Casamento desgastado

Minha mulher e eu já não somos mocinhos e percebo que, ficando velhos, somos mais impacientes um com o outro. Cada um tende a ficar no seu canto e raramente fazemos algo juntos sem brigar. Eu gostaria de viver os últimos anos de minha vida com alguém que fosse realmente uma companheira. Os filhos já estão criados, me pergunto se devemos continuar juntos nessa relação desgastada ou se é melhor encarar a separação. Homem de 60 anos – SP

 

Repensando o casamento

 

 A realidade mostra que nem sempre é possível realizar o sonho de um casamento estável que dure a vida inteira. O desejo de envelhecer ao lado da pessoa amada pode ser frustrado pela rotina, pelos desentendimentos e pela aridez de uma vida que perde o seu sabor e o seu sentido.

Estar com o outro deixa de ser uma experiência prazerosa e se torna uma rotina vazia, árida e sem sentido. Uma intensa sensação de frustração toma conta do convívio do casal. Cada um parece perceber que aquele homem ou aquela mulher com quem convive não satisfaz as expectativas afetivas mais elementares.

Muitas vezes o desgaste de um casamento é atribuído ao desgaste da vida sexual, mas nem sempre essa é a razão principal. O desgaste afetivo e emocional geralmente antecede o desgaste da vida sexual e, na maioria dos casos, é a razão que impede uma vida sexual saudável.

Quando isso acontece surge o desejo irresistível de “mudar” o outro. O primeiro recurso usado para esse fim é a queixa, na qual a frustração de cada um é canalizada de forma agressiva e “despejada” sobre o outro.

A queixa não é a mesma coisa do diálogo. Na queixa projeta-se no outro todo o descontentamento e a frustração por ele estar aquém das nossas expectativas, por ele ser chato, cansativo, insuportável. No diálogo, procura-se manifestar para o outro os nossos sentimentos, sem querer culpá-lo, apenas reconhecendo que algo está acontecendo e que isso gera um incômodo. O objetivo do diálogo é tentar entender o que está acontecendo, olhar para o problema e tentar superá-lo.

Se no diálogo a pessoa está disposta a se “deslocar” para tentar enxergar as coisas a partir da maneira de sentir do outro, na queixa prevalece apenas a maneira de sentir de quem está se queixando.

O desejo que o outro mude está à base de muitos desentendimentos e frustrações, pois, geralmente,  é muito difícil que o outro possa mudar da forma como pensamos e no curto prazo que a nossa frustração pode suportar.

As pessoas mudam. O processo terapêutico mostra o quanto isso é possível e maravilhoso de se assistir, mas elas mudam da forma como podem mudar, de acordo com sua personalidade e dentro dos limites impostos pelo seu psiquismo. Nunca as pessoas mudam de acordo com o nosso desejo e as projeções que são depositadas nelas.

O marido que eu desejo ou a mulher que eu sonho não existem, existe apenas um ser humano que está ali, na minha frente, com suas formas, sua personalidade e sua neurose. É com esse homem ou essa mulher que eu posso querer estar pelo resto de minha vida ou não.

É bastante comum nos consultórios receber ligações de mulheres e homens que gostariam de marcar uma consulta para o parceiro no intuito de “conserta-lo” para “salvar o casamento”. Nesses casos aconselho a pessoa que liga de fazer ela mesma a terapia, pois apostar na mudança do outro para salvar o casamento é, na maioria dos casos, uma aposta perdida.

A reação oposta pode ocorrer quando alguém desiste de si mesmo para manter o casamento. Trata-se de uma das situações mais penosas, pois não odemos nunca desistir de nós mesmos sem correr o perigo de desistir da vida e adoecer psíquica ou fisicamente. A primeira condição para enfrentar qualquer situação difícil é que possamos “estar vivos”. Esta é a condição fundamental para que algo aconteça ao nosso redor de forma positiva.

Mesmo assim que o casamento foi um erro é sempre uma situação muito dolorosa. Anos investido em um sonho se esvaem diante dos nossos olhos. Como dizia um amigo, a separação é sempre uma situação de falência, em que juntamos coisas ruins e boas, as colocamos em uma caixa e a abandonamos à correnteza do rio vendo-a se afastar de nós.{jcomments on}

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