Relação amorosa: quem manda?

Numa relação amorosa alguém tem de mandar?

Relação amorosa: quem manda?

Quando um homem afirma com ironia: “Lá em casa a última palavra é sempre a minha: sim senhora!”, a maioria das mulheres concorda com um inocente sorriso de aprovação. No entanto, se houver um machista convicto por perto, não perderá a ocasião para sentenciar: “Homem é quem tem que mandar em casa!”. Se a conversa envolver um grupo de crentes é possível que alguém reforce a dose dizendo: “Até na Bíblia está escrito que o homem é a cabeça!”. Certamente com isso a discussão ficaria ainda mais acalorada.

A função da Psicanálise não é determinar o que “tem” que ser e sim, apenas, analisar o que é. Olhando para a complexidade do psiquismo humano, esta questão não é tão simples como pareceria à primeira vista. A experiência clínica mostra que existem conflitos profundos em torno desse tema que acabam tomando conta da vida amorosa e conjugal de forma bastante sofrida.

 Como já afirmei em outros artigos, existem aspectos masculinos e femininos tanto no homem como na mulher. Isto por si só já pode marcar o funcionamento psíquico do par no âmbito da relação amorosa ou conjugal, impedindo que possamos traçar de forma simplista o que “tem” que ser. A predominância do aspecto masculino ou feminino não depende necessariamente do sexo da pessoa e, menos ainda, de sua orientação sexual. A predominância de um aspecto ou de outro depende na maioria dos casos da predominância de identificações com o aspecto masculino e feminino dos pais e da forma como este aspecto foi por eles apropriado.

Uma identificação da mulher com um traço masculino forte da mãe pode levá-la a seguir um modelo que favorece a predominância nela de aspectos masculinos, ou, no caso dessa mãe ser “inconscientemente odiada”, com uma prevalência da tendência à submissão e da fragilidade do pai, caso houvesse nele uma predominância de elementos femininos. Enfim, esses cruzamentos identificatórios da infância são bastante complexos e determinam como o sujeito se posiciona no mundo na idade adulta.

Além da prevalência dos aspectos masculinos e femininos, outro importante aspecto que marca a forma como um sujeito se posiciona na relação amorosa é o desenvolvimento do seu Eu profundo, do seu senso do Self (Si-mesmo). Um Eu profundo fragilizado leva inevitavelmente à submissão e impede que o sujeito consiga se “impor” diante do mundo, independentemente dele ser homem ou mulher. Um Eu profundo fragilizado impede que o sujeito assuma um papel dominante em qualquer relação.

Para complicar mais as coisas é necessário levar em conta a influência muito grande do processo edípico da criança, lá pelos quatro/cinco anos. O filho é de alguma forma o terceiro excluído da relação amorosa entre os pais.  Esta exclusão determina a forma como ele ou ela se posiciona diante do limite e da “lei”. Evidentemente alguém que não pôde constituir em si a noção de limite, terá grandes dificuldades de se submeter aos limites que a relação amorosa e a entrada do outro na sua vida impõem.

Para concluir, vale a pena frisar como a maior complexidade dos papeis sociais do homem e da mulher contribui fortemente para tornar esse quadro ainda mais complexo já que hoje em dia não são raros os casos em que a mulher é mais “potente” do que o marido no plano profissional e econômico, questionando a potência fálica do homem.

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