O naufrágo: solidão e capacidade de estar só

Filmes
O filme O náufrago relata a história de Chuck Noland (Tom Hank), um executivo da FedEx que sobrevive à queda do avião da empresa, nadando até uma ilha deserta. Uma das cenas mais comoventes do filme mostra a terrível angústia que ele experimenta ao perder no mar uma bola de vôlei, recuperada dos destroços do avião, que ele tinha caracterizado como a cabeça de um ser humano e com a qual “conversava” ao longo dos quatro anos em que ficou sem nenhum contato com a civilização, na mais absoluta solidão.
 
Infelizmente, no mundo que habitamos, não precisa ser um náufrago para experimentar a solidão. Mesmo quem vive no meio da civilização e tem à sua disposição centenas de “amigos” no Facebook pode experimentar esse sentimento angustiante. Todos os dias conversamos com seres humanos que são tão interativos quanto a “bola de vôlei” do Chuck Noland, com uma única diferença, a bola do naufrago pelo menos dava a impressão que sabia escutar, enquanto no mundo dos humanos é cada vez mais raro encontrar alguém disposto a ouvir o outro.

Atropelados pelo barulho da civilização, capturados pelos diálogos da novela ou do Big Brother, mergulhados no bate-estaca da balada da hora, ou nas letras sem sentido de algum Pagode da moda, ficamos cada vez mais à mercê de uma solidão tão profunda que sequer a rotina maçante do trabalho e as conversas formais do dia-a-dia conseguem calar. Em casa as coisas podem não ser melhores, sobretudo quando todos parecem seguir seu roteiro diário, sem perceber as necessidades do outro. Somos náufragos no mar da civilização, cada um habitando uma pequena ilha deserta.

Assim como Chuck Noland ficou à mercê do seu isolamento até perder o medo de encarar os perigos do oceano e empreender o caminho de volta, nós também precisamos nos livrar dos nossos medos para poder “voltar”.

Mas voltar para onde? Qual não foi a surpresa do Chuck ao voltar para o seu mundo e perceber que a vida tinha continuado o seu curso sem a sua presença. Foi doloroso constatar que a noiva já tinha se casado com outro e que não tinha mais como “voltar“ ao que era, àquilo que deixara para trás. Ele deveria encarar o mundo, consciente de que estava absolutamente só, rico de sua terrível experiência, que não poderia compartilhar com ninguém, pois só ele sabia exatamente do que se tratava.

O náufrago é uma metáfora da vida, pois todos somos náufragos em busca de voltar para nós mesmos, para a enriquecedora experiência de estarmos sós.

A viagem de volta nos leva, como a viagem de Odisseu, a encarar nossos fantasmas internos, as sereias que nos atraem para a morte com o seu canto (a fuga para as drogas, o álcool, o jogo, etc.), a sedutora maga Circe que nos oferece o conforto em troca do esquecimento e da renúncia a nós mesmos, os Polifemos que querem nos devorar, se não formos suficientemente astutos para fugir de sua voracidade.

De volta a Ítaca o único que nos reconhece é o cachorro. Lá estaremos sós e deveremos lutar pelo amor da fiel Penélope, pois quem ela esperava não era o viajante envelhecido que está no seu palácio e sim o antigo rei guerreiro, orgulhoso e astuto.

Estar só é a confortante experiência de sermos nós mesmos, sem ficar à mercê das aprisionantes expectativas do outro, podendo criar nossa própria maneira de estar no mundo de forma criativa.

Última modificação em: Quinta, 22 Janeiro 2015 19:16
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