A terapia cura?

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Com a terapia é possível mudar ou o que ocorre é uma melhora?

A terapia cura?

 

Em primeiro lugar gostaria de substituir a palavra mudar por curar. Acredito de fato que a mudança esperada por quem se sente à mercê de funcionamentos psíquicos que o fazem sofrer e que atrapalham sua vida seja uma espécie de “cura”, algo que vai além da simples mudança de comportamento.

Para a Psicanálise essa questão se apresentou desde o início, diante da constatação do próprio Freud que em algumas circunstâncias havia uma forte resistência da mente à terapia. Vários casos clínicos relatados ao longo de seus escritos demonstram que nem sempre o pai da psicanálise se considerou bem-sucedido no seu intento de cura, O próprio título do famoso texto Análise terminável e interminável, que trata do fim da análise (e portanto do momento em que paciente e analista reconhecem que ela atingiu seu objetivo), diz que essa questão não era fácil de resolver. Freud se pergunta o que justificaria falar em fim de uma terapia, ou seja, qual seria o critério de cura. Diante dessa questão ele hesita, em algum momento chega até a dizer que o objetivo da Psicanálise não é propriamente curar e sim mapear o funcionamento mental. Em outro momento ele considera que “curar” e ajudar a pessoa a aceitar com menos infelicidade as dificuldades que a vida lhe apresenta.

 

O tema da cura cruza inevitavelmente o tema da “normalidade”. O que pode ser considerado “normal” do ponto de vista psíquico e portanto um objetivo a ser alcançado?

Todas essas questões, analisadas em profundidade no meu livro A psicanálise cura? publicado pela editora Ideias & Letras, levantaram discussões e divergências entre os próprios seguidores de Freud. A “cura” consistiria em “adaptar” o sujeito para que possa se adequar àquilo que a sociedade espera dele: para que possa trabalhar e constituir uma família saudável, inserido no seu contexto social? Um ramo da Psicanálise, a Ego Psychology que se desenvolveu nos EUA, tendia para esse fim.

Nos anos 70 contudo muitas das promessas dessa corrente da Psicanálise foram questionadas, levando a certa decepção em relação ao seu poder de cura. Outras linhas de tratamento, principalmente a cognitivo-comportamental, pareciam ser mais adequadas, pois seus efeitos eram mais mensuráveis e mais alinhados ao intuito de restituir o indivíduo à funcionalidade esperada para que ele pudesse se inserir produtivamente no contexto social e ser “feliz”.

Mas afinal, o que é ser “normal”? Agir de acordo com uma “norma” que supostamente define o certo e o errado? Ou então ser normal é estar na média, em sentido estatístico, com um comportamento mental que não foge da curva do comportamento coletivo? Ou ainda ser normal é algo definido em sentido “funcional”, ou seja em relação ao que seria um funcionamento “esperado” pela sociedade?

Sem dúvida, no caso da Psicanálise, o que se espera é que a pessoa descubra como a sua psique se articula e aprenda a conviver com seus funcionamentos, melhorando a forma como as exigências do mundo interno e do mundo externo são integradas e equilibradas. Como dizia um meu paciente, a análise cura ao fazer com que você se veja “de cima”, estando presente a si mesmo na maior parte do tempo. Neste sentido a terapia ajuda o sujeito a ”estar só”, aprendendo a não depender do olhar do outro para saber quem ele é.

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