Vida amorosa e sexualidade

Vida amorosa e sexualidade (55)

Vida amorosa e sexualidade

Casar em tempos de mudança

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Casar em tempos de mudança

Neste breve artigo gostaria de sintetizar, sob a perspectiva da psicanálise, alguns aspectos que introduzem uma mudança na maneira como hoje o homem e a mulher enfrentam a vida em comum e a constituição da família.

O mundo contemporâneo, ao frisar a igualdade entre os sexos acabou desconsiderando que o psiquismo do homem e da mulher não são 100% iguais. Há expectativas diferentes no plano inconsciente. O Outro, na vida amorosa, tem uma função de espelho. Mas o que será que o homem e a mulher querem ver nesse espelho? Será a mesma coisa?

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Ficar, namorar, noivar em tempos de mudança

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Ficar, namorar, noivar em tempos de mudança

Estamos vivendo em tempos de mudanças, não há dúvida, mas será que as mudanças também afetam questões tão básicas do humano como a própria vida amorosa? Se fizéssemos uma pesquisa, provavelmente as respostas divergiriam, alguns achando que sim, outros que não.

Creio que ambos tenham razão. Há aspectos que não mudam, por estarem inscritos na própria natureza humana. As considerações sobre o amor tecidas por Shakespeare, Goethe, Fernando Pessoa ou outros escritores do passado continuam tocando o coração do homem de hoje. Por outro lado, o ambiente externo acaba exigindo adaptações que podem ser vistas como “mudanças”, mesmo em áreas tão essenciais do humano.

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Namoro à distância

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Por motivos de trabalho meu namorado teve de ir embora para o Pará. Não terminamos o relacionamento porque temos planos para o futuro. Confesso que está difícil ver a pessoa que amo apenas duas vezes ao ano. O senhor acredita que namorar dessa forma pode ser possível? (Anônima)

Namoro à distância

A pergunta me fez lembrar o refrão de uma canção italiana dos anos 70 que pode ser traduzido mais ou menos assim: “A distância é como o vento que apaga os fogos pequenos, mas transforma os grandes em um incêndio”. Mas será que isso é verdade? De certa forma, do ponto de vista psicológico, uma vez que é subtraído dos percalços do dia-a-dia, o relacionamento amoroso pode passar a ser vivido em uma dimensão idealizada, que é revestida de uma carga emocional muito mais forte (o incêndio), como tudo o que é idealizado.

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Carmen e o amor histérico

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Carmen e o amor histérico

 No início da temporada lírica do Teatro S. Pedro da capital paulista, foi apresentada a Ópera de Bizet, Cármen, baseada na novela homônima de Prosper Mérimée. Ambientada na Espanha, narra a história de Don José, um soldado que é seduzido pelos encantos da cigana Carmen. Aos poucos ele é enfeitiçado pelo poder de sua beleza selvagem. Por sua causa acaba sendo preso, rebaixado de posto e finalmente resolve desertar. Como prova de amor, deixa a carreira militar para se juntar a um bando de marginais do qual Carmen faz parte.

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Quando a princesa vira bruxa e o príncipe sapo

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Quando a princesa vira bruxa e o príncipe sapo

 É só uma questão de tempo: cedo ou tarde a princesa vira bruxa e o príncipe sapo. Talvez isso explique porque mais de 40% dos casamentos acabe em divórcio e o restante muitas vezes se sustente com a sensação de ambas as partes de que algo está faltando na relação do casal.

Diante das estatísticas temos dois tipos de reações. Alguns apostam que o casamento como instituição chegou ao seu fim. Outros teimam em dizer que, seja como for, casar ainda é a melhor solução para evitar a solidão e a perda de sentido da vida.

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Não gosto do namorado de minha filha

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Minha filha de 16 anos começou a namorar um menino de 18 muito diferente dela: Enquanto ela está terminando o segundo grau, cheia de perspectivas, ele teve de parar os estudos por não poder pagá-los daqui em diante. Ele é negro e tem uma aparência frágil. Minha filha é uma menina exuberante que, perto dele, parece murchar. A família dele é de gente simples e honesta, mas a mãe é analfabeta e o pai gosta de freqüentar bares na rua e ter rompantes machistas. Gostaria de mostrar à minha filha que ela merece conviver em ambientes mais interessantes e saudáveis, mas qualquer coisa que eu digo soa como mero preconceito para ela, que me acusa de racista, por exemplo. Penso que isso pode decorrer de baixa autoestima, o que me arrasa. Está muito difícil conviver com essa situação. O que faço?

 

Não gosto do namorado de minha filha

 

A situação a que se refere a carta é complexa, pois movimenta mecanismos psíquicos inconscientes que envolvem ambas as partes. Os pais costumam ter um “sonho” sobre o futuro de seus filhos, que inclui também um modelo idealizado daquele que será o parceiro ideal para eles. Todos os preconceitos raciais e sociais incidem profundamente no perfil “ideal” que os pais esboçam dentro de si, influenciados pelo meio social em que vivem. Além disso, pai e mãe têm também, dentro deles, um modelo idealizado inconsciente de mulher ou de homem, que incidirá na “montagem” do perfil ideal. Desta maneira, nenhum par “real” que aparecer estará à altura do filho ou da filha e sempre causará algum tipo de decepção. Por outro lado, se os filhos influenciados pelos pais, escolherem um par para agradá-los, a probabilidade é muito grande que este se revele mais tarde uma grande decepção. Apesar de os pais quererem o “bem” dos filhos, o que eles consideram o“bem” está inevitavelmente ligado aos seus desejos, à sua maneira de ser, à sua visão da realidade. O grande papel dos pais não é portanto transmitir aos filhos sua maneira de ser, mas ajudá-los a descobrir a deles.

No caso de sua filha, ela é uma adolescente que está enfrentando os problemas normais que a idade apresenta: Grandes transformações físicas, uma ansiedade diante do “novo”, medo de se afastar do ambiente protegido da infância e necessidade de “se separar” dos pais são alguns dos problemas que se apresentam. Nesta idade o/a adolescente costuma desenvolver uma certa aversão aos pais, uma incontrolável necessidade de “negar” tudo o que vem deles. Portanto, o modelo ideal de par, sonhado pelos pais, pode ser “odiado” pelos filhos. Pode até ser que sua filha tenha escolhido, inconscientemente, exatamente o oposto do que os pais desejavam, justamente para agredi-los. Por se tratar de processos inconscientes, quanto mais os pais se opuserem, mais o adolescente se  “fechará” no seu mundo, parecendo incapaz de enxergar a realidade. Quanto menos a oposição for levada a sério pelos pais, mais rapidamente se dissolverá a necessidade do adolescente de assumir aquela atitude emburrada, arredia que o caracteriza.  Naturalmente isto não significa abandonar o adolescente a si mesmo. Seria exatamente o contrário do que ele precisa. A atitude agressiva e hostil é uma maneira de dizer: “Eu estou aqui, olhem para mim, eu existo, preciso do seu afeto”. Creio portanto que sua filha precisa do seu apoio, no sentido de auxiliá-la a descobrir o que ela realmente quer para o seu futuro. Demonstre portanto carinho e compreensão para ela, “oferecendo” o seu ponto de vista com serenidade, para ajudá-la a refletir. {jcomments on}

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Meu ciúme está acabando com o casamento

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Sou casado, tenho 37 anos e minha esposa 27. Casamos muito jovens e nosso início como casal foi um tanto conturbado, devido a nossa pouca experiência de vida. Deixei a cerveja de final de semana e fiquei mais doméstico. Mas, depois que nossos dois filhos cresceram, minha esposa voltou a trabalhar. Os problemas retornaram porque passei a ter muito  ciúme dela. Tentei conversar sobre isso, ela pareceu entender a situação no início, mas o casamento está praticamente acabado. Ela me xinga e diz que eu a ofendo na frente dos outros, por exemplo. Sei que devo mudar, mas também sou bom pai, sou carinhoso, só não sei o que fazer agora para recuperar o amor de minha mulher. Ajude-me. Paulo - Belo Horizonte

 

O meu ciúme está acabando com o casamento

 

O primeiro passo para recuperar o amor de sua mulher é recuperar o amor por si mesmo. Por trás do sentimento do ciúme estão experiências emocionais complexas que geralmente se originam em uma sensação de esvaziamento e de não valor. O problema portanto não está na pessoa objeto do ciúme (no caso sua mulher), mas em quem é ciumento.

Cinema,  TV e  literatura freqüentemente confundem relação amorosa, e paixão. Apaixonar-se é uma experiência intensa e emocionante. De início pode ter efeitos benéficos, mas, com o tempo, a paixão acaba se mostrando doentia, neurótica, ou até psicótica (os crimes passionais não são raros), caso não possa ser elaborada para se transformar num relacionamento mais maduro.

No apaixonamento, ocorrem fenômenos ligados a um funcionamento particular do psiquismo que projeta fora de si, no outro, algo que é desejado ou odiado, mas que, por várias razões, não pode ser reconhecido dentro de si.  A projeção “coloca” no outro algo que é intensamente amado ou rejeitado. Algo que é do sujeito, mas que não pode ser acolhido por ele. A projeção facilita o processo de idealização da pessoa amada, que não pode ser acolhida em sua realidade, pois esta comporta uma certa ambigüidade, aspectos bons e ruins. Inicialmente os aspectos ruins são ignorados, vê-se no outro apenas aspectos bons que são idealizados. Mas, por se tratar de aspectos que, embora sendo  “colocados” no outro, são desejados para si, há também uma sensação de falta (“não vivo sem você”; “você é tudo para mim”, etc.). É como se algo que nos pertence tivesse sido roubado pelo outro. O outro, uma vez idealizado, se torna o nosso carrasco, e passa a ser também odiado. Estamos falando de sentimentos em grande parte inconscientes e portanto não percebidos de forma clara. Tudo isso explica o sentimento de posse, que se instala nesse tipo de relacionamentos. O outro, por ser o depositário de algo que nos pertence, passa a ser percebido como uma posse. É inútil dizer que esse tipo de sentimentos nos tornam emocionalmente frágeis na relação com o outro, despertando nele sentimentos de culpa, cujo par inconsciente, são sentimentos de raiva. Por trás disso, temos um vínculo de fusão com o outro, que torna difícil distinguir o que é dele e o que é nosso.  Os dois mundos se confundem. Um processo mútuo de projeções é ativado, com resultados emocionais desastrosos.

Como fazer então quando esses sentimentos nos dominam? Nem sempre é fácil reagir sozinhos a essa situação. Muitas vezes torna-se necessária uma ajuda profissional. De qualquer forma, é importante poder encontrar em nós mesmos sentimentos de autovalorização, de auto-estima. Tentar nos “separar” do outro também é importante. Não estou falando em separação física (embora às vezes se torne inevitável), mas na possibilidade de cada um poder ser consciente de sua própria autonomia e individualidade, de seus aspectos bons que podem ser “habitados”, sem que seja o outro a nos autorizar a ‘habitá-los” com os seus elogios, com o seu olhar complacente. {jcomments on}

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Por que sentimos ciúmes

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Por que sentimos ciúmes? — Francisco N. S. Rangel - São Paulo

 

Por que sentimos ciúme?

 

O ciúme é um sentimento muito intenso que perturba profundamente não somente quem o sente, mas também a própria relação. Não importa se a pessoa por quem sentimos ciúmes é o(a) namorado(a) ou o(a) amigo(a), a relação acaba sempre se complicando. Aliás, não são raros os casos em que a relação acaba justamente por causa do ciúme. O ciúme se diferencia da inveja que, do ponto de vista psíquico, é um sentimento ainda mais destrutivo. Enquanto o ciumento quer o objeto desejado só para si, o invejoso não quer que o objeto desejado pertença a outro e, caso consiga se apropriar dele, sequer consegue mantê-lo para si.

Por trás do ciúme se esconde um funcionamento emocional que geralmente se origina em uma sensação de baixa auto-estima e em projeções. Independentemente do ciúme ser justificado ou injustificado, o problema não está na pessoa objeto do ciúme, mas em quem é ciumento.

Quando nos apaixonamos, ou quando fazemos uma amizade, acabamos projetando fora de nós, no outro (namorado(a) ou amigo(a)), algo nosso, mas que, por várias razões, não pode ser reconhecido e apropriado.  A projeção “coloca” no outro algo que é intensamente amado ou rejeitado e, portanto, favorece o processo de idealização (se for algo bom) ou de “demonização” (se for algo ruim). O outro acaba não podendo ser acolhido em sua realidade, pois esta comporta uma certa ambigüidade, aspectos bons e ruins misturados.

No caso do namoro ou da própria amizade, os aspectos ruins são ignorados inicialmente. A tendência é ver no outro apenas aspectos bons que são idealizados. Mas, por se tratar de aspectos que estão sendo  “colocados” no outro, há também uma sensação de falta (“não vivo sem você”; “você é tudo dentro de nós para mim”, etc.). É como se algo que nos pertence tivesse sido roubado pelo outro. Uma vez idealizado, o(a) namorado(a) ou o(a) amigo(a) se tornam nossos carrascos, e passam a ser também odiados. Por se tratar de sentimentos em grande parte inconscientes, não são percebidos de forma clara.

Quem tem ciúme cultiva um intenso sentimento de posse em relação à pessoa “amada”. Este tipo de sentimentos fragiliza a pessoa ciumenta. Em contrapartida, quem for objeto do ciúme tenderá a se sentir em culpa e, com o tempo, a culpa se transforma em raiva, ameaçando a própria relação.

Por trás do ciúme, há a tendência de estabelecer um vínculo de fusão com o outro, que torna difícil distinguir o que é dele e o que é nosso.  Os dois mundos se confundem. Um processo mútuo de projeções é ativado, com resultados emocionais desastrosos.

Como fazer então quando esses sentimentos nos dominam? Nem sempre é fácil reagir sozinhos a essa situação. Às vezes é necessária a ajuda de um profissional. Recuperar a autovalorização e a auto-estima é fundamental para poder vencer os efeitos doentios do ciúme. Tentar se “separar” do outro também é importante. Não se trata da separação física, mas da possibilidade de cada um poder ser consciente de sua autonomia e individualidade. {jcomments on}

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Casamento desgastado

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Minha mulher e eu já não somos mocinhos e percebo que, ficando velhos, somos mais impacientes um com o outro. Cada um tende a ficar no seu canto e raramente fazemos algo juntos sem brigar. Eu gostaria de viver os últimos anos de minha vida com alguém que fosse realmente uma companheira. Os filhos já estão criados, me pergunto se devemos continuar juntos nessa relação desgastada ou se é melhor encarar a separação. Homem de 60 anos – SP

 

Repensando o casamento

 

 A realidade mostra que nem sempre é possível realizar o sonho de um casamento estável que dure a vida inteira. O desejo de envelhecer ao lado da pessoa amada pode ser frustrado pela rotina, pelos desentendimentos e pela aridez de uma vida que perde o seu sabor e o seu sentido.

Estar com o outro deixa de ser uma experiência prazerosa e se torna uma rotina vazia, árida e sem sentido. Uma intensa sensação de frustração toma conta do convívio do casal. Cada um parece perceber que aquele homem ou aquela mulher com quem convive não satisfaz as expectativas afetivas mais elementares.

Muitas vezes o desgaste de um casamento é atribuído ao desgaste da vida sexual, mas nem sempre essa é a razão principal. O desgaste afetivo e emocional geralmente antecede o desgaste da vida sexual e, na maioria dos casos, é a razão que impede uma vida sexual saudável.

Quando isso acontece surge o desejo irresistível de “mudar” o outro. O primeiro recurso usado para esse fim é a queixa, na qual a frustração de cada um é canalizada de forma agressiva e “despejada” sobre o outro.

A queixa não é a mesma coisa do diálogo. Na queixa projeta-se no outro todo o descontentamento e a frustração por ele estar aquém das nossas expectativas, por ele ser chato, cansativo, insuportável. No diálogo, procura-se manifestar para o outro os nossos sentimentos, sem querer culpá-lo, apenas reconhecendo que algo está acontecendo e que isso gera um incômodo. O objetivo do diálogo é tentar entender o que está acontecendo, olhar para o problema e tentar superá-lo.

Se no diálogo a pessoa está disposta a se “deslocar” para tentar enxergar as coisas a partir da maneira de sentir do outro, na queixa prevalece apenas a maneira de sentir de quem está se queixando.

O desejo que o outro mude está à base de muitos desentendimentos e frustrações, pois, geralmente,  é muito difícil que o outro possa mudar da forma como pensamos e no curto prazo que a nossa frustração pode suportar.

As pessoas mudam. O processo terapêutico mostra o quanto isso é possível e maravilhoso de se assistir, mas elas mudam da forma como podem mudar, de acordo com sua personalidade e dentro dos limites impostos pelo seu psiquismo. Nunca as pessoas mudam de acordo com o nosso desejo e as projeções que são depositadas nelas.

O marido que eu desejo ou a mulher que eu sonho não existem, existe apenas um ser humano que está ali, na minha frente, com suas formas, sua personalidade e sua neurose. É com esse homem ou essa mulher que eu posso querer estar pelo resto de minha vida ou não.

É bastante comum nos consultórios receber ligações de mulheres e homens que gostariam de marcar uma consulta para o parceiro no intuito de “conserta-lo” para “salvar o casamento”. Nesses casos aconselho a pessoa que liga de fazer ela mesma a terapia, pois apostar na mudança do outro para salvar o casamento é, na maioria dos casos, uma aposta perdida.

A reação oposta pode ocorrer quando alguém desiste de si mesmo para manter o casamento. Trata-se de uma das situações mais penosas, pois não odemos nunca desistir de nós mesmos sem correr o perigo de desistir da vida e adoecer psíquica ou fisicamente. A primeira condição para enfrentar qualquer situação difícil é que possamos “estar vivos”. Esta é a condição fundamental para que algo aconteça ao nosso redor de forma positiva.

Mesmo assim que o casamento foi um erro é sempre uma situação muito dolorosa. Anos investido em um sonho se esvaem diante dos nossos olhos. Como dizia um amigo, a separação é sempre uma situação de falência, em que juntamos coisas ruins e boas, as colocamos em uma caixa e a abandonamos à correnteza do rio vendo-a se afastar de nós.{jcomments on}

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Por que busco relacionamentos problemáticos?

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Minha filha está me dando dor-de-cabeça. Ela está se relacionando com um sujeito que sempre está com problemas na polícia - inclusive já teve passagem por tráfico. Ela não me ouve e diz que faz o que quiser da vida dela. Por que ela insiste num relacionamento como esse?  Eleonora, Cuiabá (MT)

Por que buscar um relacionamento problemático?

 

 

A história relatada na carta de nossa leitora, infelizmente, não é um caso isolado. É muito comum que as pessoas busquem algum tipo de relacionamento que cedo ou tarde acaba se revelando prejudicial.

Centenas de romances e filmes retratam essa situação, às vezes com tintas dramáticas, como no famoso “Inimigo em casa” (Domestic disturbance, 2001). Neste filme, a mãe separada do marido (John Travolta) se envolve com um psicopata assassino que a agride fisicamente e é “salva” pelo filho com a ajuda do ex-marido.

O crítico Rodrigo Cunha, ao fazer uma resenha do filme escreve: “Um suspense clichê com tantos absurdos na história que fica difícil não sentir raiva do filme”. Se ele fosse psicanalista, perceberia que a história não é tão absurda, embora seja difícil não concordar quanto ao sentimento de raiva quando temos que assistir a esse tipo de “filme” na vida real.

Anos atrás (1996), foi publicado um livro intitulado: Mulheres inteligentes, escolhas insensatas (Editora Rocco). O título diz claramente que não existe uma relação direta entre a razão e as escolhas que envolvem o mundo emocional.

As escolhas amorosas são muitas vezes “insensatas”, pois elas não são regidas pelo bom senso e independem do quociente intelectual da pessoa. Onde o título erra é no fato que esse não é apenas um problema das mulheres. Os homens também fazem escolhas insensatas.

Mas, até que ponto podemos falar em “escolhas”, sendo que, na realidade, mais do que escolher essas pessoas perecem ser “escolhidas” por relacionamentos complicados e difíceis? Ouvindo centenas de histórias no consultório é fácil perceber que muitas pessoas parecem ser “induzidas” por uma força interna misteriosa a fazer as escolhas erradas, sobretudo no campo da vida amorosa.

Mais uma vez, estamos nos deparando com um mecanismo psíquico misterioso. O seu funcionamento não é regido pelo “princípio do prazer” e sim por uma espécie de compulsão instintiva que parece visar a autopunição e a auto-sabotagem.

Embora haja algum tipo de “compensação” imediata, superficial e passageira, que em psicanálise é chamada de “ganho secundário”, é evidente que, a médio e longo prazo, o relacionamento está fadado ao fracasso. O que prevalece não é o prazer de estar com o outro e sim a frustração e angústia causadas pela falta de perspectivas.

Para entender esse curioso funcionamento psíquico é necessário vasculhar a história primitiva dos “relacionamentos amorosas” da pessoa envolvida. Mesmo quando não encontramos motivos para achar que a pessoa sofreu traumas na infância, cedo ou tarde, o processo de análise mostra que ela viveu algum tipo de experiência emocional aversiva.

Tais experiências, na maioria dos casos, independem das reais intenções maternas ou paternas, em geral boas. Trata-se de situações aversivas que, muitas vezes, os próprios pais viveram “sem perceber”, de forma inconsciente e que, por um processo de troca intersubjetiva, foram “percebidas” inconscientemente pela criança.

Para a nossa mente uma situação “inesperada” que gera angústia tende a se tornar enigmática. O enigma é carregado de uma enorme força de atração psíquica que age sobre o nosso mundo interno instintivo. Ele gera uma força compulsiva que nos atrai e nos leva a “voltar” para situações afetivas parecidas que “recriem” a cena inicial, que disparou a angústia primitiva.

Se as relações iniciais foram “percebidas” pelo inconsciente como sendo insatisfatórias, ele procurará revivê-las através de relações que também são insatisfatórias.

A força da compulsão instintiva é muito angustiante para quem sofre desse problema. Ao mesmo tempo a necessidade de voltar a viver sempre a mesma situação cega e impede o à pessoa de poder “pensar” a situação de forma diferente, lógica e conseqüente.

O que fazer diante desse tipo de comportamento quando envolve pessoas que amamos? Em primeiro lugar, é importante segurar a raiva. A pessoa já está sofrendo o bastante sem que acrescentemos mais sofrimento com o nosso “julgamento”. É necessário escolher bem os momentos e as palavras para poder apontar situações “estranhas” e prejudiciais que parecem não ser percebidas pelos interessados. 

Em muitos casos, contudo, ficamos impotentes, assistindo esses processos de auto-sabotagem, sem poder fazer {jcomments on}nada a não ser tentando encaminhar a pessoa para o cuidado profissional de um terapeuta.

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