Maria Cristina Vargas Lemos

Maria Cristina Vargas Lemos

O CORPO DESABITADO: Um caso de bulimia

(c) Maria Cristina Vargas Lemos (2003)

RESUMO:  A autora apresenta o caso clínico de uma paciente que sofre de bulimia com a intenção de mostrar como a integração psique-soma é essencial para que o processo que Winnicott chama de personalização seja alcançado. Posteriormente, a dissociação do psique-soma poderá ser usada como uma defesa frente a angústias de caráter narcísico. Angústias que surgem da percepção da necessidade do outro para a satisfação pulsional.

               Palavras-chave: Integração, dissociação, personalização, necessidades, dependência,  bulimia.

 

ABSTRACT: The author presents the study case of a bulimic patient to illustrate how the integration of psyche and soma is essential to achieving the process that Winnicott called of personalization. Eventually, the dissociation of psyche and soma could be used as a defense when facing narcissist anxieties. Anxieties that arise from the perception that to achieve satisfaction an object is necessary.

 

Key words: Integration, dissociation, personalization, needs, dependence, Bulimia.  

INTRODUÇÃO       

Os padrões estéticos vigentes impõem ideais de magreza cada dia mais extremos. Basta olharmos para as modelos, meninas às vezes com apenas treze anos de idade, que surgem nas passarelas como espigas de trigo: altas, magras e loiras. Figuras com um certo ar de distanciamento, que se movimentam como se não estivessem sujeitas às leis da física e da biologia, quase como se fossem seres etéreos.  É este o ideal que as crianças começam a perseguir desde muito cedo para, segundo elas, serem parte da turma e assim serem amadas.

O objetivo é o de alcançar esta aparência custe o que custar, como se a aparência em si, constituísse a garantia de ser amada, bem sucedida etc. Entretanto, é justamente a aparência que denuncia uma falha na constituição do Ser. Parecer substitui Ser.  Não causa surpresa que uma das patologias que atinge um número cada vez maior de meninas seja a anorexia/bulimia, uma vez que esta põe em destaque o corpo e a feminilidade como elementos de estranheza. É difícil imaginar que alguém possa ficar alheio frente a uma paciente anoréxica/bulímica.  O sofrimento está estampado no rosto e no corpo. A sua magreza é agressiva e ao mesmo tempo exibida com um certo ar de triunfo, não por terem alcançado o “peso ideal”, e sim por terem as necessidades e desejos sob um suposto controle.

Extensas são a literatura e as pesquisas sobre este mal que assombra as mulheres de nosso tempo. Diferentes são as propostas de tratamento e, no caso da anorexia, em especial, muito freqüentemente, fracassadas. 

O conhecimento deste distúrbio data de tempos muito antigos. Hipócrates e Galeno fazem menção a esta doença. Sabemos, também, como Teresa de Ávila utilizava um galho de oliveira para provocar o vômito. No século XIX Lasègue e Gull dedicaram parte dos seus estudos a este tema e as fotografias de K. R. em “Notas Clínicas” os registraram. Posteriormente, tanto a literatura psiquiátrica como a psicanalítica relataram casos de anorexia e bulimia.  Porém até recentemente se tratava, sempre, de casos isolados. Foi só a partir do fim dos anos 60, e principalmente nos anos 70, que houve indícios de um aumento considerável da incidência desses padecimentos e que se começou a falar em “epidemia”.

Há, sem dúvida, algo atual que caracteriza estes padecimentos. Como bem nos lembra BLEICHMAR (2000), se no caso das santas havia uma questão mística e religiosa envolvida, pois o objetivo era a flagelação do corpo como uma maneira de alcançar a iluminação, hoje em dia podemos pensar que as pré-adolescentes têm um duplo desafio no que diz respeito à sexualidade: por um lado, elas têm que dar conta das demandas pulsionais, algo  que é intrinsecamente gerador de conflitos e lutas internas e subjetivas. Por outro a menina adolescente passa a viver o corpo e a imagem feminina como imperativos e tiranos impostos de fora, forçando-a a dar conta de uma demanda constante, pois a mulher, ou melhor dizendo, o corpo feminino, tem se tornado objeto do olhar do outro. Assim a mulher espetáculo, a mulher na mídia e o corpo desnudo são sedutores e desejáveis e ao mesmo tempo assustadores, pois engendram neles mesmos a ameaça da violência pulsional. Em decorrência, as jovens vivem o impasse entre o enorme desejo de alcançar esses padrões femininos e, simultaneamente, a angústia de viverem os perigos e ameaças à integridade corporal, quase concretizada pela menarca. 

As instituições de saúde pública se viram obrigadas a reconhecer a existência deste problema e têm oferecido diferentes alternativas para o tratamento destas pacientes.

Na área de pesquisa tem surgido vários grupos que tentam responder as indagações que tanto a anorexia como a bulimia fazem surgir. Um desses grupos é o CEPPAN (Centro de Estudos e Pesquisas em Psicanálise da Anorexia e Bulimia) do Departamento Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae que atende pacientes anoréxicas/bulímicas. Ali tem sido possível constatar que uma das questões, normalmente, trazidas pelas pacientes diz respeito à distorção da imagem ou total falta de referência ao corporal. Não raro, as falas se reduzem a relatos sobre calorias, do quanto foi ingerido para depois ser evacuado mediante laxantes ou descrição dos vômitos etc. Meninas que pesam por volta de 30Kg dizem se sentirem gordas. O corpo não condiz com a sensação.

O que proponho nesta exposição é mostrar que para que o corpo seja experimentado como um meio no qual possamos sonhar os próprios sonhos, ter sentimentos, desenvolver a identidade sexual e vir a ter relacionamentos é necessário que a integração psique-soma seja alcançada. Algo que só pode acontecer se houver um ambiente que se adapte ativamente às necessidades do bebê.  A integração psique-soma possibilita o processo de personalização, que WINNICOTT (1963) define da seguinte maneira: “Personalização é uma palavra que pode ser empregada para descrever a conquista de uma relação íntima entre a psique e o corpo” (p. 201). Ou seja, a personalização diz respeito à experiência de habitar o próprio corpo e de estar em conexão íntima com aquilo que se experimenta. É esta função de integração psique-soma que muitas vezes se revela através de somatizações e que é buscada, pelo paciente, na relação analítica.  Algumas vezes ocorreu-me, durante o atendimento a uma paciente bulímica cujo caso irei relatar, que a bulimia na paciente tinha o sentido dela obter, junto comigo, um outro jeito de conviver consigo mesma e com o seu corpo. Isto é, como uma busca pela personalização.  No entanto, o meu convívio com ela foi revelando, para mim, aspectos que diziam respeito mais do uso de uma dissociação da integração psique-soma como um modo de se proteger de um objeto sentido como invasivo do qual precisava se manter distante. 

A minha suposição é a de que uma alternativa para a transicionalidade e para encontrar o não-eu é o narcisismo. GREEN (1979) discute esta questão quando aponta:

 

 O objeto é um entroncamento. Ele é a procura dos desejos do Id na falta de objeto para satisfazê-lo, portanto, gerador de tensões libidinais, necessariamente contraditórias, de amor e de ódio. É parte do mundo externo, pois é justamente lá, fora do sujeito, que o objeto encontra-se situado. Winnicott nos ensinou como a função do objeto transicional supera parcialmente esta dupla fonte de tensões. Mas conhecemos ainda uma outra solução para resolver este problema: o narcisismo. 

Pelo investimento libidinal do Eu, o Eu se dá a possibilidade de encontrar nele mesmo um objeto de amor, constituído segundo o modelo de objeto, suscetível, graças aos recursos do auto-erotismo, de obter a satisfação pulsional procurada (p.159).

 

Nesse sentido, poderíamos pensar que, quando a paciente se depara com angústias de caráter narcísico, decorrentes da percepção da dependência do outro para a satisfação pulsional, ela recorre à dissociação do psique-soma para se proteger e preservar sua esfera narcísica. O corpo, nesta dissociação, não é mais o lugar de experiências íntimas consigo mesma e sim passa a ser o lugar de uma materialidade concreta, coisa em si, que não permite nem trocas, nem relação com uma outra área de experiência vivida.  Ao contrário, ele fica sendo o lugar de onde a experiência tem que ser expulsa, o que às vezes se revela de forma concreta através dos vômitos. Uma outra questão é que desta forma a paciente parece se libertar da dependência em relação ao outro, enquanto o corpo passa a ser um lugar de exílio tratado como coisa em si, seja por conceitos médicos, biológicos ou psicológicos. 

Não pretendo, entretanto, simplificar ou reduzir a bulimia desta paciente à falha da integração psique-soma. Tento apenas abordar um aspecto que, desde o início de nosso trabalho, ocupou grande parte de nossos encontros.

HISTÓRICO

Brenda estava com 19 anos quando foi encaminhada por uma instituição de saúde pública onde fazia tratamento ambulatorial.

É a filha mais velha tendo um irmão quatro anos mais novo, filho do segundo casamento do pai e primeiro da mãe. Atualmente está fazendo cursinho pela terceira vez, pois pretende uma vaga em alguma faculdade pública.  A mãe é sentida pela paciente como alguém que se esforça para ser uma boa mãe e também uma boa esposa, porém aos olhos de Brenda, ela é incapaz de ser uma coisa e outra. O pai está doente. Brenda diz ser muito parecida com ele, já que ambos valorizam as discussões intelectuais, são de temperamento forte, perfeccionistas e não têm paciência com as pessoas. Isto faz com que tenham muitas e violentas brigas. Entretanto, ela lembra ter vivido momentos de muita afetividade, carinho e proximidade com ele na infância.

Quanto à origem ou desenvolvimento da bulimia, a paciente não é clara.  Foram vários os relatos, porém não se sabe como nem quando começou.  Algo que se repete quando ela fala da doença do pai.  Não se sabe o que ele tem, nem como começou.  Ele se trata no HC e “lá os médicos nunca falam claramente”.

O que ela lembra é do alívio experimentado quando uma dermatologista disse-lhe que o seu problema de pele era apenas parte de um problema maior e a encaminhou para ser atendida numa instituição. Foi um alívio, pois finalmente alguém tinha olhado para ela e notado que algo estava errado. Além do mais, encontrar meninas que falavam do que ela sentia e saber que isso tinha um nome, lhe permitiu sentir que tinha uma identidade, pois “tinha gente como ela”.

MATERIAL CLÍNICO

No início do nosso trabalho Brenda se “apresentou” como bulímica e, ao longo das primeiras sessões, relatava todo o conhecimento sobre a doença, desde o ponto de vista médico, biológico ou psicológico, “adquirido” após ter entrado em contato com a instituição de saúde pública. Mais do que relatos, pareciam exposições de um especialista no assunto. Era como se a identidade bulímica lhe fornecesse uma “fachada” atrás da qual ela pudesse se proteger. Ela vinha às sessões apenas para confirmar o seu diagnóstico.

Passado o primeiro momento, a paciente chorava muito e se dizia muito deprimida. As sessões tinham, agora, mais o tom de um lamento e giravam, normalmente, em torno de uma série de queixas envolvendo o corpo:

... Estava no cursinho e sabia a resposta, só que se eu levantasse a mão, iam olhar para mim, aí o meu braço começou a ficar enorme, tudo começou a incomodar, estava sentindo até a minha bochecha vibrar, eu não estava aguentando, queria de repente desaparecer, eu precisava sair de lá, eu queria ser como uma bexiga que murcha e desaparece.

 

... Estava no Hospital, e lá tem aquelas garotas anoréxicas, e a gente fica no corredor onde passam outras pessoas, que não têm nada a ver. Elas olham para as meninas esqueléticas e olham com cara de horror. Eu sei que é porque estão muito magras, mas olho para elas e eu não vejo nada de mais.

 

Ouvindo a paciente comecei a perceber que o seu corpo era sentido como uma coisa em si. Curiosamente, embora aparentasse se tratar de um super-investimento do corpo, sendo ele o tema constante nas conversas, o foco permanente de cuidados, preocupações e atenções, na verdade, mais parecia que por trás desta cortina de fumaça encontrava-se um corpo desinvestido. Como se alguém falasse de estar preso num corpo desabitado e tendo que lidar, apenas com a concretude do peso, do contorno, das necessidades fisiológicas etc. O corpo sendo sentido como um estorvo que atrapalha o encontro com o outro. Só restava lamentar o infortúnio de não ser etéreo. 

As falas da paciente me lembraram de Aguilulfo personagem criado por CALVINO (1959) no seu romance “O Cavaleiro Inexistente”: uma armadura branca que não é maculada pelos horrores da guerra, pelas paixões do amor, mas que consegue cumprir tarefas “burocráticas” perfeitamente. Ele causa uma forte impressão por onde passa, porém não pode se relacionar verdadeiramente com ninguém.

Comecei então a procurar por modelos teóricos que me ajudassem a compreender o que estava se passando com a paciente. A minha hipótese, naquele momento, era de que a falha da qual teríamos que cuidar dizia respeito a processos muito primitivos que poderiam ter impedido que a integração somático-psíquica fosse alcançada. O conceito de personalização de WINNICOTT (1963) preconiza a conquista de uma relação íntima entre psique e soma, a partir da adaptação do ambiente às necessidades do bebê. Esta relação íntima entre as vivências corporais e a experiência emocional promove o sentimento de habitar-se o próprio corpo sendo este o lugar privilegiado da experiência de encontro consigo mesmo, onde os sentimentos podem ser sentidos como próprios, dando origem ao que mais tardiamente pode ser chamado de subjetividade. A adaptação do ambiente permite que as vivências somáticas possam ser expressas e que as tensões instintivas sejam vividas como não ameaçadoras. Estas experiências propiciam que o corpo comece a ser um lugar onde existir. A partir da existência ele passará a ser sentido como tendo limites e, portanto, um interior dentro do qual é possível ter experiências de intimidade consigo mesmo. WINNICOTT (1949), entre outros autores, enfatiza a importância da adaptação ativa da mãe-ambiente às necessidades do bebê para que os processos de maturação sejam alcançados. Dita adaptação só é possível graças à capacidade da mãe-ambiente de se identificar com o bebê, o que permite que a distância entre o Eu e o objeto seja eliminada. Mãe e bebê vivem a ilusão de serem Um.

Foram necessários alguns meses de trabalho para que eu pudesse encontrar um “jeito” de ouvir e falar, ou seja, de conseguir um certo nível de adaptação com  Brenda. Nesses primeiros meses, em que a paciente vinha às sessões bastante retraída, as minhas intervenções podiam fazer com que ela saísse do retraimento, ou pelo contrário, provocavam reações de fúria e aumentavam a sensação de distanciamento. Aos poucos foi possível estabelecer uma certa sintonia que permitiu que algum grau de confiança entre nós duas fosse alcançado e, paulatinamente, uma relação entre o estado emocional e o corpo começasse a se desenvolver. 

...Sabe que me dei conta no cursinho? Que eu estava me sentindo bem e que não estava ligando para o que aquelas meninas iam pensar da minha roupa ou meu cabelo, ou se estou gorda ou não. Tudo porque estava me sentindo bem.

Essa fala parece revelar uma sensação interior de bem-estar que permite que o corpo não seja sentido como o todo, porém aponta para um incômodo em relação aos outros.  Incômodo que foi se evidenciando na relação transferencial.  Atendê-la não era mais suficiente, ao contrário, Brenda expressava a necessidade de se defender de mim. Eu começava a ser sentida como uma ameaça. Comecei a me perguntar: ameaça de que? A resposta não tardou em chegar.

Um dia Brenda chegou uns minutos atrasada e disse: “Estava com medo de não chegar e vinha correndo, quando me dei conta de quanto queria vir...” A partir desse dia começou a faltar às sessões e a manifestar a angústia de se perceber interessada pelo outro e por mim também, pois isso faz desse outro, alguém muito poderoso e não confiável. Algumas vezes interpretei a sua angústia de caráter narcísico, o que produzia raiva e uma sensação de não ter saída. O que mais chamou a minha atenção foi o fato de parecer que tínhamos voltado à estaca zero. A paciente falava, novamente, unicamente de vômitos, de ter um total desconhecimento de qual era a verdadeira imagem corporal, etc. A minha sensação era a de ter perdido a paciente. Comecei a pensar que a função desse “retorno”, ou seja, dessa dissociação entre psique e soma podia ser, como a paciente tinha apontado, para se defender de se perceber ligada a alguém e, principalmente, de ter percebido a dependência desse alguém para a satisfação pulsional. A dissociação tinha como objetivo a delimitação de áreas de experiência da paciente que permaneciam isoladas umas das outras para, desta forma, evitar a angústia que era imaginada como intolerável.   

Suponho que como resultado das minhas tentativas de adaptação à paciente, eu possa, por momentos, ter funcionado como um objeto da necessidade, fusionada de tal modo que a separação entre o Eu e o objeto não ficasse evidente. Entretanto, as falhas, inerentes ao cuidado, foram permitindo uma certa distância entre Brenda e eu, o que, por sua vez, passou a ser insuportável para ela.  O que fazer para que a separação, própria da nossa existência, possa ser tolerável? Não apenas tolerável, mas fonte de individualidade e de possibilidades de crescimento? Sou da opinião de que o conceito de transicionalidade cunhado por WINNICOTT (1971) nos oferece uma valiosa alternativa para este impasse. Segundo esta elaboração é necessária a criação de um espaço intermediário onde o eu e o não-eu (objeto) possam coexistir separadamente, porém paradoxalmente juntos. Neste espaço o trânsito entre as diferentes áreas internas do indivíduo e entre estas e o mundo externo é possível, sem que ele se torne uma vivência persecutória. Este espaço pertence tanto ao mundo interno do paciente como ao mundo externo. E é nele que as vivências do indivíduo podem se transformar em experiências reais que o enriquecem e lhe permitem fortalecer sua confiança em relação ao mundo e aos outros.

Nas próprias palavras de WINNICOTT (1971)

... A terceira parte da vida de um ser humano, parte que não podemos ignorar, constitui uma área intermediária de experimentação, para a qual contribuem tanto a realidade interna quanto a vida externa. Trata-se de uma área que não é disputada, porque nenhuma reivindicação é feita em seu nome, exceto que ela exista como lugar de repouso para o indivíduo empenhado na perpétua tarefa humana de manter as realidades interna e externa separadas ainda que inter-relacionadas (p.15)  .

 

No caso da paciente, acredito que o que estava em evidência era a alternativa remanescente para a impossibilidade de viver a transicionalidade, ou seja, o narcisismo, que é uma maneira de se defender da constatação da dependência do objeto para a satisfação pulsional. Como GREEN (1979) sublinha:

 

“... a visão ideal do Eu -de um Eu Ideal acima dos tormentos pulsionais e não dependente do objeto-  é rompida pelo desejo objetal. O objeto pode faltar e a sua falta pode fazer estragos na frágil organização do Eu. Requerendo que fortes defesas sejam erigidas contra o objeto que é  uma fonte dupla de tensões. O objeto é a procura dos desejos do Id na falta de objeto para satisfazê-lo, portanto, gerador de tensões libidinais, necessariamente contraditórias, de amor e ódio. E, ao mesmo tempo, é parte do mundo externo, pois é justamente lá, fora do sujeito, que o objeto se encontra situado.

O objeto se constitui numa ameaça para o Eu porque ele não está à disposição do Eu, ele é aleatório, muda de estado, de humor, além de muitas outras variáveis. Isto acaba forçando o Eu a realizar um enorme trabalho de ajustamento.  O que torna o objeto ao mesmo tempo desejado e rejeitado, amado e odiado. Em suma, o objeto expõe o Eu ao desamparo, tanto do ponto de vista pulsional como em relação ao objeto externo (p. 159).

 

Estas idéias ajudaram-me a formular uma nova hipótese sobre a utilização que a paciente fazia da dissociação psique-soma. Quando ela vivenciava o corpo como a sede dos seus desejos, ou seja, como fonte da vida pulsional, se deparava com a dependência do objeto para a sua satisfação. Dependência  sentida como ameaçadora, dadas as características intrínsecas do objeto.  Talvez a falta de holding a tenha exposto a uma pulsionalidade persecutória não introjetada. 

Pareceria que, segundo a concepção da paciente, nas relações há, apenas, uma possibilidade: aquele que ama e manifesta o seu desejo, fatalmente, ficará submetido a um objeto cruel e “superior”, superior por estar acima de qualquer necessidade pulsional. Então perceber-se  tendo desejos representa uma ameaça, pois significa ficar submetido a esse objeto. A maneira que a paciente encontrou de proteger a sua própria existência de um objeto sentido por ela como tão perigoso foi, na minha apreciação, a dissociação psique-soma. Na dissociação, a experiência emocional é expulsa do corpo como uma forma de se purificar, de se libertar da dependência desse objeto cruel e totalitário. Por vezes, Brenda falava de se sentir suja e ser nojenta por estar interessada em alguém. E nesse contexto o uso dos vômitos era uma maneira de se livrar desses sentimentos. No início dos episódios bulímicos, este objetivo parecia ser parcialmente alcançado. De acordo com a paciente, ela sentia que “realmente ficava mais limpa ou pura depois de ter posto para fora tudo o que estava dentro”. Tendo se esvaziado da experiência emocional o corpo se constitui, novamente, na coisa em si: desprovido de necessidades e desejos, o objeto é dispensável e a “ilusão” narcísica de não depender é recuperada.

... Fui numa festa e no começo eu não sabia se queria estar lá ou não. Tinha monte de meninos legais. E quando entramos olhei para um que achei bonito, e ele olhou também. Já fiquei empolgada. A gente dançou e acabou ficando. A ‘X’ ficou com o amigo e na hora de ir embora eles pediram o telefone. Eu fiquei muito empolgada. Só que o da ‘X’ ligou e o meu não. Eu não sei o que tem de errado comigo, me sinto nojenta, uma idiota, gorda, balofa, aí ontem já vomitei um monte de vezes. Não quero mais saber de me empolgar. 

 

... Foi muito bom com X, a gente estava muito junto e foi muito legal. Só que depois eu fico esperando que ele faça alguma coisa, que ele se manifeste. E fica quieto. Aí eu fico louca, me dá raiva. Não é como eu quero. Me lembro desses momentos, um tempo atrás, em que eu ficava estudando sozinha e ficava ouvindo música, não me incomodava com ninguém, sabe que nem sei se toda aquela coisa de vomitar era tão ruim. Eu sei que estava mais tranqüila, não tinha todo esse trabalho. Agora, eu não quero mais vomitar e tomar remédio e tudo isso, mas, era mais fácil.

 

Apresento agora parte de uma sessão com ajuda da qual acredito poder explicitar as idéias apresentadas.

B: ... Estou irritada porque sabe aquela imagem que eu fazia da modelo que é alta, magra e é perfeita? Era como se nesse mundo eu fosse parte de pessoas diferentes. Mas não diferente ruim.  Eu falava que eu me sentia gorda e feia e fazia tudo aquilo com o meu corpo, mas, na verdade, eu me sentia especial. Eu não falava isso, mas eu achava que eu era diferente e por ser diferente todo mundo me notava. Agora, eu não faço mais: vomitar, comer... mas sinto que sou, apenas, mais uma. E o pior é que vejo ao me redor e vejo que tem muitas pessoas bonitas e eu sou mais uma.

 

T: Você abandonou um mundo ideal de modelos perfeitas e encarnou num corpo real.

 

 B: Mas isso dá raiva e não resolve. Não adianta que seja real, para mim, não interessa. Fico com vontade de ir para casa. Era mais interessante eu me sentir especial mesmo que fazia tudo isso com o meu corpo.

 

T: Você está falando que tinha um mundo por você imaginado onde você se sentia protegida e que ter perdido esse mundo deixa você sem proteção e, portanto, vulnerável.

 

B: É que ontem me expus demais com o X. A gente estava na sala de aula, e estava escuro porque estávamos assistindo a um filme. E eu perguntei para ele:  sou chata?  e ele falou:  você é chata. Sou muito chata?  Sim, insuportavelmente chata  Aí, fiquei bem pertinho dele e lhe disse: em breve você vai gostar insuportavelmente desta chata  [Neste momento Brenda está muito à vontade, rindo alto e se deliciando com o seu relato, eu não falo imediatamente].

Só que aí surge essa hostilidade, porque hoje a gente ficou lado a lado e ele não fez nada. Eu esperava que ele fizesse alguma coisa. Mas como não fez eu começo a me sentir mal, quero ir para casa, vou vomitar e volta tudo de novo.

 

T: Talvez você tenha sentido meu silêncio longo demais e aí você sentiu que ficou exposta, recorrer ao corpo tira você dessa sensação e recupera a sensação de proteção.

 

B:  Mas isso no geral. Porque estava sem vomitar há mais de duas semanas e estava me sentindo eu mesma, e em paz. Sem a pressão toda de estar magra ou gorda.  Mas, depois do cursinho, cheguei em casa e estava de novo essa loucura.   Eu queria muito saber o que se passa dentro dele.

 

T: Para saber se pode confiar?

 

B: Escrevi uma carta para ele, e achei muito corajosa. Até acreditando que vai dar certo. Eu não sei.

 

A paciente inicia falando dos benefícios que o “mundo imaginado” lhe proporciona. Nesse mundo ela tem um lugar garantido e um certo distanciamento dos outros. Ela é alta, magra e perfeita. Ela não sofre as turbulências emocionais que os outros sofrem. Isto a torna especial.  Só que ela tem se descoberto interessada e ligada, tanto à terapia como ao ‘X’, o que faz com que a sua proteção não seja “eficiente” e se sinta vulnerável. Esse mundo imaginado não se constitui num objeto subjetivo pois, segundo ela relata, não propicia a experiência de Ser, ao contrário, gera ansiedade e faz que ela viva a dissociação no corpo.

Quando interpreto o seu narcisismo ela reage com raiva e fala na vontade de ir embora.  Eu aponto a vulnerabilidade que perder essa idéia protetora lhe oferece e ela fica muito à vontade para se “expor”. Nesses momentos ela se manifesta expansiva e vitalizada. Só que o meu silêncio faz que ela sinta hostilidade, talvez por eu me tornar um objeto separado e não ser continuação dela.

Este movimento me leva a pensar na necessidade de criarmos um espaço intermediário entre nós duas que permita que o objeto não seja sentido como, apenas, pertencendo à realidade externa. Um objeto que por ser intermediário não seja nem ela, nem eu, que nos permita estarmos juntas e, o mais importante, que possa não ser tão ameaçador.  

O processo terapêutico foi interrompido alguns meses depois da sessão acima apresentada, pois felizmente, a paciente conseguiu a tão desejada vaga para a faculdade, porém, no interior do Estado. Foi, talvez, o fato de poder perceber e aceitar que ela desejava muito fazer faculdade que tenha lhe permitido se empenhar e ir até o fim na busca de conseguir uma vaga. Nos dois anos anteriores, ela tinha prestado e passado na primeira fase dos principais vestibulares, entretanto, “algo” a tinha impedido de seguir em frente e prestar a segunda fase.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGÁRFICAS

 

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