O faiscar das luzes de Natal e a Falta

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O faiscar das luzes de Natal e a Falta

Apesar do Natal ser uma festa essencialmente religiosa, ligada à tradição cristã, ela deixou de ter esse caráter para se tornar mais uma celebração do consumo. Na realidade, podemos encontrar uma reminiscência da tradição cristã em alguns rituais não estritamente religiosos que são mantidos na época natalina. É comum, por exemplo, que instituições religiosas ou leigas incentivem doações para crianças pobres, bem como outras iniciativas beneficentes, rememorando o menino-deus, nascido em condições de desamparo em Belém. Há também manifestações menos explícitas, como as tradicionais trocas de presentes e confraternizações entre familiares, amigos e colegas de trabalho. O amigo secreto tornou-se uma prática comum, ao lado da tradição de deixar os presentes em baixo da árvore de Natal.

No âmbito das práticas de mercado praticadas na sociedade capitalista, tais momentos que remetem a uma tradição religiosa específica acabaram sendo capturados pela ciranda do consumo, incentivada pelo apelo de um clima que é inspirado pela mídia, a publicidade e os cenários artificialmente criados para esse fim.

Shopping Centers, ruas, parques e até cidades inteiras (Gramado é um exemplo disso) se transformam para se tornar o palco de uma encenação multicolorida, marcada pelo brilho das luzinhas de Natal, dos corais e de decorações alusivas a personagens e cenários tipicamente natalinos, vindos de diferentes tradições.

Trata-se em suma de um grande espetáculo, do qual todos nós participamos e que, de alguma forma, toca a alma humana. No filme Uma linda mulher a protagonista Júlia Roberts chora ao assistir uma Ópera, mesmo sem entender uma palavra do que os atores encenam no palco. Provavelmente algo parecido acontece com o grande show natalino, algum significante misterioso toma conta da multidão, apesar de se tratar, na maioria das vezes de signos vazios para a percepção consciente.

É desse significante misterioso que gostaria de me aproximar. A tradição natalina cristã aproxima o ser humano da percepção de um paradoxo, que acredito remeta ao paradoxo essencial da existência humana, à ferida essencial que marca o sujeito: a falta.

Apesar dos atuais cenários natalinos apelarem para o glamour da fantasia de um mundo perfeito, onde se harmonizam magicamente os aspectos mais contraditórios da existência, fazendo com que, de repente, todos se irmanem em torno de uma árvore de natal repleta de presentes, símbolo da promessa de fartura infinita e da igualdade, os sinais da “falta” se abrem caminho na próxima esquina.

O deus-menino encerra em si o mistério de um humano marcado pelo desejo de plenitude (deus) e pela experiência da falta (menino). Trata-se de algo tão imanente à natureza humana, que sequer Deus pode evitar. Cantando ao uníssono com os coros angelicais que remetem a um infinito poderoso e transcendente, temos os pastores, os excluídos da época, desprovidos de qualquer poder politico ou econômico. Ao lado do frio noturno das noites do Oriente Médio, temos o asno e o boi, símbolos da integração com uma Natureza que é ao mesmo tempo inimiga e amiga.

Junto com o despertar da consciência, representado com a homenagem dos Magos, temos o endurecer-se raivoso da obtusidade da consciência, representado pela chacina dos inocentes perpetrada pelo poderoso Erodes.

Este é o Natal, que sorrateiro se instala em nossa alma para nos remeter à nossa impotência e à nossa dignidade.

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