Quando a princesa vira bruxa e o príncipe sapo

Vida amorosa e sexualidade

Quando a princesa vira bruxa e o príncipe sapo

 É só uma questão de tempo: cedo ou tarde a princesa vira bruxa e o príncipe sapo. Talvez isso explique porque mais de 40% dos casamentos acabe em divórcio e o restante muitas vezes se sustente com a sensação de ambas as partes de que algo está faltando na relação do casal.

Diante das estatísticas temos dois tipos de reações. Alguns apostam que o casamento como instituição chegou ao seu fim. Outros teimam em dizer que, seja como for, casar ainda é a melhor solução para evitar a solidão e a perda de sentido da vida.

Escutando meus pacientes, casados e solteiros, me deparo frequentemente com esse paradoxo. Os casados lutam contra o tédio, a perda de interesse por seus parceiros e, às vezes, até contra certa agressividade que percorre a relação do casal; Os solteiros invejam os casados e se queixam que não conseguem encontrar “alguém” que possa preencher o vazio de suas vidas.

Creio que um primeiro problema possa ser relacionado a uma fantasia que caracteriza tanto dos solteiros como dos casados. Ambos moldam seu desejo a partir de uma imagem interna sobre o casamento. Para estes últimos trata-se de como o casamento “deveria ter sido”, para os outros de como o casamento “seria” se encontrassem um parceiro.

Apesar da realidade não confirmar tal fantasia, existem na cultura inúmeras fontes que a sustentam e a alimentam. A vida amorosa é um dos principais ingredientes da maioria dos filmes, novelas, literatura, programas televisivos, sem contar a publicidade, os sites da Internet e as revistas de todo tipo. Um dos primeiros desafios para construir uma relação saudável é superar esse impasse. O casamento supõe um vínculo entre duas pessoas reais. Nem príncipe e nem princesa têm vez na manutenção de uma relação verdadeira. Deixar de relacionar-se com uma fantasia pode ser de imensa ajuda tanto para os casados, como para os solteiros que anseiam casar.

Este, no entanto, é apenas o primeiro passo. O encontro com alguém real supõe o estranhamento, a surpresa e até certa dose de frustração, toda vez que o outro se apresenta como  “diferente”. Poder sobreviver à diferença sem que nos sintamos “destruídos” por dentro requer equilíbrio emocional. As formas com as quais o outro se apresenta não são “a forma correta de ser”, são apenas “uma das formas de ser”, na maioria das vezes sequer a mais completa e estimulante. Isto vale para o outro e vale também para nós na relação com o outro. Ao apresentarmos nossas formas de ser estamos apenas apresentando “uma” forma de ser que, mais uma vez, pode não ser a melhor e nem a mais interessante.

Um psicólogo americano, se refere a esse encontro, como ao momento em que o casal procura sobrepor seus mapas existenciais, contendo as referências construídas ao longo de toda uma vida, para chegar a um mapa comum, que permita aos dois de não se sentir perdidos. Os mapas existenciais são extremamente pontuais. Como dizia uma amiga terapeuta, crenças tornam-se regras.

Os mapas contém o caminho que até então consideramos “certo” (crença) para determinadas situações. Isto pode incluir desde a maneira como consideramos que a nossa casa deve ser, até a maneira como comemos, tomamos banho, lavamos os pratos, vestimos, etc. Cada um tem um pequeno mapa que sinaliza o caminho “certo” paracada situação. Para nossa surpresa, raramente nosso mapa coincide com aquele do parceiro.

Superada a importante fase de “corrigir os mapas” (infelizmente isso não pode ser feito com um download de novos mapas via Internet), ainda existem situações em que um mapa comum não poderá ser encontrado. Este é o momento da solidão. Cada um se depara nessas situações com uma profunda e irreparável solidão. Não há caminhos comuns para algumas situações. O que fazer então?

A tentação é teimar em traçar um mapa comum, mas a única solução é aceitar que esse mapa não existe e que cada um deverá percorrer trechos do caminho na mais profunda solidão. Aprender a estar só é, a meu ver, a condição para poder estar com o outro. Estar só também é a maneira de permitir que o outro esteja só, quando o deseja. Nem sempre o casal caminha de mãos dadas.{jcomments on}

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