais. Alguns tentam fugir desse estado saindo em busca de algo que possa preencher o seu vazio interior. Compras, uma relação sexual sem envolvimento, uma viagem, ou, na pior das hipóteses, álcool ou drogas.

Fechou-se o ciclo mortal. A pulsão de morte tomou conta de nós. O único sentimento que parece realmente nos mobilizar é uma raiva profunda, misturada a uma estranha sensação de culpa. Procuramos então desviar esse sentimento e canalizar a raiva buscando algum culpado pelas nossas desgraças. Nossas imagens recalcadas, nossos fantasmas internos vão em busca de alguém em quem possam se espelhar, para projetar nele o nosso ódio e a nossa raiva. Às vezes, nem isso é possível e a raiva volta para dentro de nós, sob forma de auto-sabotagem. É o momento em que nos metemos naquela relação que, já de entrada, sabemos nos trará apenas problemas e sofrimento. É o momento ideal para fazer aquele negócio que só vai nos trazer prejuízo. É o momento em que nos predispomos internamente a ser vítimas de um assalto. É o momento em que, no nosso trabalho, cometemos aquele erro que vai nos custar o emprego ou a possibilidade de avançar em nossa carreira.

O que torna mais terrível essa experiência psíquica é a sua tendência a se tornar cada vez mais freqüente, mais intensa. Como fugir de suas garras afiadas? Como reverter a pulsão de morte? O caminho que nos leva à esperança, é uma trilha íngreme e estreita. Exige que nos apeguemos ao instinto vital que, apesar de tudo, ainda está presente em nós.

Um primeiro passo é acolher nossa dor. Não tentar fugir dela. A experiência da dor é o que nos caracteriza como seres humanos. Na estátua da "Pietà" Miguelangelo a imortalizou na imagem da mãe desolada pela dor da perda do seu filho, do seu Deus e portanto de sua esperança."Stabat mater dolorosa" reza um antigo hino cristão. Nesse "estar" encerra-se uma experiência profunda de humanidade. Saber "estar" em nossa dor, saber contê-la, recebê-la, habitá-la. Saber acolher a criança angustiada que está em nós, precisando de alguém que a receba, que abra os braços, que a tome no colo e permita que ela possa chorar. Sim, simplesmente chorar. Poder chorar é uma grande dádiva nesses momentos.  Nós gostaríamos que outros fizessem isso, que nos oferecessem um colo para chorar, mas nem sempre isso acontece, nem sempre é possível. Cabe a nós dar o primeiro passo. Acolher nossa dor.

Ao cuidar de nossa criança interior chorosa, a dor já recebe uma primeira significação. Imagens, lembranças, sentimentos profundos tomam conta de nós. Percebemos então que a que estamos vivendo não é uma dor isolada. Ela se insere numa série de afetos internos penosos que atravessam nossas feridas psíquicas. Trata-se de pequenos/grandes momentos de dor, que provavelmente passaram desapercebidos aos olhos de quem cuidava de nós na nossa infância, mas que foram para o nosso psiquismo grandes abismos de angústia, nos quais nos sentimos precipitar. Talvez ninguém entenda por que estamos tão chateados e deprimidos por algo tão insignificante --aos olhos dos outros--  que aconteceu em nossa vida presente. Mas isso é porque ninguém pode saber os abismos que se abriram sob os nossos pés, por trás dos fatos "insignificantes". Portanto, não devemos desprezar nossa dor, e tampouco a dor de qualquer ser humano, por mais estúpida que pareça.

O segundo passo, uma vez acolhida a nossa dor, é separar nossa dor atual da cadeia de sentimentos aflitivos à qual ela ficou ligada. O nosso presente contém o passado, mas não é o passado. É importante que consigamos habitar o nosso presente. Perceber o que temos construído, olhar para a realidade que nos rodeia e acolher o que está ao nosso alcance. Mesmo o que foi materialmente perdido pertence a nós. Pois faz parte de nossa história. Um relacionamento, um casamento, os filhos, realizações na área profissional, tudo isso pode não estar fisicamente presente, mas é algo que de alguma forma ainda nos pertence. Como diz a lei da física, nada se cria e nada se destrói, tudo se transforma.

O terceiro passo é acolher e habitar o que, nesse momento, apesar de tudo nos traz vida e alegria... Não precisa ser algo grande, pode ser algo muito simples. Um raio de sol, alguém que nos cumprimenta, o sorriso de uma criança, algo que está ao nosso alcance e que pode nos dar um pouco de prazer e de alívio. Reverter o sentimento de ser lesado por um sentimento de gratidão é um passo decisivo em direção à esperança... As energias parecem refluir dentro de nós, na medida em que a pulsão de morte regride e a nossa libido nos invade novamente. Sim agora sabemos que, apesar de tudo, podemos dar vida a algo dentro e fora de nós. Não precisa ser algo grande, pode ser algo pequeno, algo simples: um sorriso, um gesto de atenção, cuidar de algo que nos foi confiado. Winnicott apontava para a importância do ato de brincar. Saber brincar é muito importante. Brincar a vida é uma arte.

O segredo é habitar o nosso presente, acolhendo aos poucos nosso passado, abrindo as portas da esperança para o nosso futuro. Isto nos permite gritar "la vita é bella"; transformar um campo de concentração numa experiência cheia de vida e de amor. Estamos juntos nessa caminhada, pois viver é uma arte!

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