Mundo interno e realidade compartilhada na empresa

Mundo corporativo

{jcomments on}Mundo interno e realidade compartilhada na empresa

(c) Roberto Girola 

 

Quem já teve um aquário sabe que, se pusermos peixes maravilhosos e sadios em um aquário contaminado, em pouco tempo os encontraremos mortos. Podemos observar numerosas empresas empenhadas em caríssimos processos de reestruturação, envolvendo consultorias externas, auditorias, reformulação de sistemas, gerência de processos, implementação de Knowledge Management, Data Mining, GED, ERP, SAP, etc. No entanto esses caros “peixes” podem  acabar boiando na água em pouco tempo se o ambiente empresarial for contaminado por vícios e por situações que caracterizam uma doença estrutural.

Um rápido paralelo com o funcionamento da psique humana poderá nos ajudar a entender situações bastante comuns nas empresas e avaliar sua importância, antes mesmo que se comece a falar em reestruturação. No indivíduo podemos resumir as doenças mentais em dois núcleos fundamentais: neurose e psicose (incluindo neste segundo núcleo a perversão e comportamentos anti-sociais). O que caracteriza as neuroses, são reações sintomáticas, que vão desde comportamentos obsessivos a reações psicossomáticas de caráter histérico. À base da neurose poderíamos colocar, grosso modo, uma impossibilidade de ter acesso ao próprio desejo, ao nosso mundo interno. Uma espécie de cisão entre o mundo interno inconsciente e o plano da consciência operacional. O não acesso ao mundo interno, causa um esvaziamento do núcleo central que preside às funções egóicas (self), com graves prejuízos para a possibilidade de criar  e de ter acesso às próprias energias vitais (libido), que, com o prevalecer das imposições ambientais introjetadas pelo indivíduo, passam a ser investidas em outra direção, resultando na formação de sintomas e numa estrutura de falso self . Simplificando, o indivíduo sente que não está vivo, em vez de viver em contato com o próprio desejo, passa a viver o desejo do outro, experimentando um esvaziamento contínuo.

O que caracteriza os núcleos psicóticos, em termos individuais, é a dificuldade, ou a impossibilidade de acolher a realidade. O que prevalece, nesse caso, é o aprisionamento no mundo interno, onde os  objetos subjetivos passam a ser percebidos como reais. Existe no psiquismo uma dificuldade de “pensar” determinados pensamentos, ou seja de articular o mundo interno do sujeito e as exigências da realidade externa compartilhada. Se com o prevalecer das ansiedades neuróticas o mundo interno fica à mercê dos controles do  ego, no case em que prevalecem as ansiedades psicóticas, o indivíduuo fica à mercê do mundo interno, sem que o ego possa cumprir sua função de mediar o contato com o mundo externo e com o próprio corpo.

Uma pesquisa publicada em 2001 nos EUA pode nos ajudar a entender como esses mecanismo que caracterizam o psiquismo individual, repercutem no ambiente empresarial. O objetivo da pesquisa era detectar o tempo que os altos executivos dedicam à tomada de decisão. Ao constatar os altos gastos feitos pela empresa para dar um suporte “objetivo” (isto é um dado proveniente da realidade) à tomada de decisões, constatou-se também que, paradoxalmente, o tempo dedicado à tomada de decisões era de poucos minutos. Boa parte do dia resultou ser empregada em tarefas que não incluíam o processamento e a assimilação dos dados. Tudo isso não é devido apenas à grande dificuldade em lidar com uma massa de informações cada vez maior e à inconsistência dos sistemas em oferecer dados significativos, mas também a uma tendência psicológica. Podemos dizer que, nesse caso, foi detectado o prevalecer dos processos inconscientes: a percepção subjetiva do executivo (mundo interno) é priorizada, pela incapacidade de suportar o barramento e a frustração que a realidade compartilhada impõe ao nosso mundo externo. Isto faz com que tudo aquilo que é objetivamente percebido e subjetivamente concebido (Winnicott) não possa ser articulado como um aspecto da realidade compartilhada, que é sentida como adversa e persecutória, gerando mecanismos dissociativos que operam tanto no registro pessoal como coletivo.

O ambiente empresarial parece ser muitas vezes dominado por esse tipo de funcionamento psíquico, que acaba sendo um instrumento poderoso a serviço dos processos inconscientes das pessoas envolvidas. Por causa do estresse e do clima humano aversivo, em determinadas circunstancias, o ambiente pode favorecer o desenvolvimento de um clima emocional neurótico ou até o prevalecer de núcleos psicóticos. No primeiro caso o ambiente fica sufocado por rotinas obsessivas e vazias, ou por reações psicossomáticas intensas, que atingem a saúde dos funcionários, obrigando-os muitas vezes a “sobreviver” graças à ajuda de uma medicação crônica. No segundo caso, o mercado, o cliente, o fornecedor, o colega, o chefe ou o subordinado são pensamentos que não podem ser pensados como elementos de uma realidade compartilhada, o que prevalece são as fantasias de cada um, com uma dissociação e uma fragmentação intensas do clima institucional.

Mas de que tipo de fantasias estamos falando? Trata-se de “objetos internos” ligados a processos de identificação que incluem projeções e introjeções de caráter bastante complexo. Paradoxalmente o que nós tendemos a “projetar” nos outros são justamente aspectos não integrados do nosso psiquismo, que, por não serem suportados, por não puderem ser pensados, são projetados fora de nós. A carga emocional ligada a esses núcleos “impensáveis” é extremamente grande, pois envolve lembranças emocionais, traços do nosso psiquismo extremamente dolorosos e intensos.

Este processo pode ser ainda mais doentio em instituições de grande porte, onde muitas vezes os processos decisórios são bastante impessoais e distanciados da realidade local. O conjunto de fantasias internas converge para formar uma “realidade” subjetivamente concebida da empresa. É portanto importante que um processo de reestruturação possa detectar esses processos que marcam o psiquismo institucional. Neste sentido, não seria descabido dizer que a primeira fase de um processo de reestruturação envolve “deitar a empresa no divã” e analisar os processos psíquicos inconscientes que percorrem o dinamismo relacional da empresa.

Feito esse primeiro levantamento do ambiente psicológico da empresa, é possível estabelecer um processo de conscientização interna que permita “pensar” os processos inconscientes, trazendo-os à tona e diminuindo assim sua carga emocional.  Acredito que tudo isso possa fazer parte do levantamento do ambiente interno, um dos passos necessários para que o Business Process Management se torne operacional, tendo em vista uma organização ágil e eficiente, capaz de responder às constantes mudanças exigidas pelos avanços tecnológicos e pelos novos desafios que o mercado apresenta. A empresa assim concebida não é mais uma estrutura hierárquica rígida, mas um corpo vivo, cujas artérias são os processos. Um processo interno problemático resulta sempre num cliente externo insatisfeito.

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