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O silêncio que fala

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Sempre tenho inveja daquelas que sabem o momento exato de falar ou silenciar. É uma sabedoria que se aprende com a vida ou é um dom?

O silêncio que fala

O silêncio é uma forma de comunicação, no entanto, investidos pelo tagarelar constante de uma enxurrada de sons, imagens, palavras ou avisos sonoros, anunciando mensagens, somos tentados de considerar o silêncio como algo aversivo, falta de comunicação.

O silêncio do analista, quando alguém inicia uma terapia, costuma ser embaraçoso, difícil e até hostil. O analista, no entanto, se cala para que a dupla, analista e analisando, possa escutar o inconsciente se revelando, na fala ou no silêncio do analisando.

Há um silêncio pleno e um silêncio vazio. O silêncio vazio é aquele que estabelece uma assimetria entre quem fala e quem escuta. Pode resultar em um olhar arrogante, que diminui o outro, ou em um olhar desatento, que não escuta e aniquila o outro. Há também o silêncio indevido, que se cala por covardia, para não pontuar algo que deveria ser pontuado.

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Lições da (minha) história

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Lições da (minha) história

Em Agosto de 1969 chegava ao centro de Praga. As ruas da cidade estavam tomadas pelos tanques russos. O Exército Vermelho tinha invadido a Tchecoslováquia para dissuadir qualquer reivindicação de liberdade.

O movimento libertário encabeçado por estudantes e intelectuais, descrito no romance   A insustentável leveza do ser (que mais tarde inspirou o filme homônimo), culminou com o sacrifício do estudante Jan Palak, que, um ano antes, tinha atado fogo ao seu corpo na principal praça da cidade em protesto contra a invasão.

O primeiro impacto foi na fronteira (a Tchecoslováquia estava na época além da Cortina de Ferro). Um enorme tanque apontava o seu canhão para o meu carro, enquanto os soldados russos revistavam o seu interior. Uma vez em Praga, o primeiro a me abordar foi um policial tcheco que me repreendeu por ter estacionado em um lugar “reservado aos membros do partido”. Foi uma decepção.

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Manifestações, Movimentos Sociais e Redes Sociais

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Manifestações, Movimentos Sociais e Redes Sociais

Um ano atrás, escrevi um artigo comentando as primeiras manifestações de massa convocadas pelas Redes Sociais (cf. Manifestantes em busca de uma causa). O que caracterizou o início do movimento popular foi uma forma de apartidarismo, uma espécie de agnosticismo político, baseado na constatação que nenhum setor institucionalizado da sociedade (congresso, câmaras municipais, partidos e governo em suas diferentes instâncias) de fato representa os interesses dos cidadãos.

Como o artigo previa, as manifestações acabaram adquirindo um caráter cada vez mais violento, mas essa não foi a única transformação do movimento. Um ano depois, os Movimentos Sociais tomaram conta das ruas, substituindo a massa popular, que se afastou diante dos crescentes atos de vandalismo e de depredação que deram às manifestações um caráter cada vez mais violento e arbitrário.

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Copa: pertencer para vencer

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Copa: pertencer para vencer

Trinta-e-dois países estão disputando a Copa do Mundo de Futebol. O primeiro jogo do Brasil será com a Croácia. Dois times, duas nações e, atrás deles dois povos. Os croatas sobreviveram a uma guerra marcada pelo genocídio e pela barbárie. São um povo que está tentando esquecer o sangue derramado e os anos difíceis, durante os quais lutaram para sobreviver e se constituir como nação. Hoje têm orgulho de ser croatas e a copa é para eles uma ocasião de se unir em torno de sua identidade nacional, de sua bandeira e dizer para o mundo que são um povo, uma grande “torcida”, palavra que importaram do português, inspirados nas grandes torcidas do futebol brasileiro. Provavelmente não ganharão a Copa, mas sairão com o orgulho de tê-la disputado como nação.

Do outro lado do campo, o “gigante pela própria natureza”, hoje um Golias irritado e cambaleante.

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As sementes do mal

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As sementes do mal

“Os homens não são criaturas gentis que desejam ser amadas e que, no máximo, podem defender-se quando atacadas, pelo contrário, são criaturas entre cujos dotes constitutivos deve-se levar em conta uma poderosa quota de agressividade”. É o que Freud constata, com seu habitual pragmatismo, em O mal-estar da civilização: Infelizmente fatos recentes como o linchamento de uma mãe de família de 33 anos por parte de um bando enfurecido confirma que, mais uma vez, o pai da Psicanálise tinha razão.

Se o linchamento de um inocente é a expressão mais gritante desse lado perverso do humano, outras manifestações não menos preocupantes ocupam as manchetes dos jornais diariamente, com o perigo de tornar banal a presença do mal no nosso convívio social: um fenômeno próximo daquele apontado por Annah Arendt no seu ensaio sobre a banalidade do mal, comentando o Holocausto Nazista.

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A escolha de uma religião

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Meu filho não gosta de Igreja. Tem 15 anos e não consigo leva-lo na missa. Devo deixar que as escolhas sejam livres, ou devo insistir? Ana Cláudia, Porto Ferreira (SP)

A escolha de uma religião

A escolha religiosa é um ato pessoal que em hipótese nenhuma pode ser imposto, pois supõe uma adesão que envolve os estratos mais profundos da personalidade, sendo uma das expressões do próprio Self.

O que caracteriza a insensatez de todo tipo de fundamentalismo é a pretensão de impor uma determinada religião, apresentada como sendo a única válida, dando a quem a ela adere o direito de se sentir “diferenciado” em relação aos seus pares que vivem na escuridão. Isto quando não inculca o ódio pelos que pertencem a outros credos, como comprovam as barbáries cometidas na Síria recentemente. Se isso é insensato para qualquer credo religioso, é particularmente insensato para quem se diz cristão, pois o cristianismo prega o amor pelos “inimigos”, inclusive para os que não são cristãos, mesmo que a história do cristianismo, infelizmente, nem sempre comprove essa atitude.

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Os “Rolezinhos”: uma leitura

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“Rolezinhos”: uma análise do fenômeno

Os Shoppings Centers são uma das passarelas onde são exibidos os ícones alvo das aspirações de consumo de todas as classes sociais.

Se participar do cortejo dos bem-sucedidos tornou-se um imperativo da nova economia psíquica, inspirada no apelo ao gozo sem fim (cf. Melman & Lebrun, O homem sem gravidade), não surpreende que os jovens da periferia queiram ter acesso a esse mundo glamoroso.

Uma expressão desse fenômeno é o Funk, um gênero musical típico da periferia, marcado pela passagem do Funk “bandido”, que exaltava a marginalidade como lugar de protesto e de diferenciação, para o Funk “ostentação”, cujos ícones são os MCs endinheirados, expressão do gozo do consumo desmedido dos produtos de grife. Mas por que marcar encontro pelas redes sociais para que milhares de pessoas possam “ocupar” um espaço até então reservado a um público mais seleto que justamente ali se refugia para fugir da “ralé”?

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Sentimento oceânico e religião

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As vezes não creio em Deus, nem no demônio, nem no céu, nem no inferno, nem no pecado (...). O pior resultado disso é querer crer e não conseguir. Existe alguma maneira de se direcionar? (Anônimo)

 

Sentimento oceânico e religião

 No fim de sua vida, sofrendo de câncer, Freud escreve alguns textos que abordam fenômenos sociais em sua expressão religiosa (O futuro de uma ilusão de 1927), e em sua dimensão cultural (O mal-estar da civilização de 1930).

Neste último texto, respondendo às objeções do amigo Romain Rolland ao seu ensaio sobre a religião, Freud descreve o que Rolland chama de sentimento oceânico e tenta associar a experiência religiosa a um fenômeno que tem sua raiz em um sentimento primitivo da psique.

Freud reconhece que existe no psiquismo uma experiência primitiva ligada ao fato que o ser humano nasce sem conseguir se diferenciar psiquicamente do ambiente, se sentindo um todo com o mundo externo. A memória da experiência do todo, estaria relacionada a esse sentimento primitivo, oceânico.

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Política não é jogo de futebol

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Política não é jogo de futebol

No seu famoso texto “O mal-estar da civilização” Freud busca entender o que dá sentido à existência humana. Poder, sucesso e riqueza parecem ser os fatores que mais motivam o ser humano e que mais ele admira nos outros em sua incansável busca por prazer e felicidade. No entanto, três fatores frustram essa busca: o poder aversivo da natureza, as limitações do próprio corpo e o convívio social, que regula e inibe os desejos individuais (Freud se refere aos padrões civilizatórios e às leis). É aqui que entra a questão da pólis, entendida como lugar onde o convívio social se materializa e se torna possível, como elemento regulador dos desejos individuais.

A vida humana em comum – afirma Freud – só se torna possível quando se reúne uma maioria mais forte do que qualquer indivíduo isolado e que permanece unida contra todos os indivíduos isolados”, inibindo sua liberdade de ação. Este é um ponto fundamental para que possamos encarar a política como expressão dessa maioria e não apenas como um jogo de futebol, onde cada um defende as cores de sua camisa.

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Em busca da esperança: o Lógos Spermaticós

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Sinto dificuldade em ter esperança diante desse conturbado panorama mundial. É ingenuidade ainda querer ter esperança?

Em busca da esperança: o Lógos Spermaticós

Não, não é ingenuidade. A esperança nos move e permite que possamos ainda “sonhar”.

A história da humanidade sempre foi marcada por movimentos cíclicos alternando períodos de relativa paz e prosperidade com períodos de crise, marcados por guerras, epidemias, dificuldades econômicas e grandes catástrofes naturais. As barbáries nunca deixaram de assolar o cenário humano, com maior ou menor intensidade, deixando os mais indefesos á mercê da violência dos mais fortes.

Há contudo algo novo, que torna mais difícil lidar com essa realidade nos dias de hoje. Trata-se da explosão dos meios de comunicação e da velocidade com a qual as notícias circulam e se multiplicam através de diferentes canais. Se um massacre ocorre na Síria, as imagens percorrem o mundo em poucas horas.

Lidar com esse bombardeio de estímulos audiovisuais é certamente difícil do ponto de vista psíquico. A massa de informações é tão grande que fica difícil processá-las sem ser tomados por um sentimento de depressão.

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