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Transtorno de atenção e hiperatividade (DDAH)

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Gostaria de saber como devo agir com a desconcentração de crianças e mesmo

de adultos. Existe algum tipo de exercício que eu possa trabalhar com uma

criança de 12 anos e também com adultos? Maria do Carmo, Guaratinguetá (SP).

 

Transtorno de atenção e hiperatividade

 

De maneira geral, podemos dizer que o ser humano somente faz bem aquilo que ele faz com prazer ou por necessidade imperiosa (algo que é sentido pelo inc,onsciente como necessário à sua subsistência psíquica ou física, ou à subsistência de alguém que ele ama).

A “desconcentração” pode ser devida de forma genérica à falta de motivação para determinadas tarefas que são percebidas pela mente como não “prazerosas” ou não “necessárias”.

Naturalmente, nem sempre tarefas que conscientemente são consideradas necessárias, são assumidas como tais pelo inconsciente. Neste caso, apesar de todos os esforços que a pessoa faz, mecanismos inconscientes impedem que ela consiga se fixar naquilo que pretende fazer.

Portanto, a primeira pergunta que devemos nos pôr diante da falta de concentração e de atenção é se quem faz determinada coisa quer realmente fazê-la, se está motivado.

A falta de concentração para determinadas tarefas, contudo, pode ser também devida a um “ataque” inconsciente à própria tarefa ou a quem a propõe ou até a si mesmo (auto-sabotagem).

Se os distúrbios que envolvem a atenção são mais generalizados e constantes (não limitados apenas a algumas tarefas), podemos estar na presença do Transtorno de Atenção e Hiperatividade o TDAH, que afeta entre 3,5% e 5,8% da população mundial (cf. o artigo publicado nesta coluna sobre criança hiperativa).

A “atenção” é comandada em nossa mente por dois sistemas neurais envolvendo o hemisfério esquerdo  do cérebro (atenção anterior) e o hemisfério direito (atenção posterior).

O primeiro sistema nos ajuda a focar a atenção em determinada tarefa; o segundo faz com que a atenção mantenha um controle geral sobre o contexto para eventualmente responder a estímulos que exijam a mudança de prioridade (algum estímulo que exige mais atenção do que aquilo que estamos fazendo).

As informações dos dois sistemas neurais convergem  no chamado “verme do cérebro” para, uma vez integradas, serem encaminhadas para a região pré-frontal onde se processa a seleção da resposta a ser dada.

Os sintomas da TDAH costumam se revelar na infância ou na adolescência, mas podem permanecer na idade adulta. Os portadores da síndrome estudados apresentam alterações cerebrais pré-frontais e também assimetria estruturais entre o hemisfério esquerdo e direito. Isto parece apontar para uma base fisiopatológica da síndrome.

Quando há suspeita de TDAH, é bom consultar um psiquiatra, pois provavelmente será necessário o recurso à medicação para corrigir o funcionamento cerebral.

A terapia cognitivo-comportamental também pode ser indicada, como complemento do tratamento psiquiátrico. A psicoterapia pode também ser necessária para ajudar a auto-estima desses pacientes, freqüentemente prejudicados  pelas constantes recriminações diante de seu comportamento percebido pelos outros como inadequado e “preguiçoso”. {jcomments on}

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BBB: o fim de uma fórmula?

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BBB: audiência em queda

 Estava lendo hoje essa notícia, divulgada em um dos maiores sites da Internet. Como não assisto ao programa, fiquei curioso de saber que ingrediente estaria faltando na décima primeira edição do BB brasileiro. Pelo visto os produtores capricharam na escolha da equipe, com a inclusão de situações que prometiam gerar bastante polêmica. Desta vez além de dois homossexuais, havia também um transexual operado, um homem que assumiu sua condição psíquica de mulher.

Não quero escrever mais um artigo criticando esse tipo de espetáculo. Apenas estou curioso, como psicanalista, de ler o que está por trás dessa queda de interesse por um dos programas que costumavam ser campeões de audiência.

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Duvido portanto existo

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As dúvidas, muitas vezes geram reações de pânico por pensarmos apenas no lado negativo delas. Até que ponto ter dúvidas pode ajudar o ser humano a viver melhor?

Duvido, portanto existo...

 

{jcomments on}A sabedoria popular diz que somente os burros nunca duvidam. Duvidar parece ser essencial para o exercício do pensamento. Isto nos leva a supor que, via de regra, o processo que nos leva a duvidar é necessário e absolutamente normal. No entanto, como na maioria dos casos que envolvem os processos psíquicos, tudo depende da intensidade e da frequência com a qual a dúvida se instala em nossa mente e da forma como o psiquismo reage diante dela.

O processo de pensar nos leva a “processar” mentalmente os estímulos que surgem tanto a partir do nosso mundo interno (sentimentos, afetos, memórias, inibições, etc.), como a partir da realidade externa que envolve situações, pessoas, notícias, variações ambientais de todo tipo, etc. Cabe à nossa mente processar as informações que se apresentam de forma confusa e, muitas vezes conflitante, para que possamos nos situar diante de nós mesmos, dos outros e do mundo como um todo.

A dúvida se instala justamente a partir do conflito que a mente vive e que impede o fluir harmonioso do processo de “pensar”. É como se o nosso psiquismo se deparasse com um cruzamento, cheio de placas indicadoras, cujo sentido é confuso e contraditório. Se uma placa aponta para o nosso destino, outra diz que logo à frente, nessa direção, vamos nos defrontar com uma barreira ou uma ponte caída. Seguindo pelo lado oposto a sensação do viajante é que ele se desviaria do caminho e acabaria se perdendo.

Nesta situação paradoxal, o nosso psiquismo fica parado diante do cruzamento, sem poder seguir sua viagem (ou seja o fluxo do pensamento), angustiado e irritado pelas buzinas da vida (cobranças externas e internas para fazer isso ou aquilo) que o compelem a prosseguir, independentemente de suas dúvidas. Parar no acostamento parece ser a única solução, embora isso seja percebido como algo que nos atrasa, sem contar o risco de que as rodas do nosso psiquismo fiquem presas no terreno barrento da paralisia.

A analogia nos permite entender o quanto a dúvida seja angustiante, pois ela introduz na nossa mente uma sensação de confusão e paralisa o nosso pensamento que começa a andar em círculos voltando sempre ao ponto de partida, sem possibilidades de avanço.

Mas em que sentido então a dúvida é necessária? Ao introduzir aquilo que o psicanalista inglês Bion chamava de turbulência emocional, a dúvida, se devidamente “suportada” pela mente no seu caráter frustrante, gera a possibilidade de uma nova concepção das coisas. Ao desconstruir os caminhos conhecidos, ela inaugura a possibilidade de ousar o desconhecido. Ao suportar o impacto frustrante da realidade, percebida como algo totalmente “diferente”, “fora” do nosso alcance, a mente se abre para o tateamento necessário para a descoberta de novos caminhos. Neste caso o pensamento não se interrompe, mas transforma os pensamentos que não podem ser pensados em algo pensável.

Vamos fazer um exemplo. Um rapaz gosta de uma moça, mas está em dúvida se deve ou não casar com ela. Inicialmente as placas indicadoras sinalizam apenas dois caminhos, “casar” ou “não casar”. A dúvida é angustiante, o rapaz não sabe o que fazer, A namorada o pressiona para se decidir, ameaçando abandoná-lo. Algo dentro dele o pressiona a não precipitar as coisas, embora ele goste da moça e não queira perdê-la.

Escutando a si mesmo ele decide suportar as pressões e “espera”, acolhendo a sua dúvida. Aos poucos, ele percebe que o problema não é casar ou não casar. O que o segura é a percepção de sua imaturidade; Ele precisa se aprimorar profissionalmente e humanamente e então casar com a moça caso ela decida esperá-lo. Surge um novo caminho, que, inicialmente, ele não tinha pensado. Caberá agora à moça acolher a sua decisão e demonstrar até que ponto vai o seu amor.

Naturalmente a dúvida somente é saudável quando se apresenta de vez em quando, de tal forma que o psiquismo consiga suportar o mal-estar que ela causa. Quando se torna um estado permanente no qual a mente se debate, aprisionando o psiquismo em uma sensação de paralisia, estamos diante de uma situação patológica.

A paralisia psíquica é caracterizada por uma situação em que o nosso pensar não consegue pensar nada. Todos os caminhos tentados são sistematicamente atacados e destruídos, fazendo com que o pensamento ande em círculos e condenando assim a pessoa a uma situação de angústia constante.

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A patologia do corpo ideal

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{jcomments on}Com a morte recente de uma modelo, vitima da anorexia, a doença voltou a ser destaque. O meio em que a pessoa vive, pode realmente originar um distúrbio tão grave como esse? No caso das modelos, a moda pode ser culpada? Maria Carolina, do Rio de Janeiro

A patologia do corpo ideal

 

Jovem e bonita, com um corpo de fazer inveja à maioria das mulheres, Ana Carolina  morreu porque se achava gorda e já não via futuro para a sua carreira de modelo no competitivo mundo da moda. Podemos dizer que morreu de fome, na tentativa de chegar ao “corpo ideal”, o corpo que o mundo da moda tomou como padrão de elegância e “beleza” feminina. Trata-se de um objeto de consumo e, portanto, de um objeto de desejo de muitas mulheres. Uma poderosa indústria se movimenta por trás desse “sonho” vendido por revistas, outdoors, comerciais de marcas famosas e pela mídia em geral. Um multiplicar-se de academias e produtos de todo tipo estão voltados para a “construção” do corpo ideal.

Embora esse contexto direcione o comportamento das pessoas, a influência somente é possível se houver por trás uma estrutura psíquica que lhe dê sustentação. É necessário que a pessoa “deseje” ter um corpo mais bonito para que ela possa se submeter aos “sacrifícios” que isso exige. É bastante comum observar, em uma determinada fase da terapia, que o paciente começa a cuidar mais de si mesmo, de sua maneira de vestir e do seu próprio corpo. Este é um movimento saudável, de apropriação do corpo e uma nova abertura para a possibilidade de cuidar de si mesmo.

Se este movimento é saudável e de certa forma desejável, o mesmo movimento pode ser patológico se não se origina de um desejo interno da pessoa e sim de um desejo comprado como se fosse próprio. A anorexia e a bulimia estão relacionadas a esse tipo de patologia e estão relacionadas à relação negativa que o indivíduo tem com o próprio corpo e, em última análise, consigo mesmo. 

A novela da TV Globo “Páginas da vida”, ao abordar esse tipo de problema, nos oferece uma pista para compreender os processos inconscientes que estão por trás desse tipo de distúrbio, sobretudo porque nos permite reconstruir um histórico de como a doença surgiu. Desde a infância, Giselle, hoje adolescente, teve que lidar com uma mãe ansiosa e invasiva, obsessivamente preocupada com a alimentação e com o “corpo” da filha, que tendia a ser “gordinha”. Por trás dessa preocupação estava um “sonho” frustrado. A mãe sempre quis praticar balé clássico. Como não conseguiu realizar seu sonho, resolveu “vende-lo” para filha, projetando nela seus  desejos.

A novela não nos permitiu acompanhar os primeiros cuidados de Giselle, mas é fácil induzir o quanto devam ter sido marcados por rotinas impostas pela ansiedade da mãe  e não pelas necessidades do bebê. Enfim, a filha nunca se sentiu “enxergada” pela mãe pelo que ela é. A única filha que a mãe via era uma projeção dos seus desejos e não a verdadeira Giselle.

A necessidade de não se alimentar e de vomitar o que foi ingerido, surge de dois problemas internos. Em primeiro lugar Giselle não consegue gostar do próprio corpo, que, evidentemente,.não é aquele de uma dançarina de balé clássico. Embora seja bonita e não seja gorda, sua complexão física não é do tipo longilíneo, suas formas são arredondadas. O fato é que o corpo de Giselle não é o corpo que a mãe deseja para ela. É como se, ao espelhar-se na mãe, ela visse outra Giselle, com outro corpo, diferente do dela, sempre percebido como “inadequado”. De nada vale agora que é adolescente perceber que um menino gosta dela e a própria mãe dizer que não é gorda. O inconsciente continua ouvindo a fala da mãe “interna”, separada da mãe real. A mensagem continuará prevalecendo, até que a própria Giselle se dê conta disso e consiga “se separar” da mãe interna, provavelmente tomando também maior distância da mãe real

A segunda razão é que essa mãe que a alimentou nos primeiros meses de vida é tão “indigesta”, que deve ser “vomitada”. Tudo o que é “ingerido” pela menina tanto fisicamente como psiquicamente deve ser expelido, porque é percebido como aversivo, não “bom”. Provavelmente, o vínculo que ela está estabelecendo com o terapeuta a ajudará a perceber que há alimentos bons que podem ser ingeridos e a reverter esse processo inconsciente.

Enfim todos torcemos pela Giselle e pelas inúmeras “Giselle” da vida, empenhadas nessa luta.

 

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Bipolaridade e transtorno bipolar

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{jcomments on}Ouvi tempos atrás que uma pessoa estava sofrendo de transtorno afetivo bipolar. Trata-se de uma doença? Como este transtorno se manifesta? Maria das Dores, Vale do Paraíba (SP).

Bipolaridade: sinal da ambivalência do psiquismo

 

“Transtorno bipolar” é uma designação genérica para indicar diferentes estados psíquicos marcados pela ambivalência. As oscilações podem envolver estados afetivos (amor/ódio), emocionais (depressão/exaltação), volitivos (querer/não querer), e intelectuais (saber/não saber; negar/afirmar a mesma coisa ao mesmo tempo).

Na realidade o psiquismo, em seu funcionamento normal se apresenta como “bipolar”, pois oscila entre a necessidade de se fechar em si (mundo interno) e de ir em busca de objetos fora de si (mundo externo).

Na criança a bipolaridade se manifesta com maior intensidade e é observável em uma certa volubilidade de comportamento. O ser humano de fato nasce com uma conformação psíquica narcísica, que tem características psicóticas (poderíamos dizer que o bebê grosso modo nasce “louco”), para, aos poucos, com a ajuda da mãe e do meio que o recebe, se abrir para a realidade externa.

No adulto, se tudo correr bem, se estabelece, entre esses estados opostos do psiquismo, uma harmonia que permite um maior equilíbrio emocional, afetivo, volitivo e intelectual. Quanto mais uma pessoa é equilibrada, tanto mais é considerada madura.

O termo transtorno bipolar é usado de maneira genérica para indicar síndromes de diferente tipo que podem ser mais ou menos graves. A bipolaridade de fato se apresenta tanto em casos de neuroses obsessivas, como em casos chamados limítrofes (borderline, ou seja, no limiar entre a neurose e a psicose), nas próprias psicoses maníaco-depressivas e na esquizofrenia.

No neurótico “normal”, a mente reprime no inconsciente os núcleos emocionais e afetivos de caráter psicótico ligados ao mundo interno, por considera-los “inadequados” para lidar com o mundo externo (agressividade, ódio, idéias persecutórias e obsessivas, desejos demasiadamente intensos e inaceitáveis, etc.).

No psicótico, ao contrário, esses núcleos não podem ser controlados e aparecem de forma muito intensa, cindindo 9separando0 a mente em personalidades múltiplas (esquizofrenia), em estados emocionais opostos (depressão e exaltação maníaca), ou em comportamentos compulsivos que são negados pelo intelecto, mas que não conseguem ser evitados pela vontade.

As oscilações afetam o comportamento da pessoa, seus estados afetivos, sua maneira de “sentir” os outros e até a maneira como o mundo externo é percebido.

O bom-humor se transforma em mau-humor sem motivos aparentes. Ao entusiasmo se alterna um profundo desânimo. Gestos afetuosos e carinhosos se transformam em ataques de raiva muito intensos e aparentemente desmotivados. Algo que antes era negado, agora é afirmado om força. Algo considerado nocivo em um primeiro momento a seguir é perseguido de forma compulsiva.

É fácil perceber que esse tipo de funcionamento psíquico provoca um grande desconforto pessoal e problemas no convívio com os outros. É portanto necessário que seja devidamente tratado mediante uma terapia e, nos casos mais graves, com um tratamento psiquiátrico, com uso de medicação adequada.

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Devemos falar sobre a morte com quem está morrendo?

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Na minha família, há uma pessoa que está com uma doença que com certeza o levará à morte. Os médicos já avisaram a família sobre isso. Contudo, meus parentes estão discutindo se o doente deve ou não saber. Alguns acham que a notícia da morte poderia causar mais transtorno para o paciente. Outros, contudo, acham que é direito dele de saber. Sinceramente, estou em dúvida. Psicologicamente seria bom para ele falar sobre isso? Não pioraria o estado? — Parente desesperado do interior do Paraná

 

Devemos dizer para o doente que está morrendo

 

A morte não é apenas uma fatalidade, um acaso inesperado, mas está inscrita na própria essência da vida. Um famoso filósofo alemão, Heidegger, dizia, que o ser humano pode ser caracterizado como “ser para a morte”. A morte de fato percorre a existência humana na dramática experiência da limitação, da falta de autenticidade e da inevitabilidade do próprio existir (o fato de sentirmos como que lançados nesse mundo). Portanto, faz parte do nosso desenvolvimento poder integrar o “pensamento” da morte para que ele possa ser pensado.

Infelizmente, como já escrevi em um outro artigo, a morte foi excluída do imaginário do homem contemporâneo. Os velórios, os enterros, as visitas ao cemitério, os cortejos fúnebres, tornam-se cada vez mais eventos “privados”. A morte é ocultada, tornou-se uma palavra inominável, quase algo vergonhoso, uma fraqueza, como se o nosso destino fosse viver para sempre. Como se apenas os fracos morressem. A morte é sempre pensada como a morte do outro, jamais como a nossa própria morte.

È fácil portanto compreender que, nesse contexto, fica difícil falar sobre a morte, mesmo com alguém que está próximo a viver essa experiência. Existem muitas discussões, sobretudo na área médica, sobre o “direito do paciente de saber” sua real condição, mesmo quando esta envolve a morte próxima.

Apesar dos esforços feitos para “ocultar” a morte a um paciente em estado terminal, ela acaba rondando o seu leito, penetrando os silêncios, os olhares, as reticências, como algo que não pode ser nomeado, um evento cujo significado é impenetrável. No plano inconsciente, este ocultamento é percebido e “sentido” pelo paciente como algo ainda mais terrível e doloroso, justamente pelo seu caráter enigmático. É como se o doente estivesse em um quarto obscuro no qual ninguém quer acender a luz por medo que ele fique assustado com o que verá.... A angústia de estar no escuro é ainda mais terrível, pois a escuridão é habitada por todo tipo de fantasma, sobretudo pelos fantasmas sem rosto, dos quais brotam as agonias impensáveis.   Quem desejaria isso para si?

Morrer é mais  uma forma de nos apropriar de nós mesmos e da vida. Isto se torna claro sobretudo no suicídio, que, em alguns casos, é uma última tentativa desesperada de estár vivos. 

Por ser um mistério, a morte tem em si algo sagrado que não pode ser banalizado. Ela é encarada de forma diferente por cada ser humano, de acordo com a sua capacidade de aceitar o mistério e de acordo com as suas crenças. A fé pode amenizar esse momento, imprimindo à morte um movimento de esperança, um caráter de passagem e não de fim absoluto. A forma de abordar essa questão com quem está se aproximando dela deverá ser portanto cuidadosa, dando atenção àquilo que o paciente pode entender e suportar naquele momento.

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A interpretação dos sonhos

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A Interpretação dos sonhos

Na sua obra, A Interpretação dos sonhos, Freud, contrariando as discussões científicas da época, manifesta a convicção que “os sonhos realmente têm um sentido e que é possível ter-se um método científico para interpretá-los” .  

De acordo com a teoria freudiana  “o sonho é a realização (disfarçada) de um desejo (suprimido ou recalcado)” . Em alguns casos isso é evidente, o sonho realmente encena um desejo que, na vida real, seria irrealizável ou muito dificilmente realizável. Mas como explicar os casos em que a tese parece ser contrastada pelo conteúdo dos sonhos que apresentam situações claramente aflitivas? Como vermos nisso uma realização do desejo? Na realidade, trata-se de um comportamento comum dos sonhos, que Freud chama de distorção onírica . Isto acontece quando surge uma defesa contra o desejo, neste caso “o desejo é incapaz de se expressar, a não ser de forma distorcida. 

É justamente a partir da observação desse mecanismo psíquico que Freud chega a postular a existência de três instâncias psíquicas, que, ele caracteriza como inconsciente (Ics), pré-consciente (Pcs)  e consciência [Cs]. “Nada — acrescenta Freud — pode atingir a consciência a partir do primeiro sistema [Ics] sem passar pela segunda instância [Pcs] e a segunda instância não permite que passe coisa alguma sem exercer os seus direitos a fazer as modificações que julgue adequadas no pensamento que busca acesso à consciência”. No caso dos sonhos aflitivos,  podemos afirmar que “encerram alguma coisa que é penosa para a segunda instância [Pcs], mas que, ao mesmo tempo,  realiza um desejo por parte da primeira instância [Ics]” . Podemos concluir que “o conteúdo do sonho é (...) uma transcrição dos pensamentos oníricos”  — que Freud chama de conteúdo latente — e tem como objetivo burlar as defesas do eu.

Quando queremos interpretar um sonho devemos buscar, a partir do conteúdo manifesto do sonho, o seu conteúdo latente, identificando o desejo que se organiza a partir do inconsciente. Para realizar essa tarefa, Freud sugere que fixemos nossa atenção não no sonho como um todo mas nas partes que o compõem. De fato, “os elementos do sonho são construídos a partir de toda a massa de pensamentos do sonho e cada um desses elementos mostra ter sido multiplamente determinado em relação aos pensamentos do sonho” (FREUD, 1900, p. 310). Trata-se de um processo inconsciente, que Freud define como o trabalho do sonho, baseado nos processos de condensação e de deslocamento, que tem como resultado a diferença existente  entre  o conteúdo manifesto e o conteúdo latente (pensamento do sonho). No trabalho do sonho, de fato, está em ação uma  força psíquica que, “por um lado, despoja os elementos com alto valor psíquico de sua intensidade e, por outro, (...) cria, a partir de elementos de baixo valor psíquico, novos valores, que depois penetram no conteúdo do sonho”  (FREUD, 1900, p. 333).

 Para identificar o trabalho do sonho, será necessário recorrer à associação livre, que nos permitirá remontar  “de um elemento do sonho para vários pensamentos do sonho e de um pensamento do sonho para ´vários elementos do sonho”.  {jcomments on}

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Sonhos que não se concretizam

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Tenho vários projetos em mente para a minha vida, mas não consigo nem dar o primeiro passo para colocá-los em prática. Fico sonhando com as minhas próprias idéias e até mesmo vejo-me realizando-as, mas a hora de fazer acontecer não chega. O que será que acontece comigo? - Valéria, de SP.

 

Sonhos que não se concretizam

O processo de “sonhar” é muito importante para a mente humana. Todo ser humano precisa poder sonhar para se sentir vivo. Uma vida sem sonhos não é vida. Quando o ato de sonhar é barrado, a vida perde sentido e os processos depressivos acabam tomando conta de nós.

Estamos falando em sonhar, neste caso usando a palavra sonho para definir um processo interno que acontece no estado de vigília. Existe, no entanto, um paralelo entre esse sonhar no estado de vigília e o sonhar quando dormimos. Ambos os processos nos colocam em contato, embora de maneira diferente, com o nosso mundo interno, fazendo uma ponte entre o “dentro” e o “fora”, uma ponte importantíssima para o nosso equilíbrio psíquico.

Freud dizia que o sonho (dormindo) é uma realização do desejo inconsciente. Da mesma forma, o processo de “sonhação” (vou usar essa palavra para indicar o sonhar acordado) também nos põe em contato com nossos desejos inconscientes.

A ponte com o desejo é importante, pois, sobre ela, passa a nossa energia vital, a libido, que nos impulsiona em direção ao mundo externo e aos “objetos” que nele se apresentam, ao nosso alcance. Uso o termo objeto para indicar coisas, projetos pessoais, perspectivas profissionais, afetos, situações, pessoas, etc., enfim tudo o que está fora de nós e que é desejado.

O processo de sonhar se diferencia substancialmente do processo do devaneio, uma forma alucinatória e, portanto, ilusória. O que distingue o sonho do devaneio é o fato que, no primeiro, a realidade é levada em conta, no segundo não. O primeiro, portanto, é um processo saudável; o segundo é um processo doentio.

Em alguns casos os “sonhos” não se concretizam porque na realidade são devaneios, ou seja, desconsideram totalmente a realidade. Uma coisa é eu sonhar de ser vereador na minha cidade, outra coisa é sonhar de ser presidente dos Estados Unidos, sendo que sequer tenho a cidadania americana.

Muitos devaneios são alimentados pela esperança ilusória de ganhar na loteria, no jogo, de obter ganhos fáceis, dando golpes de esperteza nos outros, ou, simplesmente, em uma atitude passiva de “esperar que as coisas melhorem”.

No entanto, a não concretização de um sonho nem sempre passa pelos descaminhos do devaneio. Às vezes, e esse parece ser o caso do nosso leitor, os sonhos não se realizam porque não existe a autorização interna para isso.

O processo criativo que é disparado pelo sonho não entra em ação porque não existe a possibilidade interna de autoriza-lo. As razões disso podem ser muito complexas e seria impossível resumi-las aqui.

O que podemos dizer, de forma muito genérica, é que existe uma relação entre a capacidade de “brincar” –vale a pena notar que o brincar já acontece no próprio ato de amamentar-- adquirida na infância e a capacidade de criar na idade adulta.

No brincar, de fato, a criança aprende a fazer a ponte entre “objetos” que pertencem ao mundo externo – e que portanto são reais – e, objetos que pertencem ao seu mundo interno – e que portanto são muito mais que simples objetos. O seio da mãe não é apenas uma fonte de alimento. Um bichinho de pelúcia não é apenas um bichinho de pelúcia. Ao brincar com eles, a criança experimenta a sua relação com o mundo e cria novas situações imaginárias a partir dela mesma.

Nisto consiste o processo criativo: revestir o mundo externo com os nossos sonhos e desejos, em busca de imprimir nele a marca do nosso mundo interno. Embora seja um processo espontâneo, ele depende para se desenvolver da maneira como fomos recebidos no mundo. {jcomments on}

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A sombra do "Sistema"

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A sombra do Sistema: o ser ameaçado

Uma das utopias acariciadas pela humanidade está ligada à sensação de segurança e bem-estar anunciadas pelos avanços da ciência, pelo multiplicar-se dos inventos tecnológicos e pela promessa de liberdade e de realização pessoal aventada pelo capitalismo neoliberal. Parece até possível pensar que um dia todos poderão finalmente se unir ao grande cortejo dos “vencedores”.

Com os grandes avanços da informática, tudo parece realmente acessível. Alguns cliques no teclado de um computador ou de um celular e você tem acesso ao Sistema de alguma grande corporação. Uma musiquinha e algumas frases encorajadoras anunciam que você está a poucos passos de mais uma conquista. Você está prestes a fazer parte do cortejo dos vencedores, comprando mais um celular, um canal pago de televisão, ou contratando os serviços de um banco, de uma financeira ou de um plano de saúde. Uma voz amável o recebe e com poucas respostas você está finalmente incluído no Sistema que lhe dará direito a determinados privilégios, destinados aos prediletos.

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Depressão, mal do século?

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A depressão, mal do século?

 No seu livro O tempo e o cão, a psicanalista Maria Rita Kehl, aborda com propriedade, perspicácia e profundidade as síndromes depressivas, consideradas por alguns o mal do século. Gostaria de retomar algumas de suas reflexões, pois acredito possam ser de grande ajuda para os nossos leitores.

A depressão é uma das mais frequentes queixas dos que buscam ajuda nos consultórios de médicos, psiquiatras, psicólogos, psicanalistas e terapeutas em geral. Ela se manifesta através de sintomas físicos que envolvem distúrbios do sono, falta de apetite sexual, dificuldades com a alimentação, desânimo, prostração, cansaço, etc.

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