Insights

Insights (32)

Realidade, mas qual realidade? Destaque

Realidade, mas qual realidade?

por

Uma das coisas que mais me fascinam como psicanalista é perceber o quanto a ilusão de enxergar a Realidade nos domina e captura nossas vidas e a forma como nos relacionamos com o mundo. O problema é que a Realidade está sempre ali, nos desafiando, se impondo a nós como um corpo estranho e impenet6rável (Heidegger e Lacan chegaram a descrevê-la como a Coisa), questionando nossa percepção e a organização do nosso pensar.

 

Um exemplo disso é essa “Coisa” que denominamos de crise. Afinal o que está acontecendo? Nosso país perdeu definitivamente o rumo? Devemos nos mudar daqui? Mas ir para onde? Ir para o sonho americano trumpiano, ou então ir para a velha Europa, onde muitos europeus estão procurando uma “Exit” porque também estão insatisfeitos e achando que o atual modelo não se sustenta? Haveria ainda opções mais radicais a favor de uma Realidade que alguns alegam enxergar com absoluta clareza, mas essas opções vamos deixar para o EI e para os fundamentalistas de todo tipo.

 

Poxa, a Realidade tinha acabado de se manifestar com clareza para os “coxinhas”: os petistas são o grande problema do nosso país. Finalmente enxergamos a “realidade”, uma realidade da qual sempre desconfiamos, pois afinal somos mais instruídos, mais competentes, menos “tapados” do que “eles”. O problema é que “os petistas” estão olhando para a mesma “Coisa” e enxergando algo completamente diferente.  Estaríamos de fato às voltas com um grande complô da direita? Tudo é mentira e a realidade na qual sempre acreditamos é de fato a Realidade, pois nós somos , mais evoluídos e articulados? Ambos concluem irritados: a Realidade é o que nós enxergamos e não venham querendo questioná-la!

 

Isso é nada mais do que o reflexo de outra grande realidade que se impôs no século passado: o socialismo marxista como grande alternativa ao capitalismo neoliberal.  Ambos hoje estão colapsados. Afinal o que é Real? Onde está essa Coisa que chamamos de Realidade? Além disso, de acordo com esses loucos da Física Quântica, nem a própria matéria, na sua dimensão infinitesimal é livre do benefício de se transformar conforme o “observador”...

 

Tudo isso sugere a necessidade de suportar a “turbulência emocional” á qual se referia Bion, apontando-a como pré-condição do pensamento. Parece que a “escuta flutuante” do Real não é apenas reservada ao psicanalista, mas a todos aqueles que querem escutar o respirar da vida.

 

Leia mais ...
Trindade: um mistério que faz muito sentido Destaque

Trindade: um mistério que faz muito sentido

por

Uma das construções teológicas que chamam a atenção no âmbito do cristianismo é a que diz respeito à concepção “polêmica” sobre a noção de Deus e, portanto, sobre a maneira de conceber a “transcendência”. Trata-se de uma formulação “polêmica” não apenas porque representa uma aparente ruptura com um dos conceitos mais fortes do judaísmo -- a noção da unicidade absoluta de Deus -- do qual o cristianismo traz suas origens, mas também porque representou, no âmbito do próprio cristianismo, uma construção que levou alguns séculos para se firmar em sua formulação teológica e que continua bastante obscura e paradoxal, a ponto de ser definida como um “mistério”.

Estou falando da SS. Trindade. Para o cristão Deus continua um ser único (única substância), como no judaísmo, embora ele seja representado como uma substância que se manifesta e se articula em um dinamismo trinitário: três “pessoas”, representadas de forma antropomórfica como Pai, Filho (o Verbo) e Espírito.

Embora essa formulação -- que diz respeito ao Ser no estado mais puro e transcendente --  pareça ser estranha e paradoxal, do ponto de vista psíquico tem uma relação com a própria formação do psiquismo e com a sua dinâmica interna.

Ao introduzir uma dinâmica dialógica no próprio âmago do Ser, o cristianismo permite entender por que o ser humano precisa de outro ser humano para se constituir como tal. O paradoxo, contudo, existe também do ponto de vista psíquico e não apenas teológico. Podemos de fato dizer que o ser humana nasce se percebendo como uma mônada e é nesse fechamento narcísico que ele se constitui no ser. A mônada é contudo apenas uma ilusão, pois na realidade o ser humano pode se perceber como existente se ele se reconhece como existente no rosto da mãe. É a interação com a mãe que determina psiquicamente o seu “emergir” no ser. Na medida em que o ser humano se abre para o mundo, uma vez que se percebeu como existente, se depara com o outro que “limita” e com o qual ele deve aprender a dialogar, como algo que existe fora dele e independentemente dele.

O processo de maturação do ser humano supõe que ele possa sair desse fechamento narcísico para aceitar a “limitação” que o outro lhe impõe e é na dinâmica dessa articulação do seu ser com o ser do outro que ele pode viver de forma mais plena.

 

Leia mais ...
No limiar da esperança Destaque

No limiar da esperança

por

Em entrevista publicada pela revista Isto é, o ator e dramaturgo Juca Oliveira comenta a atual situação do Brasil. Na sua leitura, um momento político acabou, o que nos leva para um novo momento “para salvarmos o País”. Ao ser perguntado sobre como imagina esse “novo momento” responde: “Não tenho ideia. Mas acho que vai nascer”.

Creio que nesse sentido o ator se faz porta-voz de uma sensação generalizada: ama “era” acabou e, ao mesmo tempo de uma “esperança”: outra está por vir. Como Juca de Oliveira, a maioria saudável da população fica sem saber que contornos dar a esse “sonho”, embora existam indícios, como ele sugere, esboçados pela ação do judiciário: todos devem se submeter à lei que rege o funcionamento das instituições deste país, não importa o cargo que ocupem.

Leia mais ...
Luto pelo Brasil Destaque

Luto pelo Brasil

por

Ele está lá, estendido, diante de uma multidão pesarosa. Um velório silencioso. Depois da revolta, da negação, da incredulidade, agora a multidão está em silêncio, ainda incapaz de se conformar com o inesperado, de aceitar a perda.

Estamos vivendo um processo coletivo de luto. Luto por um Brasil mais justo e mais solidário, movido por ideais maiores, finalmente decidido a sair de décadas de obscurantismo político e social. Boa parte da população vibrou celebrando a ascensão ao poder de um partido que se apresentava como o defensor de uma utopia, voltada para os interesses dos excluídos, que deixaria de estar à serviço dos poderosos e dos endinheirados.

Durante alguns anos o Brasil parecia diferente, mais saudável. Infelizmente a doença que o levaria à morte já estava instalada. A saúde era aparente. Os sintomas da doença crônica não tinham sumido, ao contrário foram se revelando com mais com força. Antigos inimigos tornaram=se aliados, práticas e discursos condenados, começaram a ser retomados.

Leia mais ...
Os refugiados: pessoas reais, problema real Destaque

Os refugiados: pessoas reais, problema real

por

No plano coletivo, como no plano pessoal, a mente humana tem certa dificuldade para entender que as representações da realidade são apenas representações e não a realidade em si. No caso de um problema tão complexo como aquele dos refugiados, que está ganhando cada vez mais destaque nos noticiários nacionais e internacionais, é ainda mais difícil saber o que de fato pode ser uma representação aproximada do Real,

O refugiado com o qual o europeu entra em contato é aquele que vê na rua, vendendo bugigangas ou vivendo de artifícios, formando pequenos grupos que à noite se reúnem em algum ponto da cidade para conversar em seu idioma, na tentativa de manter o contato com suas raízes. Quanto ao resto, o migrante é aquele que é representado na mídia: em geral um “problema” para a estabilidade social e cultural de uma Europa que lutou por anos para se reconstruir das ruinas da guerra e alcançar o bem-estar e o equilíbrio social. Mas frequentemente ele é também uma “ameaça” para a estabilidade econômica, social e para a identidade cultural do país no qual ele se instala. Violência, exploração, prostituição, comércio das drogas, máfias importadas e a própria ameaça do terrorismo e do radicalismo islâmico são alguns dos aspectos mais alarmantes da presença desses corpos estranhos no seio da sociedade.

Leia mais ...
Uma desesperada busca pela verdade Destaque

Uma desesperada busca pela verdade

por

Assim como o filósofo grego Diógenes (IV séc AC) é representado andando pelas ruas com uma lamparina em busca do homem honesto, o homem contemporâneo pode ser representado como quem anda com uma lamparina em busca da verdade. Não é que faltem “verdades”, aliás, o problema é o oposto: sobram verdades. Cada um tem a sua.

Temos exemplos gritantes desse fenômeno no cenário político, religioso, ou no futebol, onde encontramos dedicados defensores desta ou daquela “verdade”, devidamente uniformizados, vestindo uma camisa de determinada cor, alguns deles até dispostos a matar um se for necessário para provar a força dos seus “argumentos”.

Leia mais ...
O dom precioso da amizade Destaque

O dom precioso da amizade

por

Sou uma pessoa que valorizo muito as minhas amizades, sempre estou presente, faço de tudo para agradá-los. Mas observo que muitos dos meus amigos não retribuem à altura essa amizade. Algumas vezes me sinto esquecida. Será que espero muito deles ou realmente tenho amigos que não se importam? (Soraia Pimentel – Brasília – DF)

A verdadeira amizade é rara: “Quem encontra um amigo encontra um tesouro” diz a sabedoria popular. O mal-entendido surge no uso abusivo que fazemos da palavra amigo. Como ocorre com as pedras preciosas, existem inúmeras imitações baratas.

Ao favorecer a aproximação entre as pessoas, o mundo virtual e em especial as mídias sociais podem induzir ao erro ao transformar colegas, conhecidos, conhecidos dos conhecidos, ou até bajuladores e curiosos em “amigos”. Embora faça bem ao Ego descobrir que temos centenas de “amigos” no Facebook, isto evidentemente não reflete a realidade. É nos momentos difíceis, quando gostaríamos de uma palavra amiga, de alguém disposto a nos ouvir, ou simplesmente de um abraço, que a realidade se abre caminho, mostrando que muitas relações são efêmeras.

Leia mais ...
Os novos Talibãs Destaque

Os novos Talibãs

por

Por que alguns movimentos religiosos, inclusive da igreja católica, têm gerado jovens agressivos quando são contrariados? (Josefa Cunha - São Paulo)

É fácil perceber que quem defende com arrogância e agressividade a sua religião, que na maioria dos casos prega o respeito do próximo e a tolerância, não está defendendo a religião e sim a si mesmo de algum fantasma interno que o persegue. Infelizmente a história está permeada de exemplos em que os representantes dessa ou daquela religião se armaram para agredir os que não compartilhavam suas crenças.

Leia mais ...

Pertencimento: o difícil caminho da esperança

por

O cenário atual proporciona numerosas razões para a desesperança. O pipocar de escândalos no cenário político mostra um total descaso com o país não somente por parte dos políticos, mas também por parte de amplos setores privados, empenhados em ganhar dinheiro a qualquer custo. Resquício de uma mentalidade colonial, totalmente anacrônica e sem sentido, a relação com o país por parte de parcelas significativas das elites políticas e econômicas é essencialmente predatória. É raro encontrar sinais de “pertencimento”, que apontem para uma preocupação com o bem comum e a sustentabilidade do país como um todo.

Leia mais ...

Não é fácil ser um político

por

Na Rússia, o principal oponente do presidente é assassinado, mas este nega qualquer envolvimento com o crime. Um procurador que acusava a presidente da Argentina aparece morto. Em um primeiro momento nega-se que ele tenha sido assassinado (já que não se pode negar que esteja morto) e a presidente acaba sendo sumariamente absolvida pela justiça das acusações que poderiam envolvê-la com o assassinato.

No Brasil, os efeitos desastrosos do escândalo da Petrobrás se alastram, criando um rombo cada vez maior no barco já instável da nação. Enquanto isso, a real dimensão econômica, política e ética do problema é minimizada, contradizendo o que a realidade teimosamente insiste em mostrar. Ninguém sabia de nada, a não ser os “delatores premiados” e alguns políticos e empresários desavisados.

Leia mais ...
Assinar este feed RSS

Log in

fb iconFazer login com Facebook
Criar uma conta