Narcisismo e consumo

Quando mães e filhas vão às compras

Uma breve reflexão sobre narcisismo e consumo.

Cláudia Sampaio Barral - São Paulo 2013

 

‘Concentrada está a sua alma’, diz Wilhelm Busch a respeito do homem que sofre de dor de dentes, ‘no estreito orifício do molar’.

Freud, in Sobre o Narcisismo: Uma introdução.

 Na introdução deste trabalho é preciso considerar que “o narcisismo é um operador universal do psiquismo humano, um estruturante da subjetividade e da própria cultura, como também é o Édipo” (Dudovich, 1990). Nesse sentido, é preciso tomar cuidado para não patologizar o conceito de narcisismo, ou transformar o narciso em adjetivo, justamente para poder compreender, então, as suas patologias. Na contemporaneidade, o sujeito que não consegue realizar transferências libidinais para objetos, que se defende do ambiente hostil mediante um fechamento em si, consumido por um “amor” esvaziado, pode ser exemplo do que se chama patologia narcísica.   

O consumismo e o individualismo promovidos pelo capitalismo não dão conta de conter ou de preencher os vazios que assolam a alma humana. A preocupação narcisista com o eu oferece um apoio enganador: baseadas na ideia de que o ter suplanta o ser, as pessoas se entregam a uma rotina de trabalho e de consumo desenfreados, perdendo tantas vezes o sentido maior do trabalho, da produção, da realização.

O capitalismo gera um consumo exacerbado. A sociedade se entrega à lógica que interliga o poder à posse de objetos de consumo, que têm, por sua vez, prazo de validade estabelecido, que demandam trocas e substituições cada vez mais rápidas. Essa é a dinâmica que exacerba o individualismo, que extrai das causas coletivas o seu poder de atrair libido. O indivíduo excessivamente preocupado com o poder de consumo e ascensão social, sem condições de investir nas relações interpessoais, com uma libido concentrada em seu próprio ego, é um indivíduo em estado regredido de funcionamento narcísico.

O sujeito contemporâneo passou da busca da satisfação para a busca do prazer, e isso tem implicações significantes. O conceito de felicidade também vem sofrendo alterações e isso influencia a forma como as pessoas consomem. O consumo deixa de ser meio de expressão e se torna ferramenta de um eu superinvestido.

Na visão psicanalítica, o narcisismo que ocorre na infância é considerado como primário. Nesse primeiro momento, há um autoerotismo em que a energia libidinal estaria concentrada no ego, servindo de proteção e de fonte de fantasias. Essa etapa é indispensável para o desenvolvimento humano e não pode ser caracterizada como uma patologia. Com o desenvolvimento, essa energia libidinal ligada ao ego deve se deslocar para os objetos, ou seja, o ego narcísico deve transferir para o outro o seu desejo e a sua satisfação. Para que haja um equilíbrio psíquico, é necessário um balanceamento energético entre os investimentos no eu e nos demais objetos.

Na sociedade de consumo, há uma regressão: o narcisismo não está ligado ao outro, do mundo exterior, a libido é redirecionada ao eu. Outras características marcantes desse narcisismo são: valorização da autorealização, egocentrismo, eficiência, particularismo, hedonismo, busca por viver intensamente o presente, sedução e criatividade, fascínio pelo espetáculo e busca por novas realizações (Santi, 2008). O outro se torna, apenas, um instrumento de confirmação do próprio eu. Surgem sentimentos de desprezo e apatia em relação ao coletivo. Freud nos lembra de que a transferência de catexia libidinal do ego para os objetos externos é importante para a saúde mental. O equilíbrio do aparelho psíquico demanda essas transferências, a fim de não sobrecarregar o ego. É preciso, em última instância, amar para não adoecer.

É importante ressaltar que esse narcisismo regredido acontece como forma de proteção do ego. A sociedade que não permite que o sujeito se desenvolva de forma saudável, que o impele à competição cruel e, tantas vezes, injusta, o coloca nessa posição individualista, na qual sentimentos de impotência e desamparo, desorientação e ansiedade, demandam que o narcisismo entre em cena para que não haja tanta solidão e desamparo. “O indivíduo moderno é um indivíduo violentado, antes de ser narcisista.” (Lasch apud Santi: 2008).

Não podemos pensar que a relação mãe e filha estaria imune às circunstâncias que influenciam toda a sociedade ocidental capitalista. Também as mães sofrem com as demandas impostas pela sociedade em que vivem e, diante de tantas exigências no campo profissional, social e familiar, elas também sucumbem, se tornando mães narcísicas. O narcisismo comum, saudável, que os filhos possibilitam que floresça nos pais, pode estar sofrendo trepidações, desequilíbrios.

Através da publicidade, pode-se observar acuradamente os apelos narcísicos que a maternidade tem sofrido. Vale ressaltar que a publicidade, desde há muito, serve mais para anunciar um modo de vida do que o produto propriamente dito. É o gozo sem fim que está sendo vendido, o prazer instantâneo.  

Observemos, portanto, o slogan de uma loja infantil: “Quando crescer quero ser igual a você”. Quando a criança sai do estado de indiferenciação e é capaz de fazer escolhas objetais, é comum que tome a mãe por objeto. No primeiro momento, ainda está extremamente confundida com essa mãe, depois, percebe que a mãe existe fora dela, que é um objeto não eu e, a partir desse momento, a criança irá investir contra a mãe, para destruí-la e restaurá-la muitas vezes. É preciso que a mãe suporte e sobreviva a esse processo. O pano de fundo da infância da menina que tem uma mãe suficientemente boa é, de fato, bem ilustrado no slogan da loja: a menina deseja ser como a mãe, porque a ama. A mãe, por sua vez, precisa saber receber, conter, suportar e devolver esse amor.  A mãe precisa desejar, sem se tornar objeto de desejo, consciente de que se oferece como modelo.   É natural que a criança se espelhe nos adultos que a cercam, que queira imitá-los. A criança pequena coloca a bolsa da mãe nos ombros, dirige-se para a porta e diz “tchau”, ou recolhe os papéis de cima da mesa, ou limpa e varre a casa. Posteriormente, essa mesma criança vai brincar de casinha, de médico, de polícia e ladrão, de forma mais elaborada. Brincando dessa forma, ela treina os papéis que irá desempenhar no futuro. Mas o que acontece, então, quando a mãe, de fato, compra uma roupa para a filhinha que é igual à sua?

 

No dia das mães do ano de 2013, a loja de cosméticos O Boticário criou uma fragrância e lançou a campanha publicitária ilustrada acima. Mãe e filha teriam perfumes semelhantes, nas versões adulta e infantil. A mãe que cede a esse apelo de consumo e compra perfumes, ou roupas, semelhantes às suas para a sua filha, não estaria roubando da menina o direito de se descobrir, por si só, no universo feminino que a mãe representa?  Ao invés de brincar de ser a mãe, a menina ganha um perfume igual ao de sua mãe; a realidade captura a fantasia de forma castrante, perigosa até. A criança perde a oportunidade de reproduzir dentro de seu próprio universo de objetos o correspondente do mundo dos adultos. O individualismo entra em cena quando é negada à criança a possibilidade de dividir ludicamente com a mãe os objetos de desejo que pertencem a esta, mediante a mensagem subliminar de que cada uma deve possuir o seu. O ponto de interseção entre as duas deixa de ser a fantasia e passa a ser o consumo, o produto comprado, e não o sonhado.  O narcisismo materno se alimenta diante da possibilidade de que a criança seja, de fato, uma miniatura de seu eu.

Em campanhas publicitárias que incentivam que mães e filhas se vistam da mesma forma, com a mesma estampa ou modelo de roupa, essa sensação de ser humano em miniatura, uma cópia fiel da que a mãe é, ou foi, fica ainda mais evidente. 

A tarefa de ser mãe, para algumas mulheres, tem sério apelo egóico. O bebê há de ser, para a mãe, o falo que lhe falta. A maternidade representa, para a mulher, a possibilidade de superar o seu próprio complexo de castração. O processo de fusão entre mãe e filho(a) precisa ser interrompido, no entanto, para que a mãe possa estabelecer outros objetos de desejo e pra que a criança possa crescer, possa deixar de ser filho(a). Quando a menina torna-se a mãe em miniatura, este pode ser um sinal de que o processo fusional está se perpetuando.

Outra questão que se apresenta é que, em tempos de consumo desenfreado, a criança se torna muitas vezes um objeto de exibição.  Ter um filho torna-se mais uma tarefa a ser cumprida, numa agenda cheia de atividades. O lugar de “sua majestade, o bebê” pode estar sendo comprometido, de alguma forma, pela imposição de uma mãe majestosa, da mulher superpoderosa. 

Na sociedade das obrigações e imposições, quando muitas vezes as próprias mães se sentem sufocadas, a preocupação de ser boa mãe e de exibir esse atributo parece fazer com que as próprias crianças sejam desconsideradas. A verdade é que a maioria das mulheres se tornam mães amorosas, cuidadosas, que possibilitam aos seus filhos um desenvolvimento sadio, mas não se pode desconsiderar que o atual volume de informações e estímulos disponíveis é tão vasto que algumas mulheres se tornam ansiosas por saberem como ser boas mães a ponto de esquecer que, no fundo, o fundamental para se criar uma criança é o afeto, acima de tudo.

 Referências Bibliográficas

 FREUD, Sigmund. Sobre o narcisismo: uma introdução, 1914. In: A história do movimento psicanalítico. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 75-109. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 14).

 SANTI, P. Consumo e desejo na cultura do narcisismo. Comunicação, Mídia e Consumo, Brasil, v. 2, n. 5, 2008.

Disponivelemhttp://www.revistas.univerciencia.org/index.php/comunicacaomidiaeconsumo/article/view/5077/4693. Acessado em 13 out. 2013.

 DUVIDOVICH, E. Narcisismo – uma patologia do nosso tempo. (Terceiro Encontro do Reich no Sedes em 15/09/1990)  

Última modificação em: Sexta, 23 Janeiro 2015 17:00
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