Para sempre (The vow): uma metáfora sobre o amor

A trama do filme “Para sempre” (The Vow em inglês) relata a história real de um jovem casal que viu sua vida completamente transformada após Page perder a memória como consequência de um grave acidente de carro. A perda da memória é um problema mental de difícil manuseio tanto para a pessoa afetada como para os familiares. Nos casos que acompanhei, tratou-se de um fenômeno temporário, ligado a algum tipo de trauma, que pôde ser superado através da terapia. No caso que o filme relata, a perda da memória foi definitiva e abarcou o longo lapso de tempo em que a jovem saiu da casa dos pais, contra a vontade deles, para realizar o seu sonho profissional e viver uma intensa história de amor que culinou no casamento.

Deixando de lado a intrigante questão da perda da memória, que neste caso parece contrariar a lógica dos casos que envolvem eventos traumáticos (embora o evento traumático acabe aparecendo), gostaria de me focar sobre o ponto central do filme: o aprendizado sobre o amor.

Creio que, apesar da situação muito especial que o filme retrata, todo casal vive algum tipo de perda da memória e o processo de luto que tal perda envolve. Trata-se da perda daquilo que em psicanálise se chama de objeto idealizado, substituto do “objeto absolutamente necessário”, representado no início da vida pela mãe e cuja perda sempre fica no horizonte da sensação de falta que experimentamos toda vez que alguém que amamos não corresponde à imagem que tínhamos feito dele.

A nossa mente guarda a “memória” desse objeto “absolutamente necessário”, que, no entanto, como no filme, parece irremediavelmente perdido. Depois de um tempo, a relação parece se desgastar. O parceiro parece ter esquecido de quem ele “era” para nós, se apresentando como alguém sem memória, bem diferente da pessoa por quem nos apaixonamos.

O longo caminho de Leo, o protagonista do filme, é uma metáfora da construção de uma relação que possa acolher esse parceiro “sem memória”, aceitando a perda do parceiro que não "lembra" mais aquele que escolhemos.

Última modificação em: Quinta, 22 Janeiro 2015 18:48
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