O que está por trás do ciúme e da possessividade?

O que está por trás do ciúme e da possessividade?

 Tanto na literatura, como no cinema não faltam tentativas de explorar a fundo o ciúme, esse sentimento profundo e amargo que perturba a alma humana tornando as relações de qualquer tipo difíceis e conturbadas.

O ciúme não acomete somente os amantes, mas também os irmãos, os amigos e até os vizinhos e os colegas de trabalho. Se o sentimento é perturbador para quem sente ciúme, não é menos incômodo para quem é objeto do ciúme alheio, pois a relação se torna invariavelmente perturbada, difícil, hostil e às vezes impossível.

Mas o que movimenta sentimentos tão intensos e difíceis de ser controlados, que podem até ocasionar reações violentas e imprevisíveis? Se perguntarmos à quem sente ciúmes, ele terá sempre à sua disposição uma lista de argumentos para justificar seus sentimentos. As queixas geralmente envolvem sentimentos de abandono, de postergação (ser passado para trás), de falta de cuidado, de estar sendo injustiçado. Enfim o ciumento sente que algo ou alguém que julgava ser dele de direito lhe foi roubado. Estamos falando basicamente de afetos, muito embora às vezes o ciúme envolva também objetos.

Se o sentimento é de perda, isto significa que o ciúme envolve uma sensação interna de esvaziamento. Algo que tinha sido inconscientemente “colocado” no outro ou em uma determinada situação, é roubado, fazendo com que o ciumento se sinta privado daquilo que lhe pertencia. Poderíamos comparar o ciumento a alguém que guardou um bem precioso, que julgava ser seu, no cofre. Qual será sua surpresa ao perceber que o cofre onde havia guardado seu bem precioso não lhe pertence “mais”. Na realidade nunca lhe pertenceu, mas, por um movimento inconsciente de apropriação, o ciumento tinha se apropriado do cofre alheio, julgando ser seu o que nele “depositou” projetivamente. Sofrido é perceber que não somente o cofre não era dele, mas sequer era dele aquilo que ele achou ter ali depositado.

Ciúme sempre remete à falta. O “outro” se torna o alvo de um desejo de posse, que envolve a apropriação de algo que faz falta ao ciumento. O ciumento não consegue se bastar. Ele precisa do outro, ou de outra coisa, para se completar, denunciando assim seu empobrecimento interno.

A sensação de ter sido roubado é tão intensa que o ciumento tenta de toda maneira voltar a se apropriar daquilo que julgava ser dele, de pleno direito, sem questionar se esse direito de fato existe ou não. O processo envolve um sentimento profundo de raiva e desperta surtos de agressividade, que podem ser mais ou menos intensos indo de ataques velados a ataques mais explícitos de caráter verbal ou até físico.

A carência do ciumento incomoda por envolver uma queixa continua. O carente está continuamente se queixando de sua falta. Um buraco negro que frequentemente acarreta uma voracidade (afetiva) insaciável. Isto explica por que o alvo do ciumento se sinta na maioria das vezes atormentado por um sentimento perturbador de impotência, que o leva pouco a pouco a querer se livrar definitivamente da presença incômoda do ciumento. O ciúme é portanto um sentimento que provoca a reação contrária daquilo que supostamente pretende, manifestando assim um aspecto curioso de auto-sabotagem.

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