Quando o casamento ainda não aconteceu

 

 

Minha esposa é muito dependente da mãe, vivendo mais na casa dos pais do que na nossa. Já conversei, já mudei para uma casa mais próxima, na intenção de salvar o nosso casamento, mas não adianta. Devo me separar?

Quando o casamento ainda não aconteceu

O relato bíblico, ao descrever o casamento, se refere claramente à necessidade que tanto o homem como a mulher deixem a casa dos pais para formarem um novo lar. Não resta dúvida que, mesmo para os não crentes, o ideário judaico-cristão representa um pano de fundo sobre o qual se organiza a cultura e uma visão de mundo muito antiga. . Esta “separação” (deixar a casa dos pais) na realidade é necessária para que o ser humano alcance sua maturidade emocional e possa se engajar em novas relações não apenas no casamento, mas também em qualquer outra relação que comporte algum tipo de inserção no mundo (trabalho, vida social, etc.).

A “perda” dos pais, antes mesmo de ser uma experiência real marcada pela morte de um deles ou de ambos, é uma experiência psíquica, um passo importante no processo de amadurecimento emocional do sujeito.

Para podermos estar com alguém precisamos antes aprender a estarmos sós, testar a nossa capacidade de autonomia. Sem esse amadurecimento psíquico não é possível assumirmos o nosso lugar no mundo.

Trata-se de uma “perda  que traz um grande ganho: a possibilidade da autonomia, através da vivência do processo de separação. Não se trata apenas da separação física, geográfica (deixar a casa dos pais), mas sobretudo de uma separação psíquica, vivida na apropriação de si mesmo e da possibilidade de se responsabilizar pelas próprias escolhas.

Embora o nosso leitor fale na possibilidade da separação, parece proceder a pergunta se realmente houve um casamento. O casamento de fato supõe que o homem e a mulher estejam minimamente preparados a se responsabilizar pelo novo lar que estão constituindo. A relação “fusional” com os pais ou com um deles (a mãe neste caso) certamente é um grande obstáculo para que isso aconteça.

Por outro lado, situações desse tipo parecem apontar não apenas para a dificuldade do filho(a) de se separar dos pais, mas também para a dificuldade dos pais de se separarem dos filhos. A tentação de manter o filho “próximo” demais pode resultar em um sério prejuízo para o seu processo psíquico de amadurecimento e para a sua inserção saudável no mundo. Neste sentido ser pais supõe uma boa dose de desprendimento.

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