Em um mundo melhor

Premiado com o Globo de Ouro como melhor filme estrangeiro Em um mundo melhor (Haevnen em dinamarquês) costura uma interessante reflexão sobre o problema da violência. Uma parte do filme é ambientada em um conturbado e tórrido país da África, dilacerado pela guerra civil, onde o protagonista trabalha como médico em missão humanitária em um campo de refugiados. Para o médico sueco tanto faz se em sua mesa de operação está uma moça esfaqueada e estuprada pelos guerrilheiros ou um dos chefes da guerrilha: ele está focado em sua missão, em salvar vidas, obstinadamente alheio ao que acontece fora do campo. Longos silêncios, interrompidos apenas pela contraditória alegria das crianças africanas ressaltam como um marco irreal o espetáculo de violência que toma conta de um país sem lei, esquecido pelo mundo.

 Se retirando desse cenário de terror emoldurado pela árida paisagem africana constantemente varrida pelo vento, o olho da câmera se volta para o ameno cenário de uma localidade dinamarquesa. Aqui a trama se concentra na vida de dois meninos e suas famílias (um deles é o filho do médico sueco). Apesar das promessas de paz anunciadas pelas calmas paisagens nórdicas e pela vida estruturada e rotineira de um país civilizado, a violência acaba tomando conta da vida dos personagens de forma sorrateira, nos corredores de uma escola, através da prática do bullying promovido por um estudante arrogante e tendo como vítima o filho do médico,

Alguns críticos censuraram esse paralelo simplista e forçado e a intenção da diretora (Susanne Bier) de mostrar que há uma estrita relação entre os pequenos episódios de violência que caracterizam o dia-a-dia do ocidente civilizado e as guerras que assolam outros países do mundo que ainda vivem á margem da civilização.

Acho interessante, do ponto de vista psicanalítico, analisar essa “irritação” dos críticos, quando alguém questiona a “civilização ocidental” e tenta associar alguns dos seus fenômenos a situações mais radicais que acontecem em outras partes do mundo.  Alguns comportamentos violentos são tidos como “normais” ou até encorajados e acabam sendo minimizados ou até abertamente ignorados pela sociedade (atitude que no filme é encarnada pela diretoria do colégio ou pelo pai de outro menino que esbofeteia o médico sueco).

 No entanto, as raízes da violência estão presentes no nosso dia-a-dia e não têm necessariamente o rosto de um sanguinário líder africano ou de um ditador de um país islâmico. Às vezes o diabo veste Prada, para parafrasear o título do filme. Delicadas senhoras, vestindo roupa de marca e perfeitamente maquiadas, dirigem no trânsito com a truculência de um mafioso russo, sem o menor respeito pelo Outro. Menininhos que moram em prédios de luxo, são pequenos bandidinhos que judiam dos colegas mais fracos e enfrentam seus professores na escola, sabendo que terão o apoio incondicional dos pais.

 Dias atrás assisti a uma cena que ilustra perfeitamente essa tolerância pela truculência perversa. Um taxista, querendo se enfiar na faixa da esquerda, “fechou” outro carro que buzinou para evitar uma colisão. Na frente de dois policias, que se mantiveram totalmente apáticos conversando calmamente entre si, o taxista desceu do seu carro e ameaçou de “meter uma bala na cabeça” do cidadão que se sentiu agredido pela sua maneira “violenta” de dirigir. Surpreende a atitude brutal do taxista, mas surpreende mais a absoluta indiferença dos policiais que trataram uma flagrante ameaça de morte como uma normal briga de trânsito, mesmo sabendo que brigas desse tipo levam às vezes a cometer crimes.

 Faz pouco tempo, a mídia reportou o caso de um bem alinhado funcionário público que resolveu atropelar com seu carro vários ciclistas, alegando se sentir ameaçado por eles que estavam realizando um protesto a favor do uso da bicicleta.

 Estaria a diretora Susanne Bier ingenuamente enganada por traçar um paralelo entre esses tipos de violência “aceita” e protagonizada por pessoas tidas em seus meios como “normais”, e a violência protagonizada pela guerrilha tribal da África. O que um executivo vestindo Armani tem a ver com um mal-encarado guerrilheiro africano? Creio que tenha tudo a ver e que a frase: “É assim que começam as guerras”, pronunciada pelo médico sueco, não seja apenas um clichê.{jcomments on} 

Última modificação em: Sexta, 23 Janeiro 2015 09:11
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