Resignação diante dos cenários de perversão

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A resignação diante dos cenários de perversão

 Algumas notícias preocupantes marcaram o início da vida política do nosso país este ano. A primeira bofetada veio com o vergonhoso aumento dos honorários que deputados e senadores, muitos deles recém eleitos, concederam a si mesmos. As reações do país foram pífias, a não ser a condenação severa e sem rodeios do Bispo de Limoeiro do Norte (CE), dom Manuel Edmilson da Cruz, que em plena sessão parlamentar recusou uma Comenda que lhe tinha sido outorgada pelo Senado por sua atuação em favor dos Direitos Humanos. A voz pacata daquele homem frágil de mais de 80 anos se levantou em um corajoso protesto, denunciando a violação dos direitos humanos que os parlamentares acabavam de cometer ao aumentar seus honorários de forma tão escandalosa.

 

 Sua voz e seu gesto profético não obtiveram repercussão junto aos meios de comunicação nacionais, apesar de se tratar de um episódio de extrema gravidade. Graças à Internet, que ultimamente tem se mostrado um valioso instrumento para a construção da Democracia, podemos ouvir o seu protesto no You Tube www.youtube.com/watch?v=ZNuFlHAWwxo&feature=related). Vale a pena conferir.

Dias depois, enquanto o Parlamento estava reunido, a imprensa divulgou que o parlamentar Romário, recém-eleito, estava jogando bola na praia do Rio. Jogar bola é seu dom, mas fazê-lo no total descumprimento de seu dever de parlamentar é um gesto que agride os que o elegeram e todos nós que pagamos seus polpudos honorários.

De acordo com um levantamento da Folha de São Paulo nos últimos 7 meses os Deputados Estaduais de SP trabalharam apenas 2 meses. No segundo semestre de 2010, até outubro, nenhum projeto de lei tinha sido aprovado. O custo para os contribuintes paulistas manterem seus deputados neste periodo foi de mais de R$ 78 milhões. Enquanto isso, está em discussão na Assembleia Legislativa uma proposta que pretende acabar com o quórum mínimo obrigatório de 24 parlamentares – um quarto dos 94 deputados estaduais – para se abrir as sessões às segundas e sextas-feiras, quando não há votação de projetos. Uma forma discreta de "encurtar" a semana de trabalho dos deputados estaduais de São Paulo.

Pouco antes do Carnaval, saíram as indicações dos Parlamentares escolhidos para integrar as Comissões da Câmara que irão preparar os projetos de lei em importantes áreas como educação, reforma política, etc. Os escolhidos foram um aberto tapa para o país: Tiririca para a educação (o mesmo que se submeteu a um teste no TRE para ver se sabia ler e escrever antes de assumir o cargo) e, para discutir a reforma política, Paulo Maluf e outros membros do Congresso acusados de envolvimento em falcatruas políticas. Tudo isso mostra quão pouco os parlamentares valorizam reformas que são fundamentais para o futuro do nosso país.

Mais um exemplo, de menor envergadura. A Folha de SP flagrou um carro oficial de uma cidade de interior do Estado de São Paulo, estacionado em lugar proibido em uma rua da Capital. O agente da CET, encarregado de multar o infrator, alegou não ser permitido multar carros oficiais, embora pela lei eles devam cumprir as normas de trânsito como qualquer outro carro. A CET naturalmente negou que essa seja a sua orientação, mas podemos acreditar nisso?

Como psicanalista, me pergunto o que está por trás dessa prevaricação onipotente e perversa de quem exerce cargos públicos no nosso país. Pergunto também por que os cidadãos estão tão resignados diante dessa violência que os atinge cotidianamente. Do ponto de vista psicológico, a perversão é um funcionamento que Freud considerava próximo da psicose. Embora o perverso não deixe de se relacionar com a realidade, ele tende a manipulá-la onipotentemente a serviço do seu desejo e de sua autoafirmação narcísica, em total desconsideração e detrimento do Outro, convencido de que essa manipulação é absolutamente normal.

O que surpreende não é que possa existir algum político com esse perfil, pois isso pode acontecer em qualquer lugar, e sim que esse seja o perfil “coletivo” dos nossos políticos. Creio que se algum deles quisesse agir de outra forma, provavelmente seria colocado à margem ou ameaçado. O mesmo acontece em outros importantes segmentos da sociedade, que envolvem algum tipo de poder público, onde essa sensação onipotente de impunidade e de prevaricação está na ordem do dia.

Embora do ponto de vista psicológico existam estudos que apontam para uma identificação entre a vítima e seu agressor, talvez algo parecido ao que Paulo Freire chamava de identificação do oprimido com o opressor, neste caso parece que estamos assistindo a uma paralização diante do opressor. Podemos atribuir isso a uma espécie de trauma social? Talvez possamos levantar a hipótese de uma total sensação de impotência diante de um mundo que se revela opressivo sob inúmeros aspectos, embora se apresente com um viés sedutor sob outros aspectos. Enfim um assunto que mereceria ser aprofundado.{jcomments on}

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