Do amor ao ódio

Acho que amava muito uma pessoa, mas ela me magoou. Agora sinto ódio profundo dela e pensamentos desejando o seu mau me perseguem o dia todo. Será que um dia isso vai passar? (Anônimo)

Do amor ao ódio

Embora possa parecer paradoxal, amor e ódio estão correlacionados. A nossa psique se liga ao mundo externo de forma ambígua, em uma mistura de sentimentos que vão desde o amor fusional ao ódio e à inveja.

Na sua fase inicial, imatura, a mente se liga aos objetos do mundo externo cindindo-os em objetos bons e ruins, não havendo ainda a possibilidade de lidar com a complexidade do objeto inteiro, que envolve aspectos bons e ruins ao mesmo tempo.

 Melanie Klein, uma famosa psicanalista que trabalhou especialmente com crianças, percebeu que a forma como o bebê se liga ao seio da mãe é marcada pela ambiguidade. É como se o bebê lidasse ao mesmo tempo com um seio bom e um seio ruim (por isso às vezes parece se irritar com ele), sem perceber que se trata na realidade do mesmo seio. O seio bom alimenta, o seio ruim é aquele que possui um poder aprisionante, ao qual ele não pode se subtrair, sob pena de ser aniquilado.

Os vínculos amorosos são marcados pela mesma ambiguidade. O ser amado que nos abandona e frustra nossas expectativas é odiado pelo poder aprisionante que exerce sobre nos. Isto explica o desejo de vê-lo destruído, pois passa a ser alvo de um intenso ataque por parte do inconsciente que inveja e odeia o poder misterioso do qual fomos vítimas e prisioneiros por amá-lo.

Evidentemente estamos falando de formas primitivas e instintivas de amor e não do amor maduro, que pode compreender e aceitar as necessidades do outro e também suas limitações e suas falhas, podendo se “separar” dele, acolhendo a sua autonomia.

O amor é um acontecimento. Nem sempre a sensação de estar vivendo um relacionamento significa que há de fato um vínculo verdadeiro. Mesmo assim, quando a relação termina, há uma sensação de perda. É como se tivéssemos sido traídos por quem nos decepcionou, mesmo quando já havia sinais claros de que isso iria acontecer, pois quem amávamos não era na realidade quem estava ali e sim uma projeção do nosso desejo.

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